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O perigo das leis “antiblasfêmia”

Semana passada li duas notícias que representam uma pequena amostra do que acontece quando o poder religioso se embrenha no funcionamento do Estado.

No Egito, Saber Aber foi condenado a três anos de prisão sob a acusação de blasfêmia e desprezo à religião. Sua prisão ocorreu em setembro após denuncia de que seria o responsável por postar no Facebook o famigerado projeto de filme chamado “A Inocência dos Muçulmanos”. Embora não tenha ficado provado que ele foi o autor da postagem, foram encontrados em seu computador materiais tidos como ofensivos a Maomé. Há alguns dias ele foi liberado, mediante pagamento de fiança, para recorrer da decisão em liberdade.

Em outro caso ocorrido há alguns meses, um indiano chamado Edamaruku Sanal foi processado por blasfêmia devido à apresentação de um programa de TV em que detonou um suposto milagre. Sanal demonstrou que a suposta água benta que gotejava em um crucifixo era, na verdade, infiltração proveniente da rede de esgoto. Quem o processou foi uma entidade chamada Catholic & Christian Secular Forum (C&CSF) com o apoio da cúpula da Igreja Católica na Índia. A fiança solicitada por ele foi negada pela justiça, e por isso ele fuigiu para a Finlândia, enquanto seus advogados negociam a sua volta para a Índia sem que seja preso. Joseph Dias, representante da C&CSF, disse que desistiria do processo, desde que o cético peça desculpas, coisa que ele não pretende fazer. A Índia, apesar de ser um país formalmente laico, possui uma lei “antiblasfêmia”. Segundo a C&CSF, a liberdade de expressão de Sanal não lhe daria o direito de menosprezar crenças religiosas, embora dificilmente o programa apresentado por Sanal pode ser considerado como um ato de menosprezo à crença cristã, uma vez que seu objetivo era simplesmente dar uma explicação natural para um fenômeno banal.

Apesar de casos como esses parecerem estar longe da nossa realidade, não podemos nos esquecer que o Brasil também tem seu próprio dispositivo “antiblasfêmia”. Vejamos o que diz o art. 208 do Código Penal:

“Art. 208 – Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:
Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.”

Aí está, a nossa própria “Lei antiblasfêmia”. Não tenho nada a dizer sobre a questão de “impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso”; sendo a liberdade de crença e o livre exercício de culto direito garantidos constitucionalmente (inciso VI, art. 5º da CF), essa parte do art. 208 do CP me parece coerente. Todavia, vamos refletir um pouco sobre as duas outras partes que grifei em negrito.

Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa

Ora, como assim? Escarnecer nada mais é do que tirar um sarro, dar uma zombada, desdenhar. Por que deve haver um dispositivo no Código Penal que impeça as pessoas de serem alvo de escárnio devido sua escolha religiosa? Não deveriam as crenças de qualquer pessoas estarem disponíveis para tiração de sarro da mesma forma que estão o time do coração, o posicionamento político-partidária ou o gosto musical? Em uma democracia laica, qual o sentido de blindar dessa forma as posições religiosas?

vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso

Embora não seja uma palavra muito comum no vocabulário do dia a dia da maioria das pessoas, “vilipendiar” não é nenhum ato horrendo; trata-se somente de menosprezar em atos, gestos ou palavras, no caso o menosprezo seria direcionado a algum tipo de ato ou objeto de culto religioso (por exemplo, o ato de batizar pessoas em uma piscina ou objetos como estátuas que representem algum(a) santo(a)). Dentro das definições possíveis, também podemos falar em depreciar, desprezar, afrontar, ofender, insultar. Pois bem, não há motivos para defender a necessidade de ter um dispositivo no Código Penal que impeça o desprezo à bandeira de um determinado time de futebol, ou a ofensa verbal a algum estilo de dancinha característico de um tipo de música, ou o menosprezo ao símbolo de algum partido político. Mais uma vez lembrando que (supostamente) estamos em uma democracia laica, por que nos preocupar em proteger dessa forma atos ou objetos de culto religioso? Ressalto que não me refiro aqui, necessariamente, a atitudes tais como chutar despachos de candomblé, pisotear crucifixos ou queimar exemplares da Bíblia ou do Alcorão (embora, na minha opinião, nem esses tipos de ação deveriam ser necessariamente repreendidos); mas dada a amplitude do conceito de “vilipendiar”, não deixa de ser preocupante que demonstrar desprezo a algum objeto de culto religioso seja considerado crime.

Salvo engano meu, felizmente não há muitas notícias de aplicação frequente do art. 208 do CP em ações penais (se alguém conhecer exemplos, está convidado a postá-los nos comentários); entretanto, há que se pensar se é realmente necessário ter esses atos tipificados como crimes, até porque devemos ficar atentos para o avanço de representantes de setores religiosos para dentro da estrutura do Estado, setores estes que podem vir a utilizar o art. 208 do CP de uma maneira nada agradável.

Por fim, deixo registrado que não sei o que acontecerá com esse dispositivo na reforma do CP que está sendo discutida; não encontrei notícia sobre isso e agradeço caso alguém que tenha a informação compartilhe conosco nos comentários.

Religioso culpa falta de orações por massacre em escola nos EUA

Alguns religiosos conseguem nos surpreender pela capacidade de falar atrocidades até mesmo (ou talvez principalmente) em momentos de tragédia.

Após o massacre na escola Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, que matou 26 pessoas, dentre as quais 20 eram crianças com idades entre 6 e 7 anos, um cristão conservador chamado Bryan Fischer declarou em seu programa de rádio que Deus não teria protegido as vítimas porque as orações foram proibidas no sistema público de educação dos EUA. Segundo notícia do Huffington Post, eis algumas palavras dele (em tradução livre):

“A pergunta irá surgir, onde estava Deus? Eu achava que Deus se importava com as crianças pequenas. Deus protege as crianças. Onde estava Deus quando tudo isso aconteceu? Aqui está a resposta: Deus não irá onde não é querido.

Nós passamos 50 anos dizendo a Deus para sumir, dizendo a Deus que nós não o queremos em nossas escolas, nós não queremos rezar em nossas escolas, não queremos rezar antes dos jogos de football, não queremos rezar nas formaturas…

Em 1962 nós chutamos as orações de nossas escolas. Em 1963 chutamos a palavra de Deus das escolas. Em 1980 chutamos os 10 mandamentos das escolas. Chutamos Deus de nosso sistema público de educação. E eu acho que Deus diria a nós: ‘Ei, eu ficarei feliz em proteger as suas crianças, mas vocês têm que me convidar para voltar a seu mundo primeiro. Eu não vou a nenhum lugar onde não me querem. Eu sou um cavalheiro.’.”

E ele não foi o único. Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas, fez declarações similares. Segundo Huckabee (em tradução livre):

“Nós perguntamos por que há violencia em nossas escolas, mas nós removemos Deus de nossas escolas. Deveríamos ficar tão surpresos que nossas escolas tenham se tornado um lugar de carnificinas?”

É bastante claro para mim os motivos que tornam importante que escolas públicas em uma democracia laica sejam locais religiosamente neutros, nos quais não haja a imposição de rituais de uma crença (no caso o cristianismo) a toda a comunidade que frequenta tal espaço (exemplo que deveria ser seguido pelo Brasil, diga-se de passagem). Por isso, fico incomodado com esse tipo de declaração estúpida vindo de pessoas que têm acesso a uma audiência considerável. Não duvido que eles realmente pensem dessa forma; não duvido que esses dois (e muitas outras pessoas, certamente) realmente acreditem que a divindade à qual prestam profunda reverência seja de tal forma psicopata e vingativa que em toda sua suposta onisciência e onipotência escolhe deixar que um maníaco invada uma escola pública e mate tantas pessoas, simplesmente porque seu saco não está sendo puxado diariamente.

Para mim, obviamente sequer faz sentido esse tipo de declaração. Sendo ateu, a própria noção de que algum deus pudesse, caso desejasse, intervir em tragédias já me soa absurda. Porém isso não é exclusividade de ateus e agnósticos. Muitos religiosos certamente concordariam comigo. Não é todo cristão, muçulmano, hindu, etc, que acredita que há uma mão celestial invisível que intervirá para evitar massacres, furacões, terremotos ou outro tipo de evento.

Todavia, não podemos desconsiderar que há muitas pessoas que pensam nessa mesma linha do Bryan Fischer e do Mike Huckabee, e como estes parecem ter acesso fácil a meios de comunicação para espalharem esse tipo de besteira, não me surpreenderia em nada que muitas vozes ecoem o que eles dizem e apoiem propostas que visem minar a separação entre religião e Estado, seja lá nos EUA, seja aqui no Brasil.

O que esses senhores fazem com declarações desse tipo é tentar criar um bode expiatório que leve a culpa por tragédias como essa, para assim tentar agregar apoiadores para suas pretensões teocráticas.

CHS 2012, um pouco do que vi e vivi

Agora, já com o distanciamento de quase 1 semana da realização do 1º Congresso Humanista Secular do Brasil, posso parar para dar minhas impressões sobre o evento.

Foi uma grata e extraordinária surpresa. Não apenas pelo evento, que foi excepcional, mas também pelo meu envolvimento pessoal. Como o Sérgio Viula já escreveu muito bem sobre o evento em si (além de já haver dois resumos aqui e aqui), vou me dedicar mais às questões pessoais.

Foi um momento histórico para mim finalmente conhecer pessoalmente, cara a cara, pessoas com quem já há alguns anos (no caso da “velha guarda” da LiHS/Bule Voador) ou meses (no caso dos quase recém-chegados) tenho tido contato praticamente diário por email ou redes sociais, nessa incessante e ainda inicial luta por um Brasil (e por que não dizer, um mundo) mais laico, mais secular, menos intolerante, mais digno, mais humanista.

Tirando o grande Daniel Oliveira, que já havia encontrado aqui em BH em uma visita relâmpago, ainda não conhecia pessoalmente nenhum dos outros diretores da LiHS que lá estavam presentes (embora já conhecesse a voz de alguns devido a algumas reuniões por skype, além da voz e face do presidente e da vice-presidenta da LiHS, Eli Vieira e Asa Heuser, por vídeos no youtube). Todos(as), sem exceção, são pessoas incríveis, e faço questão de citá-los textualmente, mesmo que com alguns eu não tenha tido a oportunidade de conversar mais longamente. Então, além dos três já citados, vai meu grande abraço virtual para Eduardo Patriota, Luciano Rossato, Natasha Avital, Jacob Reis, Cíntia Brito, Giuliano Gasparini, Roberto Luiz Rezende, Douglas Donin, Shirley Galdino, Juliana Paukowski, Conrado Klockner, Luiz Henrique, Stíphanie Silva, Sérgio Viula, Jessika Andras (uma das mais novas diretoras nomeadas pós-CHS)… é, acho que não esqueci ninguém da diretoria da LiHS que eu conheci pessoalmente, mesmo que com alguns o contato tenha sido bem rápido. E não posso deixar de lembrar também do Celso Masotti, membro da LiHS, um cara incrível, bem humorado e sensato, que gentilmente filmou todo o evento, e cujos filmes que vêm por aí estou esperando ansiosamente para assistir.

Vou registrar também a minha satisfação em ver, ouvir, conhecer, conversar e/ou dividir umas Heineken com algumas pessoas que eu também só conhecia da internet de uma forma mais distante, como leitor ou ouvinte. O Kentaro Mori (com ele já havia trocado alguns emails devido à minha participação no site da campanha 10:23), do site Ceticismo Aberto, o melhor site cético do Brasil, o jornalista Carlos Orsi, que gentilmente aceitou meu convite pra participar da mesa de ceticismo, o Alex Castro, cujos textos, crônicas, contos e livros são esplêndidos, o Jorge Quillfeldt, cuja voz eu ouço quase toda semana no podcast Fronteiras da Ciência, o Renato Zamora, que também já participou do fronteiras, o Márcio Retamero, que atualmente também contribui no Bule Voador, enfim, com alguns eu tive um contato mais próximo durante o CHS (como o Kentaro e o Carlos), com outros nem tanto, mas tudo valeu bastante a pena.

Todas as palestras e mesas redondas foram edificantes, algumas até bem emocionantes, com destaque para a Maria Berenice e a Marina Reidel, que emocionaram, cada uma a sua maneira, não só a mim, mas a cada ser humano naquela platéia. A fala do Renato Zamora, explicando e fundamento por que a violência contra crianças em nome de uma suposta “educação” não passa de pura e simples ignorância. A exposição do Desidério Murcho, sobre o sentido da vida para ateus. Os dados sobre violência trazidos por Marcos Rolim. Uma breve história do ateísmo resumida pelo Francisco Marshall. A aula de genética humana ministrada por Francisco Salzano. O panorama do secularismo pelo mundo, apresentado por Carlos Díaz, atual presidente da Atheist Alliance International. Bom, realmente foi um evento histórico, como ouvi de várias pessoas lá.

Estou lá no cantinho esquerdo da foto, momento do encerramento oficial

Quem não foi, perdeu. Fica pro próximo!

Arcebispo fala (besteira) sobre família e judiciário

É bom que certos líderes religiosos não tenham papas na língua e falem qualquer coisa que lhes venham à cabeça, afinal, a liberdade de expressão de todo cidadão deve ser defendida como um direito fundamental, o que nos dá, em certas ocasiões, a oportunidade de expor como alguns desses líderes são preconceituosos e, efetivamente, gostariam de alijar o direito daqueles que a eles não se subordinam.

Em entrevista ao site Sul21, o Arcebispo Dom Dadeus Grings, líder da arquidiocese de Porto Alegre-RS, falou algumas bobagens que ilustram o que escrevi no parágrafo acima.

Ao ser perguntado sobre a decisão do TJ-RS de retirar os crucifixos ostentados em suas dependências, o arcebispo disse que essa medida teria como objetivo “atingir a Igreja” e afirmou que “o Judiciário cortou sua última ligação com a sociedade brasileira”, já que esta “é profundamente cristã” e “aprecia muito os símbolos religiosos”. O “Don” ainda disse que essa decisão não passa de “faniquito anticlerical”.

Engraçado ele falar em faniquito, pois analisando bem as declarações dadas, parece-me que é justamente ele quem está fazendo muito barulho por quase nada. “Don” Dadeus até poderia reclamar caso o TJ-RS estivesse proibindo as igrejas de ostentarem crucifixos, ou ordenando a retirada de crucifixos de ruas e praças, ou impedindo os servidores do tribunal de utilizarem pingentes religiosos em suas correntinhas de ouro; mas obviamente não é esse o caso. O judiciário gaúcho simplesmente entendeu que em uma repartição pública os únicos símbolos que devem ser ostentados em paredes e áreas comuns são aqueles pertinentes à República Federativa do Brasil ou a seus estados/municípios membros, e não esta ou aquela peça de idolatria de uma determinada religião, independentemente da quantidade de fiéis que tal religião possua ou de estes supostamente serem maioria da população.

O “Don” continua seu ataque dizendo que “O pior de tudo é que os magistrados acolheram, perante uma larga maioria de cristãos, a opinião de um grupo muito pequeno de lésbicas“. Aqui ele demonstra que provavelmente tem uma visão muito equivocada de como se atua em uma democracia; cai no mesmo erro daqueles que ingenuamente acreditam que democracia é, simplesmente, fazer valer a opinião da maioria sobre a minoria. A análise do TJ-RS sobre o caso foi irreprensível, como pode ser conferido em um post sobre o caso publicado aqui no Bule Voador; democracia não é aceitar acriticamente o que a maioria pensa ou quer, mas sim tomar decisões baseando-se em argumentos como “o princípio democrático contramajoritário justificaria plenamente a defesa de eventuais minorias quanto ao abuso das práticas religiosas da maioria, especialmente as de raiz inconstitucional“, parte integrante do voto do relator da matéria no TJ-RS. Ademais, é completamente irrelevante quem ou qual entidade fez o pedido inicial; a decisão do TJ-RS foi baseada em argumentos defendidos pelo próprio TJ (na figura do relator), e não em alguma característica do solicitante.

Claro que “Don” Grings não se limitou a falar somente sobre o caso dos crucifixos no TJ-RS, e no meio da entrevista eis que aparece um clássico exemplo de declaração preconceituosa tão comum a líderes católicos. Disse o “Don”: “hoje passamos por um momento em que a família não é valorizada. Além disso, o Governo não tem apoiado a família. Agora, o Estado faz tudo que pode contra a família. Com a autorização do casamento homossexual e do aborto, o Estado contribuiu para eliminá-la por dentro. Então, a única instituição que defende a família é a Igreja“.

Como poderíamos esperar outra coisa? Eis que aparece a estapafúrdia relação “casamento homossexual levará à eliminação da família”. O arcebispo, tal qual outros líderes (e fieis) de sua igreja, é incapaz de enxergar o mundo para além da viseira que lhe cobre lateralmente os olhos; para esses, família é apenas aquela entidade tradicional formada por papai, mamãe e filhinhos. Não satisfeitos com essa visão estreita, ainda querem fazer valer a ideia absurda de que dois homens ou duas mulheres que se casem estariam, de alguma forma obscura que só faz sentido na cabeça deles, atingindo e levando à eliminação aquilo que se convencionou chamar de “família tradicional”.

Reafirmo que é bom que líderes religiosos como “Don” Dadeus emitam esse tipo de opinião; é provável que ele consiga convencer muita gente com as besteiras que ele fala, mas por outro lado cada vez mais há pessoas capazes de questionar esse tipo de opinião equivocada e preconceituosa.

Ressurreição, um mito

Recentemente, no último dia 11 de abril, o colega André Tadeu de Oliviera publicou na coluna Advocati Fidei do Bule Voador um interessante texto de Alister McGrath em que este expõe a interpretação do teólogo luterano Rudolf Bultmann acerca da suposta ressurreição do personagem Jesus, evento que teria dado origem àquela data amada por todos os que, de alguma forma, dependem da indústria do chocolate.

Pretendo neste pequeno texto fazer algumas considerações que passaram pela minha cabeça.

André Tadeu, em sua introdução ao texto, apresenta uma frase que merece destaque:

“Como dogma central do cristianismo, é correto afirmar que sem a ressurreição a religião baseada nas tradições sobre o nazareno perde completamente seu sentido.”

Imagino que quase todo mundo concordaria com esse trecho. Parece-me que para os cristãos o retorno de seu messias dos mortos seria o que há de mais milagroso em toda a fábula criada em torno da vida de Jesus de Nazaré. Mesmo que se ignore qualquer outra das histórias existentes no Novo Testamento, tal evento configuraria algo certamente extraordinário e digno de devoção.

Pois bem, eis que no texto publicado na íntegra por André Tadeu, Alister McGrath apresenta alguns pontos muito interessantes, os quais reproduzirei abaixo:

“Bultmann compartilhava a convicção básica de Strauss de que, nessa era científica, era impossível acreditar em milagres. Por conseguinte, a crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo não mais era possível;”

“A crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo, embora fosse algo perfeitamente inteligível e legítimo no contexto do século I, não podia ser levado a sério nos dias atuais. “ É impossível usar a luz elétrica e o rádio ou, quando doente, recorrer ao auxílio da medicina ou das  descobertas científicas e, ao mesmo tempo, acreditar no mundo de espíritos e milagres apresentados pelo Novo Testamento”, afirmou Bultmann.”

“a ressurreição deveria ser considerada como um “mito, puro e simples”.

Obviamente, ateu como sou, não teria como eu discordar dessas frases. Imagino que para qualquer um que, assim como eu, vê os livros da Bíblia apenas como coleções de contos mitológicos e fantásticos, esses trechos destacados fazem todo sentido, evidenciando a sensatez da interpretação de Bultmann. E no lado diametralmente oposto, aqueles que tomam a Bíblia como uma obra a ser entendida de forma completamente literal (ou parcialmente, o que, felizmente, é uma característica da maioria dos cristãos) provavelmente não hesitariam em rotular o teólogo como mais um herege.

Entretanto, apesar de concordar com essa visão de Bultmann sobre o mito da ressurreição, não posso deixar de observar o restante de seus pensamentos expostos por McGrath. Há, parece-me, duas posições utilizadas por Bultmann para, de certa forma, “justificar” o cristianismo.

Uma é que “Tudo o que a crítica histórica pode estabelecer é que os primeiros discípulos vieram a crer na ressurreição“, ou seja, não houve a tão proclamada volta dos mortos, mas sim um tipo de boato que os discípulos de Jesus tomaram como verdadeiro e que milhões continuam tomando até hoje. Esse boato teria tornado possível o nascimento de uma nova religião com a presença de um dos elementos mais básicos que as religiões, em geral, apresentam: o sobrenatural, o fantástico, o extraordinário.

A outra, essa de cunho mais prático, é a importância não da fábula de um homem voltando dos mortos, mas sim da persistência de seus ensinamentos e sua mensagem, os quais não morreram com ele, mas “ressuscitaram” na extensiva pregação de seus discípulos.

Ora, assumindo que o dogma central do cristianismo (a ressurreição) é apenas mais um mito como centenas de outros que fazem parte das mais diversas religiões que existem ou já existiram, o que sobra? Um conjunto de ensinamentos morais (que sequer poderiam ser chamados de inéditos) disseminados pelos seguidores de um homem comum e compilados por autores que sequer viveram na mesma época do divulgador dessas mensagens? Se é assim, qual a diferença prática entre Jesus e alguns dos grandes filósofos da história (seja os antigos gregos, ou os iluministas, ou até alguns contemporâneos)? Qual a diferença entre o nazareno e Confúcio? Ou entre Jesus e Siddharta Gautama? Ou até entre Jesus e Maomé? Partindo do pressuposto que eram todos homens comuns que não passaram por qualquer experiência divina ou sobrenatural (afinal, todas as ressalvas feitas por Bultmann para o mito da ressurreição de Jesus valem para qualquer figura semelhante), seguir uma ou outra religião não seria exatamente a mesma coisa de ter um determinado posicionamento filosófico ou político?

Tenho que admitir que gostei bastante de conhecer essa visão de Rudolf Bultmann, e fico pensando se não seria muito interessante para a laicidade e o secularismo que mais pessoas religiosas conhecessem e compartilhassem dessa visão pé no chão de supostos eventos fabulosos.

A forma das críticas

Ultimamente tenho visto algumas discussões, e até desentendimentos, acerca do tom utilizado por algumas pessoas ao criticarem certos aspectos das religiões. Resolvi registrar alguns pensamentos sobre isso.

Antes de qualquer coisa quero deixar bem claro que considero que tudo e todos podem (e às vezes devem) ser criticados quando pertinente. Não acho que deva haver barreiras de proteção a nada e nem a ninguém, e obviamente que aí estão incluídos as religiões e os líderes religiosos, assim como também estão incluídos aqueles que não professam qualquer religião. Importante ressaltar, ainda, que se qualquer crítica é válida, também são válidas as “críticas às críticas”, as réplicas, as tréplicas, e assim por diante.

Isso posto, passo ao cerne central da minha opinião: a forma a ser utilizada.

Eu, particularmente, não tenho qualquer problema com sátiras, piadas, tiração de sarro e coisas do tipo; certamente algumas situações me incomodam um pouco, principalmente quando há alguns claros preconceitos implícitos (por exemplo, piadinhas de cunho homofóbico ou racista entre torcidas de futebol), mas estou bem longe de querer cercear a imbecilidade alheia.

Porém, há pessoas que ficam só nisso. Já não tenho mais qualquer paciência para aqueles que têm nas piadinhas e nos xingamentos o seu auge da capacidade de crítica. Não que eu ache que estes devam parar, só me dou ao direito de não ficar prestando a atenção (ou compartilhando efusivamente) nesse tipo de coisa que, convenhamos, talvez só prejudique ao invés de ajudar a busca por uma sociedade mais secularizada e por um Estado laico de fato, uma vez que pode acabar provocando ondas de reação raivosa por parte de setores religiosos, além de propiciar, por algum tipo de identificação de grupos, a “surdez” das pessoas religiosas para os argumentos daqueles que militam a favor da laicidade estatal e do secularismo. (claro que não posso dizer que nunca fiz isso, ou até que não faço de vez em quando, mas tenho procurado melhorar minha atuação nesse aspecto)

Embora possa ser até saudável uma ou outra piadinha feita com alguns dos absurdos propagados pelas religiões ou algumas atitudes e ideias de certos grupos ou líderes religiosos, ficar nisso demonstra, em minha opinião, apenas imaturidade e/ou falta de bons argumentos. No caso de xingamentos gratuitos então nem se fala; estes têm tanta profundidade e solidez quanto um pires de papel.

Se a intenção for abrir os olhos das pessoas para as falsidades forjadas ao longo dos anos pelas religiões, acredito que as sátiras e os xingamentos tenham tanta eficiência nessa tarefa quanto teriam se objetivassem “converter” um cruzeirense em atleticano (e vice-versa). Muito mais interessante é tentar argumentar de forma racional e lógica (mesmo que de forma ácida, sarcástica ou irônica, por exemplo), buscando despertar em quem nos está lendo aquela fagulha de dúvida que iniciou o processo de libertação das crenças religiosas pelo qual muitos de nós já passamos.

O “mesmo deus” e a divergência que varremos para baixo do tapete

Autor do texto: Eli Vieira, texto publicado originalmente na página da LiHS no Facebook

Nota do blog: Concordo integralmente com o texto abaixo, escrito no Facebook por Eli Vieira, por isso resolvi publicá-lo neste espaço. Obviamente todos devemos tentar viver pacificamente, inclusive (e principalmente) os seguidores das mais diversas religiões. Todavia, maquiar as claras e enormes incongruências existentes entre essas diferentes religiões sob o mentiroso pretexto de que “todas seguem o mesmo deus” não passa de desonestidade intelectual e uma grande “bundamolice”.

Boas intenções geralmente estão por trás da afirmação de que cristãos, muçulmanos e judeus acreditam no “mesmo Deus”. É uma tentativa honesta de aproximação “ecumênica” feita por teístas.

Mas tem alguma base? Parece estranho supor que o deus que mandou seu filho como bode expiatório para pagar pelos erros dos outros (cristianismo) seja o mesmo que permitiu a Maomé voar sentado num cavalo alado e pregar a Jihad, além de negar que Jesus fosse algo mais que um profeta. O deus do “povo escolhido” de nome impronunciável, YHWH, não parece ser o mesmo Javé que assistiu impassível a milênios de antissemitismo na Europa que culminaram no holocausto.

Em obras de ficção em que há um gêmeo bom e um gêmeo ruim, espera-se que o público consiga separá-los não pelo nome ou pela aparência, mas pelas atitudes. Como pode ser um “mesmo deus” personagens com atitudes tão contraditórias nos três grandes monoteísmos?

Mas nem precisamos ir tão longe: dentro das diferentes vertentes dentro de cada monoteísmo há discrepância de supostas ações divinas. O deus que diz que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus não parece ser o mesmo que abençoa o cartão de débito de R. R. Soares, a conta bancária de Edir Macedo e o trono de ouro do Papa Bento XVI.

Quando o filósofo Bertrand Russell foi preso por fazer militância pacifista em 1918, teve de responder a um pequeno questionário na entrada da prisão. Quando foi perguntada sua religião, e Russell respondeu “agnóstico”, o oficial de segurança respondeu “Bem, há muitas religiões, mas suponho que todas adoram o mesmo Deus”.

Se é para levar em conta o que as religiões alegam sobre seus deuses, sequer podemos considerar que o deus único do qual falam os monoteístas é o mesmo, se dermos crédito às ações que atribuem a ele.

O erro do guarda da prisão de Russell é o desinteresse em conhecer o que dizem os discordantes, para assumir que toda posição diferente é uma analogia de sua posição própria. É este o erro de monoteístas que assumem que todas as religiões acreditam num único deus, fechando os olhos para os politeísmos que vicejam pelo planeta, e para religiões ateias, que não são poucas. (É, ateus, sinto muito, mas a cientologia é uma religião ateia.)

No afã proselitista de tentar converter pessoas para suas crenças, que nunca poupa, evidentemente, as posições diferentes de ataques, muitos tentam fingir que o grupo ao qual pertencem é monolítico, quando é na verdade um verdadeiro ninho de gatos de discordantes enrustidos.

Um exemplo disso é como podem ser diversas as posições criacionistas: existem criacionistas de Terra jovem que alegam que o planeta tem 6 mil anos, e existem criacionistas de Terra antiga que sopram mais velinhas para ela, que podem chegar às 4,54 bilhões que as evidências mostram. Mas isso não interessa para eles, pois estão preocupados apenas em converter mais pessoas para a crença de que as espécies vivas foram feitas à mão por Deus, que aparentemente ficou proibido de usar qualquer maquinário de leis imutáveis para gerar os resultados imprevisíveis que geraram. Aparentemente o trabalho braçal é o preferido para entidades oniscientes.

Como pode ser que o suposto criador tenha tanto interesse pelo Oriente Médio, que é apenas 1,4% da superfície do planeta, e por que, dos 200 mil anos de idade da nossa espécie, ele escolheu apenas os últimos 5 mil anos para começar a se revelar para povos dessa pequena região?

Ah, não faça essas perguntas, o importante é que acreditamos no “mesmo deus”, ou seja, escolhemos dar o mesmo nome para personagens diferentes que protagonizam narrativas incompatíveis entre si. Isso quando as narrativas dão espaço para algum personagem.

Abraçar a diversidade de opinião não significa fazer um espantalho de todas que não são a sua, fazendo delas uma analogia da sua posição.

Não, hindus não acreditam no “mesmo deus” dos cristãos. Não, ateus não têm “raiva de deus”. E não, religiões não são “ciências falidas”, nem toda religião, se alguma, tem o propósito de explicar metodicamente tudo o que se encontra no mundo.

Para quem adota o racionalismo, há, sim, critérios para ranquear opiniões, e são os critérios da lógica e da evidência. Mas quando a lógica está perfeita mas a evidência não favorece diferencialmente as alternativas disponíveis, cabe a cada um justificar como puder sua posição pessoal sobre um assunto, sem deixar de compreender bem posições discordantes, afinal só se pode ter esperança de estar certo compreendendo bem a opinião alheia, especialmente quando bem informada, pois tem-se no outro o valor da independência, e não há nada melhor para a validade da descoberta do que a pluralidade de corroborações independentes.

É por isso que lutar por um mundo em que as opiniões discordantes* saiam do armário deve ser não apenas um imperativo moral de igualdade na expressão, mas a obrigação de um pensador honesto interessado em se aproximar da verdade.

P.S.: * Xingar e atacar não é “opinião” pelo mesmo motivo que briga de bar não é arte marcial.