Ressurreição, um mito

Recentemente, no último dia 11 de abril, o colega André Tadeu de Oliviera publicou na coluna Advocati Fidei do Bule Voador um interessante texto de Alister McGrath em que este expõe a interpretação do teólogo luterano Rudolf Bultmann acerca da suposta ressurreição do personagem Jesus, evento que teria dado origem àquela data amada por todos os que, de alguma forma, dependem da indústria do chocolate.

Pretendo neste pequeno texto fazer algumas considerações que passaram pela minha cabeça.

André Tadeu, em sua introdução ao texto, apresenta uma frase que merece destaque:

“Como dogma central do cristianismo, é correto afirmar que sem a ressurreição a religião baseada nas tradições sobre o nazareno perde completamente seu sentido.”

Imagino que quase todo mundo concordaria com esse trecho. Parece-me que para os cristãos o retorno de seu messias dos mortos seria o que há de mais milagroso em toda a fábula criada em torno da vida de Jesus de Nazaré. Mesmo que se ignore qualquer outra das histórias existentes no Novo Testamento, tal evento configuraria algo certamente extraordinário e digno de devoção.

Pois bem, eis que no texto publicado na íntegra por André Tadeu, Alister McGrath apresenta alguns pontos muito interessantes, os quais reproduzirei abaixo:

“Bultmann compartilhava a convicção básica de Strauss de que, nessa era científica, era impossível acreditar em milagres. Por conseguinte, a crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo não mais era possível;”

“A crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo, embora fosse algo perfeitamente inteligível e legítimo no contexto do século I, não podia ser levado a sério nos dias atuais. “ É impossível usar a luz elétrica e o rádio ou, quando doente, recorrer ao auxílio da medicina ou das  descobertas científicas e, ao mesmo tempo, acreditar no mundo de espíritos e milagres apresentados pelo Novo Testamento”, afirmou Bultmann.”

“a ressurreição deveria ser considerada como um “mito, puro e simples”.

Obviamente, ateu como sou, não teria como eu discordar dessas frases. Imagino que para qualquer um que, assim como eu, vê os livros da Bíblia apenas como coleções de contos mitológicos e fantásticos, esses trechos destacados fazem todo sentido, evidenciando a sensatez da interpretação de Bultmann. E no lado diametralmente oposto, aqueles que tomam a Bíblia como uma obra a ser entendida de forma completamente literal (ou parcialmente, o que, felizmente, é uma característica da maioria dos cristãos) provavelmente não hesitariam em rotular o teólogo como mais um herege.

Entretanto, apesar de concordar com essa visão de Bultmann sobre o mito da ressurreição, não posso deixar de observar o restante de seus pensamentos expostos por McGrath. Há, parece-me, duas posições utilizadas por Bultmann para, de certa forma, “justificar” o cristianismo.

Uma é que “Tudo o que a crítica histórica pode estabelecer é que os primeiros discípulos vieram a crer na ressurreição“, ou seja, não houve a tão proclamada volta dos mortos, mas sim um tipo de boato que os discípulos de Jesus tomaram como verdadeiro e que milhões continuam tomando até hoje. Esse boato teria tornado possível o nascimento de uma nova religião com a presença de um dos elementos mais básicos que as religiões, em geral, apresentam: o sobrenatural, o fantástico, o extraordinário.

A outra, essa de cunho mais prático, é a importância não da fábula de um homem voltando dos mortos, mas sim da persistência de seus ensinamentos e sua mensagem, os quais não morreram com ele, mas “ressuscitaram” na extensiva pregação de seus discípulos.

Ora, assumindo que o dogma central do cristianismo (a ressurreição) é apenas mais um mito como centenas de outros que fazem parte das mais diversas religiões que existem ou já existiram, o que sobra? Um conjunto de ensinamentos morais (que sequer poderiam ser chamados de inéditos) disseminados pelos seguidores de um homem comum e compilados por autores que sequer viveram na mesma época do divulgador dessas mensagens? Se é assim, qual a diferença prática entre Jesus e alguns dos grandes filósofos da história (seja os antigos gregos, ou os iluministas, ou até alguns contemporâneos)? Qual a diferença entre o nazareno e Confúcio? Ou entre Jesus e Siddharta Gautama? Ou até entre Jesus e Maomé? Partindo do pressuposto que eram todos homens comuns que não passaram por qualquer experiência divina ou sobrenatural (afinal, todas as ressalvas feitas por Bultmann para o mito da ressurreição de Jesus valem para qualquer figura semelhante), seguir uma ou outra religião não seria exatamente a mesma coisa de ter um determinado posicionamento filosófico ou político?

Tenho que admitir que gostei bastante de conhecer essa visão de Rudolf Bultmann, e fico pensando se não seria muito interessante para a laicidade e o secularismo que mais pessoas religiosas conhecessem e compartilhassem dessa visão pé no chão de supostos eventos fabulosos.

3 Respostas para “Ressurreição, um mito

  1. Pingback: Bule Voador » Ressurreição, um mito

  2. É, Alex. Penso que esse é o maior telefone sem fio da história. As crenças dos literalistas bíblicos se contorcem para se autorefutarem.

    • Pois , Pedro. Um outro exemplo clssico de “telefone sem fio” o caso da suposta virgindade da personagem Maria, me do personagem Jesus.

      Algumas pessoas chamam ateno para o fato de que verses do texto no falam em “virgem”, mas sim em “jovem”. Todavia, parte dos cristos, em especial os catlicos, ignoram isso e transformam a personagem uma uma espcie de deusa virgem quase to poderosa quanto o deus chefo que acreditam t-la inseminado.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s