A falácia do “legado”

O jornalista Leonardo Sakamoto há algumas semanas em seu blog um texto no qual critica a insistente e ridícula atitude dos Comitês Olímpicos Brasileiro e Internacional em se considerarem donos da palavra “olimpíadas”, inclusive movendo ações judiciais a quem utilize o termo em competições educacionais como “Olimpíadas de Física” (ou matemática, história, etc). Mas não é isso que quero comentar; chamo a atenção a um trecho em específico que fala de um problema mais geral e que pode perfeitamente ser expandido não apenas para a Olimpíada do Rio em 2016, mas também para a Copa da FIFA de 2014 (e por que não, analogamente, para a Copa das Confederações de 2013):

É chover no molhado, mas não me canso de pensar o quão pa-té-ti-co é termos comemorado o fardo de receber as Olimpíadas, com cenas ridículas de autoridades em prantos. Pior, brigamos por isso. “Ah, mas os ganhos dos jogos ficam para a população!” Será que somos tão idiotas que precisamos de um evento esportivo para melhorar a estrutura e a formação esportiva do país? “Ah, mas vai trazer ganhos com o comércio!” Pesquisas já mostraram que o Carnaval dá mais retorno do que poderá trazer os Jogos. “Ah, mas isso enche de orgulho o brasileiro, que vai mostrar ao mundo que também é importante.” Putz, que dó do tal do brasileiro.

Enfim, o Coelhinho da Páscoa, o Papai Noel, o Saci Pererê e a Mulher de Branco prometeram que a população do Rio de Janeiro vai ganhar com as Olimpíadas mais do que se o montante de recursos fosse investido na cidade sem a realização dos Jogos.”

Recentemente a cada imagem de aeroporto lotado, trânsito caótico, serviços mal prestados sempre tem alguém para lançar mão do já famoso bordão: “imagina na Copa” (pode ser que haja uma variante adicional no Rio, “imagina na Olimpíada”). O fato é que a preocupação com a a infraestrutura das cidades sede desses eventos e sua capacidade de absorver adequadamente o influxo de turistas já se tornou realidade nesses locais; porém, apesar dessa digressão, esse também não é o meu ponto.

O que eu quero chamar a atenção é para as frases que grifei em negrito no trecho do texto do Sakamoto (que, repito, podem ser aplicadas para todas as outras capitais no caso das Copas em 2013 e 2014). O discurso oficial de políticos, empresários, etc é justamente sobre as vantagens do “legado” que ficará para a população, dos benefícios que todos colheremos com as melhorias no transporte público, com a qualificação dos serviços, com o upgrade na infraestrutura das cidades sede, com o aumento na segurança. Ok, não tenho nada contra essas benesses; todavia, recuso-me a acreditar que praticamente tudo o que têm nos empurrado goela abaixo como “o legado que ficará” já não é uma obrigação do Estado que, inclusive, chegará com alguns (muitos) anos de atraso, dada a histórica incompetência do poder público no que concerne a qualidade dos serviços prestados à população.

Aplaudimos alegremente o “legado”, mas não nos damos conta que tal “legado” já deveria ter sido planejado e executado (ou pelo menos estar em execução, como agora) independentemente da realização de qualquer evento extraordinário que servirá basicamente de espetáculo televisivo às manadas teleguiadas.

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