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CHS 2012, um pouco do que vi e vivi

Agora, já com o distanciamento de quase 1 semana da realização do 1º Congresso Humanista Secular do Brasil, posso parar para dar minhas impressões sobre o evento.

Foi uma grata e extraordinária surpresa. Não apenas pelo evento, que foi excepcional, mas também pelo meu envolvimento pessoal. Como o Sérgio Viula já escreveu muito bem sobre o evento em si (além de já haver dois resumos aqui e aqui), vou me dedicar mais às questões pessoais.

Foi um momento histórico para mim finalmente conhecer pessoalmente, cara a cara, pessoas com quem já há alguns anos (no caso da “velha guarda” da LiHS/Bule Voador) ou meses (no caso dos quase recém-chegados) tenho tido contato praticamente diário por email ou redes sociais, nessa incessante e ainda inicial luta por um Brasil (e por que não dizer, um mundo) mais laico, mais secular, menos intolerante, mais digno, mais humanista.

Tirando o grande Daniel Oliveira, que já havia encontrado aqui em BH em uma visita relâmpago, ainda não conhecia pessoalmente nenhum dos outros diretores da LiHS que lá estavam presentes (embora já conhecesse a voz de alguns devido a algumas reuniões por skype, além da voz e face do presidente e da vice-presidenta da LiHS, Eli Vieira e Asa Heuser, por vídeos no youtube). Todos(as), sem exceção, são pessoas incríveis, e faço questão de citá-los textualmente, mesmo que com alguns eu não tenha tido a oportunidade de conversar mais longamente. Então, além dos três já citados, vai meu grande abraço virtual para Eduardo Patriota, Luciano Rossato, Natasha Avital, Jacob Reis, Cíntia Brito, Giuliano Gasparini, Roberto Luiz Rezende, Douglas Donin, Shirley Galdino, Juliana Paukowski, Conrado Klockner, Luiz Henrique, Stíphanie Silva, Sérgio Viula, Jessika Andras (uma das mais novas diretoras nomeadas pós-CHS)… é, acho que não esqueci ninguém da diretoria da LiHS que eu conheci pessoalmente, mesmo que com alguns o contato tenha sido bem rápido. E não posso deixar de lembrar também do Celso Masotti, membro da LiHS, um cara incrível, bem humorado e sensato, que gentilmente filmou todo o evento, e cujos filmes que vêm por aí estou esperando ansiosamente para assistir.

Vou registrar também a minha satisfação em ver, ouvir, conhecer, conversar e/ou dividir umas Heineken com algumas pessoas que eu também só conhecia da internet de uma forma mais distante, como leitor ou ouvinte. O Kentaro Mori (com ele já havia trocado alguns emails devido à minha participação no site da campanha 10:23), do site Ceticismo Aberto, o melhor site cético do Brasil, o jornalista Carlos Orsi, que gentilmente aceitou meu convite pra participar da mesa de ceticismo, o Alex Castro, cujos textos, crônicas, contos e livros são esplêndidos, o Jorge Quillfeldt, cuja voz eu ouço quase toda semana no podcast Fronteiras da Ciência, o Renato Zamora, que também já participou do fronteiras, o Márcio Retamero, que atualmente também contribui no Bule Voador, enfim, com alguns eu tive um contato mais próximo durante o CHS (como o Kentaro e o Carlos), com outros nem tanto, mas tudo valeu bastante a pena.

Todas as palestras e mesas redondas foram edificantes, algumas até bem emocionantes, com destaque para a Maria Berenice e a Marina Reidel, que emocionaram, cada uma a sua maneira, não só a mim, mas a cada ser humano naquela platéia. A fala do Renato Zamora, explicando e fundamento por que a violência contra crianças em nome de uma suposta “educação” não passa de pura e simples ignorância. A exposição do Desidério Murcho, sobre o sentido da vida para ateus. Os dados sobre violência trazidos por Marcos Rolim. Uma breve história do ateísmo resumida pelo Francisco Marshall. A aula de genética humana ministrada por Francisco Salzano. O panorama do secularismo pelo mundo, apresentado por Carlos Díaz, atual presidente da Atheist Alliance International. Bom, realmente foi um evento histórico, como ouvi de várias pessoas lá.

Estou lá no cantinho esquerdo da foto, momento do encerramento oficial

Quem não foi, perdeu. Fica pro próximo!

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Em busca do “invisível”

Um dos capítulos (mais especificamente, o capítulo 3) do livro “Filosofia da Ciência”[1] de Rubem Alves desenvolve uma ideia central que, inclusive, encontra-se contida em seu próprio título: a ciência está em busca de ordem. O autor vai além e argumenta que não existe vida ou comportamento inteligente sem ordem, sendo esta uma exigência para nossa sobrevivência e, portanto, nada mais natural que a ciência busque desvendar qual é essa ordem.

Essa busca é parte do desejo do ser humano em conhecer como o mundo funciona (ordem), o qual por sua vez se enquadra em um caldo dos mais diversos desejos a que todos nós estamos sujeitos. Todavia, questiona Rubem Alves, qual a diferença entre a ordem científica e a ordem do senso comum? Uma seria mais lógica ou mais absurda do que a outra? Esses conceitos (lógico e absurdo) não seriam dependentes das nossas próprias concepções do que é absurdo ou não, as quais estariam necessariamente ligadas a nossas capacidades de perceber o mundo? A Terra estar parada no espaço seria, dependendo do ponto de vista, mais absurdo do que o fato de que ela gira a uma velocidade estonteante e continuamos todos com os pés colados no chão? Como nos livrar das limitações de nossas experiências a fim de entender o que se passa lá fora?

Isso posto, Rubem Alves argumenta que os cientistas estariam em busca do “invisível”, caçando uma ordem que eles não sabem qual é, de forma a tentarem encontrar uma descrição que, para além das aparências, se encaixe na tentativa de explicar como tudo funciona.

Nessa complexa busca os cientistas procuram, por meio da coleta de dados, confirmarem ou refutarem teorias construídas a partir do que esses próprios dados indicam. Todo esse esforço dá origem a modelos que têm o objetivo de serem descrições inteligíveis da realidade, embora não possamos ver diretamente como a realidade é. Tais modelos têm a característica de serem declarados verdadeiros caso funcionem, embora persista o problema de não sabermos, necessariamente, se eles descrevem exatamente a realidade. Dessa forma, os modelos criados seriam construções intelectuais baseadas no pressuposto de que é possível fazer uma relação de analogia entre o que conhecemos e o que desejamos conhecer. Ademais, é importante que essa analogia funcione. Modelos e teorias que não nos fornecem soluções para os problemas levantados ou que têm que ser extensa e artificialmente remendados para manterem sua validade simplesmente não nos servem.

Diante do que Rubem Alves levanta neste capítulo 3, entendo que uma das funções principais (e para mim mais interessantes) da ciência é justamente essa incessante busca pela ordem “invisível”. Acredito que há uma realidade objetiva independente e autoconsistente; entretanto, tal qual um peixe que vive em um aquário redondo, estamos limitados por nossos sentidos e por nosso intelecto (e suas extensões tecnológicas), o que provavelmente nos restringirá por ainda muito tempo à busca de teorias e modelos que funcionem (sem que estes reflitam exatamente a realidade), revisando e/ou substituindo tais descrições sempre que necessário diante de novos acúmulos de conhecimento. A meu ver o exemplo do peixe é uma ótima analogia: da mesma forma como ele pode, a partir de observações de como objetos se comportam diante de sua visão, descrever o mundo externo a ele de uma maneira que funcionará perfeitamente para ele, inclusive sendo possíveis fazer previsões consistentes sobre a forma e o movimento de corpos, não é difícil perceber que suas teorias, modelos e equações valerão apenas para a realidade de quem vive dentro um aquário redondo cheio de água. Analogamente, a nossa capacidade de descrever de forma inequívoca uma realidade objetiva está limitada ao fato de estarmos inseridos dentro dessa realidade. Não me arriscaria a dizer que não há brechas nessa prisão a serem abertas futuramente, mas mantenho-me cético quanto a isso. Penso que estamos, pelo menos por um bom tempo, presos a um realismo dependente de modelos[2], o que não necessariamente é algo ruim ou desanimador, desde que tais modelos funcionem cada vez melhor.


[1] Capítulo 3 – “Em busca de ordem” do livro “Filosofia da Ciência”, de Rubem Alves.

[2] Retirei a analogia do peixe e a ideia de realismo dependente de modelos do livro The Grand Design [O Grande Projeto], escrito pelos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow.

Financiamento de curso de Homeopatia pela SES-MG

Texto também publicado no site do Desafio 10:23

Uma coisa que os defensores da homeopatia insistem em ignorar é que essa prática, pelo menos no que se refere ao uso de substâncias ultra-mega-hiper-diluídas, não é capaz de passar em testes científicos rigorosos. No blog do Desafio 10:23 foram publicados diversos textos embasando a ineficácia da homeopatia.

Todavia, infelizmente, não são apenas os praticantes da homeopatia que se negam a aceitar as evidências. Conselhos de classe são igualmente surdos para isso (em especial os de medicina, medicina veterinária, farmácia e odontologia). Gestores do Sistema Único de Saúde também se negam a aceitar as evidências científicas, haja vista a publicação, em 2006, de uma portaria do Ministério da Saúde que regulamenta essa prática (dentre outras) no SUS. E agora acabo de ver uma publicação no Diário Oficial do Estado de Minas Gerais que parte da mesma ignorância científica (Deliberação CIB-SUS/MG nº 1.113/2012).

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) irá financiar um curso à distância denominado “Introdução à Homeopatia”, destinado a médicos, cirurgiões-dentistas, farmacêuticos e médicos veterinários do SUS-MG, com o objetivo principal de apresentar “as concepções da homeopatia e suas aplicações nas diversas áreas, contribuindo para a implementação da Política Estadual de Práticas Integrativas e Complementares no estado de Minas Gerais”. Segundo o projeto do curso, a previsão do custo é R$ 212.792,06 mais o curso de capacitação de tutores de R$ 20.818,75, totalizando R$ 233.610,81.

Chamou-me a atenção também um dos objetivos específicos do curso: “Promover discussão sobre a cientificidade da homeopatia.” (grifo meu). Ora, se fosse para discutir a suposta “cientificidade da homeopatia”, o curso terminaria logo no primeiro dia com a apresentação das fartas evidências que refutam tanto os pressupostos da prática como os seus supostos efeitos.

Infelizmente os praticantes da homeopatia se agarram a uma suposta eficácia comprovada pela “experiência clínica”. Todavia, como confirmar essa suposta eficácia se quando submetidos a condições controladas não se consegue diferenciá-la do efeito placebo, ou se os pacientes continuam mantendo tratamentos tradicionais concomitantemente (até por reconhecimento de homeopatas de que sua prática seria “complementar” e suspender de imediato os tratamentos convencionais poderia trazer conseqüências indesejáveis e até perigosas), o que torna meio complicado afirmar se a causa de uma eventual melhora se deve à homeopatia ou à continuidade do tratamento convencional, ou até se muitas doenças simplesmente desapareceriam ao seguir seu curso natural (afinal, todos temos sistema imunológico, e para muitos agravos só ele nos basta).

Um estudo muito citado por aqueles que se opõem ao uso e, em especial, ao financiamento público de práticas homeopáticas é a revisão publicada na The Lancet em 2005, a qual identificou que preparados homeopáticos não difeririam de placebos. Obviamente este não é o único e nem o mais recente. Por exemplo, um posto do blog RNAm traz mais duas referências importantes:

Renckens, C. (2009). A Dutch View of the ”Science” of CAM 1986–2003 Evaluation & the Health Professions, 32 (4), 431-450 DOI: 10.1177/0163278709346815: Avaliação do governo holandês sobre o subsídio de medicinas alternativas no período entre 1986 e 2003. Os poucos resultados satisfatórios foram atribuídos a pobres metodologias de análise como a falta de grupos-controle tratados com placebo. Alguns estudos relataram resultados negativos. Esses dados culminaram na suspensão da verba governamental destinada a práticas complementares.

Nuhn, T., Lüdtke, R., & Geraedts, M. (2010). Placebo effect sizes in homeopathic compared to conventional drugs – a systematic review of randomised controlled trials Homeopathy, 99 (1), 76-82 DOI: 10.1016/j.homp.2009.11.002: Esse estudo derrubou a hipótese de que os ensaios testando a validade clínica da homeopatia falhavam por apresentarem grupos-controle tratados com placebo que retornavam efeitos maiores dos observados em ensaios clínicos alopáticos. A conclusão foi de que os grupos-controle tratados com placebo dos ensaios homeopáticos não demonstraram efeitos maiores dos observados na medicina convencional.

Posso citar também um artigo publicado no The Guardian, no qual se lê: “Over a dozen systematic reviews of homeopathy have been published. Almost uniformly, they come to the conclusion that homeopathic remedies are not different from placebo.” (Tradução livre: “Mais de uma dúzia de revisões sistemáticas de homeopatia foram publicadas. Quase uniformemente, elas chegaram à conclusão que remédios homeopáticos não são diferentes de placebo”).

Enfim, essa foi mais uma conquista dessa pseudociência que vem cada vez mais ganhando espaço no nosso sistema público de saúde, a despeito das evidências de sua ineficácia.

Ressurreição, um mito

Recentemente, no último dia 11 de abril, o colega André Tadeu de Oliviera publicou na coluna Advocati Fidei do Bule Voador um interessante texto de Alister McGrath em que este expõe a interpretação do teólogo luterano Rudolf Bultmann acerca da suposta ressurreição do personagem Jesus, evento que teria dado origem àquela data amada por todos os que, de alguma forma, dependem da indústria do chocolate.

Pretendo neste pequeno texto fazer algumas considerações que passaram pela minha cabeça.

André Tadeu, em sua introdução ao texto, apresenta uma frase que merece destaque:

“Como dogma central do cristianismo, é correto afirmar que sem a ressurreição a religião baseada nas tradições sobre o nazareno perde completamente seu sentido.”

Imagino que quase todo mundo concordaria com esse trecho. Parece-me que para os cristãos o retorno de seu messias dos mortos seria o que há de mais milagroso em toda a fábula criada em torno da vida de Jesus de Nazaré. Mesmo que se ignore qualquer outra das histórias existentes no Novo Testamento, tal evento configuraria algo certamente extraordinário e digno de devoção.

Pois bem, eis que no texto publicado na íntegra por André Tadeu, Alister McGrath apresenta alguns pontos muito interessantes, os quais reproduzirei abaixo:

“Bultmann compartilhava a convicção básica de Strauss de que, nessa era científica, era impossível acreditar em milagres. Por conseguinte, a crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo não mais era possível;”

“A crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo, embora fosse algo perfeitamente inteligível e legítimo no contexto do século I, não podia ser levado a sério nos dias atuais. “ É impossível usar a luz elétrica e o rádio ou, quando doente, recorrer ao auxílio da medicina ou das  descobertas científicas e, ao mesmo tempo, acreditar no mundo de espíritos e milagres apresentados pelo Novo Testamento”, afirmou Bultmann.”

“a ressurreição deveria ser considerada como um “mito, puro e simples”.

Obviamente, ateu como sou, não teria como eu discordar dessas frases. Imagino que para qualquer um que, assim como eu, vê os livros da Bíblia apenas como coleções de contos mitológicos e fantásticos, esses trechos destacados fazem todo sentido, evidenciando a sensatez da interpretação de Bultmann. E no lado diametralmente oposto, aqueles que tomam a Bíblia como uma obra a ser entendida de forma completamente literal (ou parcialmente, o que, felizmente, é uma característica da maioria dos cristãos) provavelmente não hesitariam em rotular o teólogo como mais um herege.

Entretanto, apesar de concordar com essa visão de Bultmann sobre o mito da ressurreição, não posso deixar de observar o restante de seus pensamentos expostos por McGrath. Há, parece-me, duas posições utilizadas por Bultmann para, de certa forma, “justificar” o cristianismo.

Uma é que “Tudo o que a crítica histórica pode estabelecer é que os primeiros discípulos vieram a crer na ressurreição“, ou seja, não houve a tão proclamada volta dos mortos, mas sim um tipo de boato que os discípulos de Jesus tomaram como verdadeiro e que milhões continuam tomando até hoje. Esse boato teria tornado possível o nascimento de uma nova religião com a presença de um dos elementos mais básicos que as religiões, em geral, apresentam: o sobrenatural, o fantástico, o extraordinário.

A outra, essa de cunho mais prático, é a importância não da fábula de um homem voltando dos mortos, mas sim da persistência de seus ensinamentos e sua mensagem, os quais não morreram com ele, mas “ressuscitaram” na extensiva pregação de seus discípulos.

Ora, assumindo que o dogma central do cristianismo (a ressurreição) é apenas mais um mito como centenas de outros que fazem parte das mais diversas religiões que existem ou já existiram, o que sobra? Um conjunto de ensinamentos morais (que sequer poderiam ser chamados de inéditos) disseminados pelos seguidores de um homem comum e compilados por autores que sequer viveram na mesma época do divulgador dessas mensagens? Se é assim, qual a diferença prática entre Jesus e alguns dos grandes filósofos da história (seja os antigos gregos, ou os iluministas, ou até alguns contemporâneos)? Qual a diferença entre o nazareno e Confúcio? Ou entre Jesus e Siddharta Gautama? Ou até entre Jesus e Maomé? Partindo do pressuposto que eram todos homens comuns que não passaram por qualquer experiência divina ou sobrenatural (afinal, todas as ressalvas feitas por Bultmann para o mito da ressurreição de Jesus valem para qualquer figura semelhante), seguir uma ou outra religião não seria exatamente a mesma coisa de ter um determinado posicionamento filosófico ou político?

Tenho que admitir que gostei bastante de conhecer essa visão de Rudolf Bultmann, e fico pensando se não seria muito interessante para a laicidade e o secularismo que mais pessoas religiosas conhecessem e compartilhassem dessa visão pé no chão de supostos eventos fabulosos.

Homeopatia na Scientific American Brasil

Foi com certa surpresa que vi um nota sobre homeopatia ao ler meu exemplar de abril/2012 da revista Scientific American Brasil. Transcrevo abaixo o que dizia a nota, sob o título “Eficiência Questionada da Homeopatia”:

Logo mais abaixo há uma transcrição da matéria

Pouco depois de ler essa nota, não me contive e enviei um email para a redação da revista, na esperança de vê-lo publicado no mês que vem para fazer um contraponto ao que foi divulgado. Segue o meu email:

A nota publicada na edição de abril/2012 sob o título “A eficiência questionada da homeopatia” pareceu-me  meio deslocada em uma publicação do porte e da qualidade da Sciam Brasil.

Ao longo dos anos acumulam-se evidências da ineficácia de ação dos preparados homeopáticos e da implausibilidade dos pressupostos dessa forma de terapia (cito, por exemplo, uma extensa revisão publicada na revista The Lancet em 2005, além de outras revisões disponíveis nas bases de dados científicas).

Apesar do tom crítico do título da nota, o texto em si é composto apenas de informações jogadas pela autora sem uma mínima apresentação de quaisquer evidências confiáveis. Cabe resslatar que apenas dizer que “pesquisas têm sido feitas” não diz muita coisa, haja vista não sabermos a qualidade metodológica das mesmas. Outra estratégia da autora é simplesmente atacar os agrotóxicos e as técnicas atualmente utilizados no controle de pragas e doenças agrícolas, como se os malefícios causados por estes venenos fossem motivo para, automaticamente, acreditarmos que a homeopatia tenha alguma eficácia.

E como não poderia deixar de ser, a autora ainda apela para os conceitos de “energia” e “física quântica” (já que com a química ela não pode contar) para fugir da constatação óbvia de que compostos homeopáticos são nada mais nada menos que água pura.

E eu não estou sozinho nessa. Houve até repercussão internacional, motivada por um email de um leitor brasileiro do site Science-Based Medicine. Felizmente o artigo que Hariett Hall escreveu se encontra disponível em inglês e em português, o que me fez publicá-lo no site do Desafio 10:23 e agora neste blog (reprodução na íntegra abaixo):

Autor: Hariett Hall

Fonte: Science-Based Medicine

Recentemente recebi um email de um dos leitores do SBM no Brasil, Felipe Nogueira Barbara de Oliveira, um aluno de Doutorado em Ciências Médicas e que possui Mestrado em Ciência da Computação e está tentando promover pensamento crítico e medicina científica no seu país. Ele me enviou uma cópia em .jpg de uma pequena matéria publicada na edição de Abril de 2012 da Scientific American Brasil. Ele ficou horrorizado que isso apareceu sob a alcunha da Scientific American, e eu também. A matéria é a seguinte.

Aviso: isto é doloroso.

Eficiência Questionada da Homeopatia

Aplicação dessa técnica à agricultura acena com recuperação de plantas e ambiente

A homeopatia é conhecida como tratamento alternativo para os seres humanos, mas poucos conhecem sua utilização em animais, plantas, solos e água. Essa técnica é alvo de críticas quanto aos resultados e eficácia. Uma delas diz respeito ao “efeito placebo” de seus remédios, que não contém nenhum traço da matéria-prima utilizada em sua confecção. Para responder a essa abordagem é necessário um esclarecimento: a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados.

A aplicação da técnica homeopática à agricultura não é recente, como a maioria das pessoas podem considerar. Um dos primeiros estudos feitos nessa área remonta à década de 20, com pesquisas em plantas realizadas pelo casal Eugen e Lili Kolisko, baseadas nas teorias de Rudolf Steiner para agricultura biodinâmica. Desde então muitas pesquisas tem sido feitas em países como Franca, Índia, Alemanha, Suíça, Inglaterra, México, Cuba, Itália, África do Sul e Brasil. Aqui a Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, é pioneira nessa área.

Não é preciso ser especialista em saúde ou em meio ambiente para perceber que o método convencional de tratamento de pragas e enfermidades na agricultura gera um desequilíbrio no ecossistema e, consequentemente, no ser humano. Agentes patogênicos e pragas vão adquirindo, com o tempo, resistência aos agrotóxicos – que, por estratégia de mercado, passaram a ser chamados de “defensores agrícolas”. Assim, a quantidade e a agressividade desses produtos químicos tem ser aumentadas para contornar essa situação, provocando um efeito cascata desastroso: o solo se torna mais pobre e diminui sua produção; trabalhadores rurais ficam gravemente doentes pelo manuseio constante desses produtos tóxicos; as águas, incluindo as subterrâneas, são contaminadas; e os seres que dependem dos frutos da terra recebem toda essa carga de veneno, desencadeando uma série de problemas de saúde.

Com exceção das indústrias de agrotóxico e fertilizantes químicos, quem mais se beneficia com a prática desses tratamentos convencionais?

Se Hipócrates pudesse reavaliar o seu principio dos contrários, representado pela alopatia, e suas posteriores conseqüências nos seres vivos e no meio ambiente, ele o excluiria suas considerações. Já a homeopatia como técnica sustentável, economicamente viável e ecologicamente correta torna-se imprescindível ao equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem.

Autora: Nina Ximenes, bióloga, é pós-graduada em educação ambiental.

É tão ruim que não sei nem por onde começar. Homeopatia não é nada mais que um sistema elaborado de distribuição de placebos. É baseado em pensamento mágico. Ciência básica nos garante que a homeopatia não pode funcionar como afirma (com água lembrando uma substância que não está mais presente e com soluções mais diluídas produzindo efeitos maiores).

E não há evidência confiável que possui algum efeito terapêutico em humanos, muito menos em animais, plantas, solos e água. Não tem nada a ver com física quântica: efeitos quânticos são significativos apenas nas escalas atômica e subatômica, e não explicam a afirmação da homeopatia que a água “lembra” a substância original, muito menos como essa memória poderia afetar a saúde. A afirmação que a homeopatia “trabalha com energia” é apenas imaginação, não demonstrada por evidências.

Rudolph Steiner foi um filósofo que criou o movimento espiritual chamado antroposofia. A ciência de Steiner é a tão chamada “ciência espiritual.” Medicina antroposófica e agricultura biodinâmica são dois ramos da “ciência” de Steiner que ainda são populares em alguns círculos, mas que foram perfeitamente caracterizados como pseudociência por verdadeiros cientistas. Se quiser saber mais sobre medicina antroposófica, você pode ler o que Dr. Gorski escreveu (em inglês) sobre isso aqui.

A autora usa uma linguagem inflamatória para fazer extravagantes  afirmações de danos de pesticidas e fertilizantes, sem nenhuma tentativa de prover alguma evidência para apoiá-las. Ela usa o termo “alopatia”, uma palavra pejorativa sem significado inventada por Hahnemann, o criador da homeopatia, para denegrir seus principais rivais. A autora refere-se ao “princípio dos contrários” de Hipócrates, uma distorção e simplificação de suas idéias. Hipócrates foi um homem esperto, e eu gosto de pensar que, se ele estivesse vivo, ele teria rejeitado a antiga teoria dos “quatro humores” e homeopatia, e teria adotado o método científico. A autora questiona “quem mais se beneficia” das convencionais práticas na agricultura. Eu argumentaria que há benefícios para pessoas que poderiam ter morrido de fome devido a escassez de alimentos se fertilizantes e pesticidas não tivessem funcionado para aumentar a disponibilidade de alimentos. Isso não significa que as práticas correntes não devem ser melhoradas e que não devem ser feitas com mais segurança, mas descartá-las de uma só vez e substituí-las por homeopatia dificilmente é a resposta!

Eu gostaria de saber se isso é algum tipo de sátira, mas eu acho que não. A matéria está na seção “Avanços” e com o rótulo “Saúde”. A autora está nos caçoando, ou ela realmente acredita que “a homeopatia torna-se imprescindível para o equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem”? Talvez ela esteja falando de algum planeta em um universo paralelo, ou dos sonhos dela. Se a Rainha Branca de Alice no Pais das Maravilhas tentasse acreditar nisso antes do café da manhã, o cérebro dela poderia explodir.

Se isso é o que se passa por ciência no Brasil, Brasil está em apuros. Aparentemente as coisas não mudaram muito desde que Richard Feynman teve seu encontro decepcionante com o sistema de educação brasileiro. No entanto, é claro que não é justo destacar apenas o Brasil, porque essas mesmas coisas acontecem em outros países.

Se isso é o que se passa por ciência para Scientific American, a revista é uma caricatura repreensível e deveria cortar a palavra “scientific” do seu título. No que os editores estavam pensando quando eles impuseram esse tipo de lixo aos seus leitores? Que vergonha!

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Nota do Editor: Em 05/04/2012, a Scientific American Brasil, por meio de seu editor-chefe, Ulisses Capozzoli, publicou no Blog da Sciam Brasil uma nota de esclarecimento chamada “Erro de Avaliação”. Segundo Capozzoli,

“Quando cometi o erro de avaliação a que me referi há pouco, atropelei o conteúdo conceitual: Scientific American, refletindo talvez a maioria das opiniões no meio científico, entende que homeopatia não é ciência.

Leitores indignados com minha avaliação enviaram e-mails à redação e abordaram a questão na rede social, o que permitiu que eu me desse conta da falha que havia cometido.”

O texto completo está disponível no Blog da Sciam Brasil.

O “mesmo deus” e a divergência que varremos para baixo do tapete

Autor do texto: Eli Vieira, texto publicado originalmente na página da LiHS no Facebook

Nota do blog: Concordo integralmente com o texto abaixo, escrito no Facebook por Eli Vieira, por isso resolvi publicá-lo neste espaço. Obviamente todos devemos tentar viver pacificamente, inclusive (e principalmente) os seguidores das mais diversas religiões. Todavia, maquiar as claras e enormes incongruências existentes entre essas diferentes religiões sob o mentiroso pretexto de que “todas seguem o mesmo deus” não passa de desonestidade intelectual e uma grande “bundamolice”.

Boas intenções geralmente estão por trás da afirmação de que cristãos, muçulmanos e judeus acreditam no “mesmo Deus”. É uma tentativa honesta de aproximação “ecumênica” feita por teístas.

Mas tem alguma base? Parece estranho supor que o deus que mandou seu filho como bode expiatório para pagar pelos erros dos outros (cristianismo) seja o mesmo que permitiu a Maomé voar sentado num cavalo alado e pregar a Jihad, além de negar que Jesus fosse algo mais que um profeta. O deus do “povo escolhido” de nome impronunciável, YHWH, não parece ser o mesmo Javé que assistiu impassível a milênios de antissemitismo na Europa que culminaram no holocausto.

Em obras de ficção em que há um gêmeo bom e um gêmeo ruim, espera-se que o público consiga separá-los não pelo nome ou pela aparência, mas pelas atitudes. Como pode ser um “mesmo deus” personagens com atitudes tão contraditórias nos três grandes monoteísmos?

Mas nem precisamos ir tão longe: dentro das diferentes vertentes dentro de cada monoteísmo há discrepância de supostas ações divinas. O deus que diz que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus não parece ser o mesmo que abençoa o cartão de débito de R. R. Soares, a conta bancária de Edir Macedo e o trono de ouro do Papa Bento XVI.

Quando o filósofo Bertrand Russell foi preso por fazer militância pacifista em 1918, teve de responder a um pequeno questionário na entrada da prisão. Quando foi perguntada sua religião, e Russell respondeu “agnóstico”, o oficial de segurança respondeu “Bem, há muitas religiões, mas suponho que todas adoram o mesmo Deus”.

Se é para levar em conta o que as religiões alegam sobre seus deuses, sequer podemos considerar que o deus único do qual falam os monoteístas é o mesmo, se dermos crédito às ações que atribuem a ele.

O erro do guarda da prisão de Russell é o desinteresse em conhecer o que dizem os discordantes, para assumir que toda posição diferente é uma analogia de sua posição própria. É este o erro de monoteístas que assumem que todas as religiões acreditam num único deus, fechando os olhos para os politeísmos que vicejam pelo planeta, e para religiões ateias, que não são poucas. (É, ateus, sinto muito, mas a cientologia é uma religião ateia.)

No afã proselitista de tentar converter pessoas para suas crenças, que nunca poupa, evidentemente, as posições diferentes de ataques, muitos tentam fingir que o grupo ao qual pertencem é monolítico, quando é na verdade um verdadeiro ninho de gatos de discordantes enrustidos.

Um exemplo disso é como podem ser diversas as posições criacionistas: existem criacionistas de Terra jovem que alegam que o planeta tem 6 mil anos, e existem criacionistas de Terra antiga que sopram mais velinhas para ela, que podem chegar às 4,54 bilhões que as evidências mostram. Mas isso não interessa para eles, pois estão preocupados apenas em converter mais pessoas para a crença de que as espécies vivas foram feitas à mão por Deus, que aparentemente ficou proibido de usar qualquer maquinário de leis imutáveis para gerar os resultados imprevisíveis que geraram. Aparentemente o trabalho braçal é o preferido para entidades oniscientes.

Como pode ser que o suposto criador tenha tanto interesse pelo Oriente Médio, que é apenas 1,4% da superfície do planeta, e por que, dos 200 mil anos de idade da nossa espécie, ele escolheu apenas os últimos 5 mil anos para começar a se revelar para povos dessa pequena região?

Ah, não faça essas perguntas, o importante é que acreditamos no “mesmo deus”, ou seja, escolhemos dar o mesmo nome para personagens diferentes que protagonizam narrativas incompatíveis entre si. Isso quando as narrativas dão espaço para algum personagem.

Abraçar a diversidade de opinião não significa fazer um espantalho de todas que não são a sua, fazendo delas uma analogia da sua posição.

Não, hindus não acreditam no “mesmo deus” dos cristãos. Não, ateus não têm “raiva de deus”. E não, religiões não são “ciências falidas”, nem toda religião, se alguma, tem o propósito de explicar metodicamente tudo o que se encontra no mundo.

Para quem adota o racionalismo, há, sim, critérios para ranquear opiniões, e são os critérios da lógica e da evidência. Mas quando a lógica está perfeita mas a evidência não favorece diferencialmente as alternativas disponíveis, cabe a cada um justificar como puder sua posição pessoal sobre um assunto, sem deixar de compreender bem posições discordantes, afinal só se pode ter esperança de estar certo compreendendo bem a opinião alheia, especialmente quando bem informada, pois tem-se no outro o valor da independência, e não há nada melhor para a validade da descoberta do que a pluralidade de corroborações independentes.

É por isso que lutar por um mundo em que as opiniões discordantes* saiam do armário deve ser não apenas um imperativo moral de igualdade na expressão, mas a obrigação de um pensador honesto interessado em se aproximar da verdade.

P.S.: * Xingar e atacar não é “opinião” pelo mesmo motivo que briga de bar não é arte marcial.

Crendice salgada

Acabo de ler um texto no ótimo blog do jornalista, escritor e blogueiro Carlos Orsi e me lembrei de algumas situações que já presenciei com pessoas próximas a mim.

No texto “Arqimedes e o mau-olhado“, Carlos Orsi descreve uma curiosa história. Segue abaixo o trecho:

Encontro um amigo que me conta algo curioso que aconteceu na empresa onde trabalha: a execução de um processo para detectar “mau-olhado” no setor, já que algumas pessoas vinham sentindo um “clima carregado” por ali.

O método: põe-se sal num copo; completa-se o copo com água; joga-se um pedaço de carvão na água salgada. E, se o carvão boiar, é porque há influências maléficas no ambiente.

Agora, para tudo. Voltemos à lição de Arquimedes em Siracusa, dois milênios e uns quebrados atrás: se um objeto tem densidade menor que a da água, ele inevitavelmente tenderá a boiar, a despeito da presença de Lúcifer, Exu, Sauron ou Darth Vader ali, na mesma sala.

Alguns dados: a densidade do carvão vegetal comum vai de 0,31 g/ml a 0,18 g/ml, de acordo com este ensaio científico. Isto é de 70% a 80% menos que a densidade da água comum, de 1g/ml. A água salgada é ainda mais densa que a água pura. No Mar Morto, por exemplo, a densidade chega a 1,24 g/ml.

Acho que já ficou mais do que claro que o “teste” não passa de um jogo de cartas marcadas para garantir que a leitura de mau-olhado dê “positivo” — o resultado é tão certo quanto seria jogar uma maçã para o alto e dizer que, se ela não entrar em órbita, é porque fomos todos amaldiçoados pela Bruxa Malvada do Oeste.

É evidente que testes assim garantem aos vendedores de figas, ramos de arruda, trabalhos, orações, benzeduras, fogueiras santas e descarregos em geral um fluxo contínuo de diagnósticos preocupantes que favorece a prosperidade de seus respectivos negócios. Mas a questão principal nem é essa: é o fato de pessoas com diploma universitário ficarem olhando para o carvãozinho flutuante como se ele fosse um misterioso oráculo, e não uma mera reafirmação de leis da física descobertas há 23 séculos.

Pois é. Eu mesmo conheço algumas pessoas que cairiam nessa história do carvão, e afirmo isso porque já as ouvi dizendo que mantém atrás da porta de entrada de suas casas um copo com um pouco de água e sal grosso para “limpar as energias negativas” ou “afastar o mau-olhado”, dica esta que parece ser muito difundida nos meios “esotéricos”. (pausa para risadas)

Sério! E não são pessoas com baixa escolaridade ou coisa parecida. São familiares, colegas de trabalho, conhecidos, todos com, pelo menos, ensino médio completo; a maioria graduados e pós-graduados.

Acho engraçado que a recomendação é que se troque o copo toda semana, supostamente para não saturá-lo com “energias negativas”. (nova pausa para risadas)

Com certeza, se você resolver colocar um copo com água e sal grosso em qualquer canto da sua casa, deve trocá-lo toda semana mesmo, mas não por causa das “energias negativas”, e sim porque depois de um tempo o copo vai ficar cheio de borra de sal, visto que ele se cristaliza com a evaporação lenta da água e vai se depositando nas paredes do copo. Só isso. Um processo físico que qualquer moleque pode aprender na escola primária em uma aula bem dada de ciências.

Pena que alguns adultos se esquecem de lições tão básicas.

Abaixo o resultado de um experimento no qual o uso do sal grosso é amplamente recomendado e cuja eficácia é cientificamente comprovada.