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CHS 2012, um pouco do que vi e vivi

Agora, já com o distanciamento de quase 1 semana da realização do 1º Congresso Humanista Secular do Brasil, posso parar para dar minhas impressões sobre o evento.

Foi uma grata e extraordinária surpresa. Não apenas pelo evento, que foi excepcional, mas também pelo meu envolvimento pessoal. Como o Sérgio Viula já escreveu muito bem sobre o evento em si (além de já haver dois resumos aqui e aqui), vou me dedicar mais às questões pessoais.

Foi um momento histórico para mim finalmente conhecer pessoalmente, cara a cara, pessoas com quem já há alguns anos (no caso da “velha guarda” da LiHS/Bule Voador) ou meses (no caso dos quase recém-chegados) tenho tido contato praticamente diário por email ou redes sociais, nessa incessante e ainda inicial luta por um Brasil (e por que não dizer, um mundo) mais laico, mais secular, menos intolerante, mais digno, mais humanista.

Tirando o grande Daniel Oliveira, que já havia encontrado aqui em BH em uma visita relâmpago, ainda não conhecia pessoalmente nenhum dos outros diretores da LiHS que lá estavam presentes (embora já conhecesse a voz de alguns devido a algumas reuniões por skype, além da voz e face do presidente e da vice-presidenta da LiHS, Eli Vieira e Asa Heuser, por vídeos no youtube). Todos(as), sem exceção, são pessoas incríveis, e faço questão de citá-los textualmente, mesmo que com alguns eu não tenha tido a oportunidade de conversar mais longamente. Então, além dos três já citados, vai meu grande abraço virtual para Eduardo Patriota, Luciano Rossato, Natasha Avital, Jacob Reis, Cíntia Brito, Giuliano Gasparini, Roberto Luiz Rezende, Douglas Donin, Shirley Galdino, Juliana Paukowski, Conrado Klockner, Luiz Henrique, Stíphanie Silva, Sérgio Viula, Jessika Andras (uma das mais novas diretoras nomeadas pós-CHS)… é, acho que não esqueci ninguém da diretoria da LiHS que eu conheci pessoalmente, mesmo que com alguns o contato tenha sido bem rápido. E não posso deixar de lembrar também do Celso Masotti, membro da LiHS, um cara incrível, bem humorado e sensato, que gentilmente filmou todo o evento, e cujos filmes que vêm por aí estou esperando ansiosamente para assistir.

Vou registrar também a minha satisfação em ver, ouvir, conhecer, conversar e/ou dividir umas Heineken com algumas pessoas que eu também só conhecia da internet de uma forma mais distante, como leitor ou ouvinte. O Kentaro Mori (com ele já havia trocado alguns emails devido à minha participação no site da campanha 10:23), do site Ceticismo Aberto, o melhor site cético do Brasil, o jornalista Carlos Orsi, que gentilmente aceitou meu convite pra participar da mesa de ceticismo, o Alex Castro, cujos textos, crônicas, contos e livros são esplêndidos, o Jorge Quillfeldt, cuja voz eu ouço quase toda semana no podcast Fronteiras da Ciência, o Renato Zamora, que também já participou do fronteiras, o Márcio Retamero, que atualmente também contribui no Bule Voador, enfim, com alguns eu tive um contato mais próximo durante o CHS (como o Kentaro e o Carlos), com outros nem tanto, mas tudo valeu bastante a pena.

Todas as palestras e mesas redondas foram edificantes, algumas até bem emocionantes, com destaque para a Maria Berenice e a Marina Reidel, que emocionaram, cada uma a sua maneira, não só a mim, mas a cada ser humano naquela platéia. A fala do Renato Zamora, explicando e fundamento por que a violência contra crianças em nome de uma suposta “educação” não passa de pura e simples ignorância. A exposição do Desidério Murcho, sobre o sentido da vida para ateus. Os dados sobre violência trazidos por Marcos Rolim. Uma breve história do ateísmo resumida pelo Francisco Marshall. A aula de genética humana ministrada por Francisco Salzano. O panorama do secularismo pelo mundo, apresentado por Carlos Díaz, atual presidente da Atheist Alliance International. Bom, realmente foi um evento histórico, como ouvi de várias pessoas lá.

Estou lá no cantinho esquerdo da foto, momento do encerramento oficial

Quem não foi, perdeu. Fica pro próximo!

A crise na Europa segundo o Papa

Às vezes eu tenho a forte impressão que Joseph Ratzinger, o atual papa, se esforça para dar declarações desprovidas de qualquer sentido. Segundo uma agência de notícias católica, a EWTN, e a tradução e divulgação do site do Paulopes, Ratzinger disse que a atual crise que assola a Europa “nasceu da rejeição de pessoas a Deus, que é quem garante a nossa felicidade”.

Como eu várias outras declarações anteriores, o chefe da ICAR novamente assuma toda a petulância que lhe é peculiar e faz afirmações que, na visão dele, se aplicam a todas as pessoas, quando na verdade fazem sentido apenas àqueles que compartilham da fé dele.

Todavia, o caso agora é ainda pior, pois a afirmação acima, bem como outra proferida no mesmo evento (“A crise que a Europa está ligada a essa negligência, a essa rejeição de abertura para o transcendente.”) simplesmente não fazem o menor sentido, pois vincula uma situação que tem bases sociais e econômicas, assuntos eminentemente seculares, ao declínio e deteriorização da fé religiosa que ele entende como “a Verdadeira” (claro, ou alguém acha que o papa estaria se referindo a quaisquer das centenas de outras vertentes e religiões que existem por aí? Eu duvido.).

É interessante que algumas outras declarações que o papa fez em tom de lamentação, eu considero como verdadeiros avanços.

Segundo ele, “Deus se tornou para muitos o grande desconhecido e Jesus é apenas um grande personagem no passado”. Acertou em cheio! Uma entidade supostamente onisciente, onipresente, oni-sei-lá-o-quê, que existe em algum lugar fora do universo, supostamente controlando-o, uma espécie de “fantasmão amorfo” cuja existência não se apoia em quaisquer evidências racionais, só pode mesmo ser um completo desconhecido, no máximo um produto da imensa criatividade e imaginação humanas. Ele acerta também o fato de Jesus ser apneas um personagem histórico, parte de uma mitologia muito popular, que tomou a dimensão de “salvador da humanidade” devido a uma rede de acontecimentos históricos que favoreceu o mito criado em torno de uma peesoa, aliás, da mesma forma que outros personagens (alguns históricos, outros nem tanto) como Maomé, Rei Arthur, Julio César, Sidarta Gautama, Confúcio, etc, etc, etc.

Além disso, não é de se lamentar que a religião seja relegada apenas ao âmbito do “reino subjetivo“, sendo reduzida “a um fato privado e íntimo, à margem a consciência pública“. Isso, na verdade, é um avanço, inclusive para a liberdade de crença, um direito fundamental de todo ser humano. O fato de as religiões serem assuntos de âmbito privado e não interferirem em decisões públicas é o que garante que cada pessoa possa acreditar (ou não acreditar) no que bem entender.

Enfim, Joseph Ratzinger poderia utilizar melhor a cultura e o conhecimento que ele certamente tem para evitar declarações tão falaciosas e sem sentido como essas.

Em busca do “invisível”

Um dos capítulos (mais especificamente, o capítulo 3) do livro “Filosofia da Ciência”[1] de Rubem Alves desenvolve uma ideia central que, inclusive, encontra-se contida em seu próprio título: a ciência está em busca de ordem. O autor vai além e argumenta que não existe vida ou comportamento inteligente sem ordem, sendo esta uma exigência para nossa sobrevivência e, portanto, nada mais natural que a ciência busque desvendar qual é essa ordem.

Essa busca é parte do desejo do ser humano em conhecer como o mundo funciona (ordem), o qual por sua vez se enquadra em um caldo dos mais diversos desejos a que todos nós estamos sujeitos. Todavia, questiona Rubem Alves, qual a diferença entre a ordem científica e a ordem do senso comum? Uma seria mais lógica ou mais absurda do que a outra? Esses conceitos (lógico e absurdo) não seriam dependentes das nossas próprias concepções do que é absurdo ou não, as quais estariam necessariamente ligadas a nossas capacidades de perceber o mundo? A Terra estar parada no espaço seria, dependendo do ponto de vista, mais absurdo do que o fato de que ela gira a uma velocidade estonteante e continuamos todos com os pés colados no chão? Como nos livrar das limitações de nossas experiências a fim de entender o que se passa lá fora?

Isso posto, Rubem Alves argumenta que os cientistas estariam em busca do “invisível”, caçando uma ordem que eles não sabem qual é, de forma a tentarem encontrar uma descrição que, para além das aparências, se encaixe na tentativa de explicar como tudo funciona.

Nessa complexa busca os cientistas procuram, por meio da coleta de dados, confirmarem ou refutarem teorias construídas a partir do que esses próprios dados indicam. Todo esse esforço dá origem a modelos que têm o objetivo de serem descrições inteligíveis da realidade, embora não possamos ver diretamente como a realidade é. Tais modelos têm a característica de serem declarados verdadeiros caso funcionem, embora persista o problema de não sabermos, necessariamente, se eles descrevem exatamente a realidade. Dessa forma, os modelos criados seriam construções intelectuais baseadas no pressuposto de que é possível fazer uma relação de analogia entre o que conhecemos e o que desejamos conhecer. Ademais, é importante que essa analogia funcione. Modelos e teorias que não nos fornecem soluções para os problemas levantados ou que têm que ser extensa e artificialmente remendados para manterem sua validade simplesmente não nos servem.

Diante do que Rubem Alves levanta neste capítulo 3, entendo que uma das funções principais (e para mim mais interessantes) da ciência é justamente essa incessante busca pela ordem “invisível”. Acredito que há uma realidade objetiva independente e autoconsistente; entretanto, tal qual um peixe que vive em um aquário redondo, estamos limitados por nossos sentidos e por nosso intelecto (e suas extensões tecnológicas), o que provavelmente nos restringirá por ainda muito tempo à busca de teorias e modelos que funcionem (sem que estes reflitam exatamente a realidade), revisando e/ou substituindo tais descrições sempre que necessário diante de novos acúmulos de conhecimento. A meu ver o exemplo do peixe é uma ótima analogia: da mesma forma como ele pode, a partir de observações de como objetos se comportam diante de sua visão, descrever o mundo externo a ele de uma maneira que funcionará perfeitamente para ele, inclusive sendo possíveis fazer previsões consistentes sobre a forma e o movimento de corpos, não é difícil perceber que suas teorias, modelos e equações valerão apenas para a realidade de quem vive dentro um aquário redondo cheio de água. Analogamente, a nossa capacidade de descrever de forma inequívoca uma realidade objetiva está limitada ao fato de estarmos inseridos dentro dessa realidade. Não me arriscaria a dizer que não há brechas nessa prisão a serem abertas futuramente, mas mantenho-me cético quanto a isso. Penso que estamos, pelo menos por um bom tempo, presos a um realismo dependente de modelos[2], o que não necessariamente é algo ruim ou desanimador, desde que tais modelos funcionem cada vez melhor.


[1] Capítulo 3 – “Em busca de ordem” do livro “Filosofia da Ciência”, de Rubem Alves.

[2] Retirei a analogia do peixe e a ideia de realismo dependente de modelos do livro The Grand Design [O Grande Projeto], escrito pelos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow.

Ressurreição, um mito

Recentemente, no último dia 11 de abril, o colega André Tadeu de Oliviera publicou na coluna Advocati Fidei do Bule Voador um interessante texto de Alister McGrath em que este expõe a interpretação do teólogo luterano Rudolf Bultmann acerca da suposta ressurreição do personagem Jesus, evento que teria dado origem àquela data amada por todos os que, de alguma forma, dependem da indústria do chocolate.

Pretendo neste pequeno texto fazer algumas considerações que passaram pela minha cabeça.

André Tadeu, em sua introdução ao texto, apresenta uma frase que merece destaque:

“Como dogma central do cristianismo, é correto afirmar que sem a ressurreição a religião baseada nas tradições sobre o nazareno perde completamente seu sentido.”

Imagino que quase todo mundo concordaria com esse trecho. Parece-me que para os cristãos o retorno de seu messias dos mortos seria o que há de mais milagroso em toda a fábula criada em torno da vida de Jesus de Nazaré. Mesmo que se ignore qualquer outra das histórias existentes no Novo Testamento, tal evento configuraria algo certamente extraordinário e digno de devoção.

Pois bem, eis que no texto publicado na íntegra por André Tadeu, Alister McGrath apresenta alguns pontos muito interessantes, os quais reproduzirei abaixo:

“Bultmann compartilhava a convicção básica de Strauss de que, nessa era científica, era impossível acreditar em milagres. Por conseguinte, a crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo não mais era possível;”

“A crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo, embora fosse algo perfeitamente inteligível e legítimo no contexto do século I, não podia ser levado a sério nos dias atuais. “ É impossível usar a luz elétrica e o rádio ou, quando doente, recorrer ao auxílio da medicina ou das  descobertas científicas e, ao mesmo tempo, acreditar no mundo de espíritos e milagres apresentados pelo Novo Testamento”, afirmou Bultmann.”

“a ressurreição deveria ser considerada como um “mito, puro e simples”.

Obviamente, ateu como sou, não teria como eu discordar dessas frases. Imagino que para qualquer um que, assim como eu, vê os livros da Bíblia apenas como coleções de contos mitológicos e fantásticos, esses trechos destacados fazem todo sentido, evidenciando a sensatez da interpretação de Bultmann. E no lado diametralmente oposto, aqueles que tomam a Bíblia como uma obra a ser entendida de forma completamente literal (ou parcialmente, o que, felizmente, é uma característica da maioria dos cristãos) provavelmente não hesitariam em rotular o teólogo como mais um herege.

Entretanto, apesar de concordar com essa visão de Bultmann sobre o mito da ressurreição, não posso deixar de observar o restante de seus pensamentos expostos por McGrath. Há, parece-me, duas posições utilizadas por Bultmann para, de certa forma, “justificar” o cristianismo.

Uma é que “Tudo o que a crítica histórica pode estabelecer é que os primeiros discípulos vieram a crer na ressurreição“, ou seja, não houve a tão proclamada volta dos mortos, mas sim um tipo de boato que os discípulos de Jesus tomaram como verdadeiro e que milhões continuam tomando até hoje. Esse boato teria tornado possível o nascimento de uma nova religião com a presença de um dos elementos mais básicos que as religiões, em geral, apresentam: o sobrenatural, o fantástico, o extraordinário.

A outra, essa de cunho mais prático, é a importância não da fábula de um homem voltando dos mortos, mas sim da persistência de seus ensinamentos e sua mensagem, os quais não morreram com ele, mas “ressuscitaram” na extensiva pregação de seus discípulos.

Ora, assumindo que o dogma central do cristianismo (a ressurreição) é apenas mais um mito como centenas de outros que fazem parte das mais diversas religiões que existem ou já existiram, o que sobra? Um conjunto de ensinamentos morais (que sequer poderiam ser chamados de inéditos) disseminados pelos seguidores de um homem comum e compilados por autores que sequer viveram na mesma época do divulgador dessas mensagens? Se é assim, qual a diferença prática entre Jesus e alguns dos grandes filósofos da história (seja os antigos gregos, ou os iluministas, ou até alguns contemporâneos)? Qual a diferença entre o nazareno e Confúcio? Ou entre Jesus e Siddharta Gautama? Ou até entre Jesus e Maomé? Partindo do pressuposto que eram todos homens comuns que não passaram por qualquer experiência divina ou sobrenatural (afinal, todas as ressalvas feitas por Bultmann para o mito da ressurreição de Jesus valem para qualquer figura semelhante), seguir uma ou outra religião não seria exatamente a mesma coisa de ter um determinado posicionamento filosófico ou político?

Tenho que admitir que gostei bastante de conhecer essa visão de Rudolf Bultmann, e fico pensando se não seria muito interessante para a laicidade e o secularismo que mais pessoas religiosas conhecessem e compartilhassem dessa visão pé no chão de supostos eventos fabulosos.

Controle Mental

Claro que a grande maioria das pessoas nesse tipo de situação sequer se reconheceria nas imagens do vídeo abaixo, afinal, já estão de tal forma imersos que não conseguem olhar para si mesmo, embora, em geral, não tenham perdido a capacidade de apontar o dedo para os outros.

Esse vídeo vale pra todos aqueles que acham que colocam suas vidas nas mãos de supostos seres divinos, em especial para aqueles que infantilmente acreditam acriticamente em supostos representantes de supostas divindades.

Título: Mind Control

Fonte: Canal brunoicmss

Homeopatia na Scientific American Brasil

Foi com certa surpresa que vi um nota sobre homeopatia ao ler meu exemplar de abril/2012 da revista Scientific American Brasil. Transcrevo abaixo o que dizia a nota, sob o título “Eficiência Questionada da Homeopatia”:

Logo mais abaixo há uma transcrição da matéria

Pouco depois de ler essa nota, não me contive e enviei um email para a redação da revista, na esperança de vê-lo publicado no mês que vem para fazer um contraponto ao que foi divulgado. Segue o meu email:

A nota publicada na edição de abril/2012 sob o título “A eficiência questionada da homeopatia” pareceu-me  meio deslocada em uma publicação do porte e da qualidade da Sciam Brasil.

Ao longo dos anos acumulam-se evidências da ineficácia de ação dos preparados homeopáticos e da implausibilidade dos pressupostos dessa forma de terapia (cito, por exemplo, uma extensa revisão publicada na revista The Lancet em 2005, além de outras revisões disponíveis nas bases de dados científicas).

Apesar do tom crítico do título da nota, o texto em si é composto apenas de informações jogadas pela autora sem uma mínima apresentação de quaisquer evidências confiáveis. Cabe resslatar que apenas dizer que “pesquisas têm sido feitas” não diz muita coisa, haja vista não sabermos a qualidade metodológica das mesmas. Outra estratégia da autora é simplesmente atacar os agrotóxicos e as técnicas atualmente utilizados no controle de pragas e doenças agrícolas, como se os malefícios causados por estes venenos fossem motivo para, automaticamente, acreditarmos que a homeopatia tenha alguma eficácia.

E como não poderia deixar de ser, a autora ainda apela para os conceitos de “energia” e “física quântica” (já que com a química ela não pode contar) para fugir da constatação óbvia de que compostos homeopáticos são nada mais nada menos que água pura.

E eu não estou sozinho nessa. Houve até repercussão internacional, motivada por um email de um leitor brasileiro do site Science-Based Medicine. Felizmente o artigo que Hariett Hall escreveu se encontra disponível em inglês e em português, o que me fez publicá-lo no site do Desafio 10:23 e agora neste blog (reprodução na íntegra abaixo):

Autor: Hariett Hall

Fonte: Science-Based Medicine

Recentemente recebi um email de um dos leitores do SBM no Brasil, Felipe Nogueira Barbara de Oliveira, um aluno de Doutorado em Ciências Médicas e que possui Mestrado em Ciência da Computação e está tentando promover pensamento crítico e medicina científica no seu país. Ele me enviou uma cópia em .jpg de uma pequena matéria publicada na edição de Abril de 2012 da Scientific American Brasil. Ele ficou horrorizado que isso apareceu sob a alcunha da Scientific American, e eu também. A matéria é a seguinte.

Aviso: isto é doloroso.

Eficiência Questionada da Homeopatia

Aplicação dessa técnica à agricultura acena com recuperação de plantas e ambiente

A homeopatia é conhecida como tratamento alternativo para os seres humanos, mas poucos conhecem sua utilização em animais, plantas, solos e água. Essa técnica é alvo de críticas quanto aos resultados e eficácia. Uma delas diz respeito ao “efeito placebo” de seus remédios, que não contém nenhum traço da matéria-prima utilizada em sua confecção. Para responder a essa abordagem é necessário um esclarecimento: a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados.

A aplicação da técnica homeopática à agricultura não é recente, como a maioria das pessoas podem considerar. Um dos primeiros estudos feitos nessa área remonta à década de 20, com pesquisas em plantas realizadas pelo casal Eugen e Lili Kolisko, baseadas nas teorias de Rudolf Steiner para agricultura biodinâmica. Desde então muitas pesquisas tem sido feitas em países como Franca, Índia, Alemanha, Suíça, Inglaterra, México, Cuba, Itália, África do Sul e Brasil. Aqui a Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, é pioneira nessa área.

Não é preciso ser especialista em saúde ou em meio ambiente para perceber que o método convencional de tratamento de pragas e enfermidades na agricultura gera um desequilíbrio no ecossistema e, consequentemente, no ser humano. Agentes patogênicos e pragas vão adquirindo, com o tempo, resistência aos agrotóxicos – que, por estratégia de mercado, passaram a ser chamados de “defensores agrícolas”. Assim, a quantidade e a agressividade desses produtos químicos tem ser aumentadas para contornar essa situação, provocando um efeito cascata desastroso: o solo se torna mais pobre e diminui sua produção; trabalhadores rurais ficam gravemente doentes pelo manuseio constante desses produtos tóxicos; as águas, incluindo as subterrâneas, são contaminadas; e os seres que dependem dos frutos da terra recebem toda essa carga de veneno, desencadeando uma série de problemas de saúde.

Com exceção das indústrias de agrotóxico e fertilizantes químicos, quem mais se beneficia com a prática desses tratamentos convencionais?

Se Hipócrates pudesse reavaliar o seu principio dos contrários, representado pela alopatia, e suas posteriores conseqüências nos seres vivos e no meio ambiente, ele o excluiria suas considerações. Já a homeopatia como técnica sustentável, economicamente viável e ecologicamente correta torna-se imprescindível ao equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem.

Autora: Nina Ximenes, bióloga, é pós-graduada em educação ambiental.

É tão ruim que não sei nem por onde começar. Homeopatia não é nada mais que um sistema elaborado de distribuição de placebos. É baseado em pensamento mágico. Ciência básica nos garante que a homeopatia não pode funcionar como afirma (com água lembrando uma substância que não está mais presente e com soluções mais diluídas produzindo efeitos maiores).

E não há evidência confiável que possui algum efeito terapêutico em humanos, muito menos em animais, plantas, solos e água. Não tem nada a ver com física quântica: efeitos quânticos são significativos apenas nas escalas atômica e subatômica, e não explicam a afirmação da homeopatia que a água “lembra” a substância original, muito menos como essa memória poderia afetar a saúde. A afirmação que a homeopatia “trabalha com energia” é apenas imaginação, não demonstrada por evidências.

Rudolph Steiner foi um filósofo que criou o movimento espiritual chamado antroposofia. A ciência de Steiner é a tão chamada “ciência espiritual.” Medicina antroposófica e agricultura biodinâmica são dois ramos da “ciência” de Steiner que ainda são populares em alguns círculos, mas que foram perfeitamente caracterizados como pseudociência por verdadeiros cientistas. Se quiser saber mais sobre medicina antroposófica, você pode ler o que Dr. Gorski escreveu (em inglês) sobre isso aqui.

A autora usa uma linguagem inflamatória para fazer extravagantes  afirmações de danos de pesticidas e fertilizantes, sem nenhuma tentativa de prover alguma evidência para apoiá-las. Ela usa o termo “alopatia”, uma palavra pejorativa sem significado inventada por Hahnemann, o criador da homeopatia, para denegrir seus principais rivais. A autora refere-se ao “princípio dos contrários” de Hipócrates, uma distorção e simplificação de suas idéias. Hipócrates foi um homem esperto, e eu gosto de pensar que, se ele estivesse vivo, ele teria rejeitado a antiga teoria dos “quatro humores” e homeopatia, e teria adotado o método científico. A autora questiona “quem mais se beneficia” das convencionais práticas na agricultura. Eu argumentaria que há benefícios para pessoas que poderiam ter morrido de fome devido a escassez de alimentos se fertilizantes e pesticidas não tivessem funcionado para aumentar a disponibilidade de alimentos. Isso não significa que as práticas correntes não devem ser melhoradas e que não devem ser feitas com mais segurança, mas descartá-las de uma só vez e substituí-las por homeopatia dificilmente é a resposta!

Eu gostaria de saber se isso é algum tipo de sátira, mas eu acho que não. A matéria está na seção “Avanços” e com o rótulo “Saúde”. A autora está nos caçoando, ou ela realmente acredita que “a homeopatia torna-se imprescindível para o equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem”? Talvez ela esteja falando de algum planeta em um universo paralelo, ou dos sonhos dela. Se a Rainha Branca de Alice no Pais das Maravilhas tentasse acreditar nisso antes do café da manhã, o cérebro dela poderia explodir.

Se isso é o que se passa por ciência no Brasil, Brasil está em apuros. Aparentemente as coisas não mudaram muito desde que Richard Feynman teve seu encontro decepcionante com o sistema de educação brasileiro. No entanto, é claro que não é justo destacar apenas o Brasil, porque essas mesmas coisas acontecem em outros países.

Se isso é o que se passa por ciência para Scientific American, a revista é uma caricatura repreensível e deveria cortar a palavra “scientific” do seu título. No que os editores estavam pensando quando eles impuseram esse tipo de lixo aos seus leitores? Que vergonha!

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Nota do Editor: Em 05/04/2012, a Scientific American Brasil, por meio de seu editor-chefe, Ulisses Capozzoli, publicou no Blog da Sciam Brasil uma nota de esclarecimento chamada “Erro de Avaliação”. Segundo Capozzoli,

“Quando cometi o erro de avaliação a que me referi há pouco, atropelei o conteúdo conceitual: Scientific American, refletindo talvez a maioria das opiniões no meio científico, entende que homeopatia não é ciência.

Leitores indignados com minha avaliação enviaram e-mails à redação e abordaram a questão na rede social, o que permitiu que eu me desse conta da falha que havia cometido.”

O texto completo está disponível no Blog da Sciam Brasil.

Casamento civil é (ou deveria ser) para todos/as

Vamos deixar uma coisa bem clara: que se danem as celebrações religiosas de casamentos. Estas somente importam dentro de cada sistema de crenças, tendo valor inexistente para o restante da sociedade que não aderem a determinada religião.

O que eu quero dizer com isso é o seguinte: se você resolveu casar no religioso, faça bom proveito. Curta bastante. Aproveite. Mas não queira que outras pessoas tenham o mesmo desejo que você. Simples assim. Parece bobagem falar isso, mas logo abaixo ficará explicado por que iniciei este texto metendo o pé na porta.

Na semana que passou foi noticiado o primeiro casamento civil entre pessoas do mesmo sexo do estado de Minas Gerais, ocorrido no município de Manhuaçu (aproximadamente 80 mil habitantes), a 278 quilômetros da capital, Belo Horizonte. A exemplo desse, já se contam 10 casamentos homoafetivos no Brasil, cujos casais tiveram que recorrer à Justiça para casar diretamente no Cartório de Registro Civil, sem passar pela união civil estável.

Os noivos, caso desejassem, poderiam ter assinado a união civil estável homoafetiva num Cartório de Notas, conforme reconheceu o Supremo Tribunal Federal (STF), em 5 de maio de 2011, e depois fazer a conversão para o casamento civil, mas preferiram encurtar o caminho com uma ação judicial. Agora, já têm a certidão de casamento lavrada no Cartório de Registro Civil. No papel, no lugar de solteiro, está escrito casado (se você é daqueles que acham que a conquista do direito à união estável já está bom demais, recomendo que pesquise um pouco sobre as diferenças entre as modalidades; pode começar por este texto).

Destaco parte da argumentação do magistrado que julgou o caso. Segundo o  juiz Walteir José da Silva, “Se a lei permite a conversão de união heterossexual estável em casamento e o casamento direto entre heterossexuais, se não permitíssemos o mesmo para homossexuais, estaríamos tratando de forma diferente situações idênticas”. Declaração simples, objetiva, clara e sensata.

Agora, esclareço por que escolhi iniciar este texto com as palavras que constam nos dois primeiros parágrafos. O veículo de imprensa de onde tirei a notícia deste post resolveu ouvir um padre da cidade, e eis a declaração dele: “A notícia me pegou de surpresa. Isso não é casamento, é um contrato civil. Desde o início, é normal somente que homem e mulher se unam. O Estado é laico e tem suas leis, mas a Igreja só reconhece o sacramento do matrimônio entre pessoas de sexos diferentes”.

Bom, não é difícil perceber a ignorância e a contradição presentes no comentário do tal padre.

Ignorância porque ele diz que “Isso não é casamento, é um contrato civil.” Ora, claro que é um casamento. Basta ver a decisão do juiz. O padre em questão pode espernear à vontade; não vai mudar o fato de que o que aconteceu nesse caso (e em alguns outros já acontecidos e que ainda acontecerão) foi um casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo.

Contradição porque o mesmo admite expressamente que “o Estado é laico e tem suas leis”. Ótimo, nisso ele está certíssimo. Depois ele afirma que “a Igreja só reconhece o sacramento do matrimônio entre pessoas de sexos diferentes”; aí, eu me pergunto: e quem disse o contrário disso? Por acaso alguém está querendo obrigar “a Igreja” (claro que na habitual presunção católica, o sacerdote somente reconhece como “Igreja” a denominação da qual ele é parte) a aceitar que duas pessoas do mesmo sexo se unam no sacramento do matrimônio? Ninguém quer propor isso (o Estado não regula sacramentos das religiões), portanto, essa declaração é tão pertinente quanto o latido de um cachorro que estivesse passando na rua no momento da entrevista.

Por fim, aproveito o tema para divulgar o site oficial em apoio à campanha do Casamento Civil Igualitário para todos/as (http://casamentociviligualitario.com.br/). O objetivo dessa campanha é reunir apoiadores ao texto da Proposta de Emenda à Constituição, iniciativa do Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que pretende ampliar a quaisquer pessoas o direito de celebrar o casamento civil em qualquer cartório, sem a necessidade de buscar caminhos jurídicos para alcançarem tal desejo.