O “mesmo deus” e a divergência que varremos para baixo do tapete

Autor do texto: Eli Vieira, texto publicado originalmente na página da LiHS no Facebook

Nota do blog: Concordo integralmente com o texto abaixo, escrito no Facebook por Eli Vieira, por isso resolvi publicá-lo neste espaço. Obviamente todos devemos tentar viver pacificamente, inclusive (e principalmente) os seguidores das mais diversas religiões. Todavia, maquiar as claras e enormes incongruências existentes entre essas diferentes religiões sob o mentiroso pretexto de que “todas seguem o mesmo deus” não passa de desonestidade intelectual e uma grande “bundamolice”.

Boas intenções geralmente estão por trás da afirmação de que cristãos, muçulmanos e judeus acreditam no “mesmo Deus”. É uma tentativa honesta de aproximação “ecumênica” feita por teístas.

Mas tem alguma base? Parece estranho supor que o deus que mandou seu filho como bode expiatório para pagar pelos erros dos outros (cristianismo) seja o mesmo que permitiu a Maomé voar sentado num cavalo alado e pregar a Jihad, além de negar que Jesus fosse algo mais que um profeta. O deus do “povo escolhido” de nome impronunciável, YHWH, não parece ser o mesmo Javé que assistiu impassível a milênios de antissemitismo na Europa que culminaram no holocausto.

Em obras de ficção em que há um gêmeo bom e um gêmeo ruim, espera-se que o público consiga separá-los não pelo nome ou pela aparência, mas pelas atitudes. Como pode ser um “mesmo deus” personagens com atitudes tão contraditórias nos três grandes monoteísmos?

Mas nem precisamos ir tão longe: dentro das diferentes vertentes dentro de cada monoteísmo há discrepância de supostas ações divinas. O deus que diz que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus não parece ser o mesmo que abençoa o cartão de débito de R. R. Soares, a conta bancária de Edir Macedo e o trono de ouro do Papa Bento XVI.

Quando o filósofo Bertrand Russell foi preso por fazer militância pacifista em 1918, teve de responder a um pequeno questionário na entrada da prisão. Quando foi perguntada sua religião, e Russell respondeu “agnóstico”, o oficial de segurança respondeu “Bem, há muitas religiões, mas suponho que todas adoram o mesmo Deus”.

Se é para levar em conta o que as religiões alegam sobre seus deuses, sequer podemos considerar que o deus único do qual falam os monoteístas é o mesmo, se dermos crédito às ações que atribuem a ele.

O erro do guarda da prisão de Russell é o desinteresse em conhecer o que dizem os discordantes, para assumir que toda posição diferente é uma analogia de sua posição própria. É este o erro de monoteístas que assumem que todas as religiões acreditam num único deus, fechando os olhos para os politeísmos que vicejam pelo planeta, e para religiões ateias, que não são poucas. (É, ateus, sinto muito, mas a cientologia é uma religião ateia.)

No afã proselitista de tentar converter pessoas para suas crenças, que nunca poupa, evidentemente, as posições diferentes de ataques, muitos tentam fingir que o grupo ao qual pertencem é monolítico, quando é na verdade um verdadeiro ninho de gatos de discordantes enrustidos.

Um exemplo disso é como podem ser diversas as posições criacionistas: existem criacionistas de Terra jovem que alegam que o planeta tem 6 mil anos, e existem criacionistas de Terra antiga que sopram mais velinhas para ela, que podem chegar às 4,54 bilhões que as evidências mostram. Mas isso não interessa para eles, pois estão preocupados apenas em converter mais pessoas para a crença de que as espécies vivas foram feitas à mão por Deus, que aparentemente ficou proibido de usar qualquer maquinário de leis imutáveis para gerar os resultados imprevisíveis que geraram. Aparentemente o trabalho braçal é o preferido para entidades oniscientes.

Como pode ser que o suposto criador tenha tanto interesse pelo Oriente Médio, que é apenas 1,4% da superfície do planeta, e por que, dos 200 mil anos de idade da nossa espécie, ele escolheu apenas os últimos 5 mil anos para começar a se revelar para povos dessa pequena região?

Ah, não faça essas perguntas, o importante é que acreditamos no “mesmo deus”, ou seja, escolhemos dar o mesmo nome para personagens diferentes que protagonizam narrativas incompatíveis entre si. Isso quando as narrativas dão espaço para algum personagem.

Abraçar a diversidade de opinião não significa fazer um espantalho de todas que não são a sua, fazendo delas uma analogia da sua posição.

Não, hindus não acreditam no “mesmo deus” dos cristãos. Não, ateus não têm “raiva de deus”. E não, religiões não são “ciências falidas”, nem toda religião, se alguma, tem o propósito de explicar metodicamente tudo o que se encontra no mundo.

Para quem adota o racionalismo, há, sim, critérios para ranquear opiniões, e são os critérios da lógica e da evidência. Mas quando a lógica está perfeita mas a evidência não favorece diferencialmente as alternativas disponíveis, cabe a cada um justificar como puder sua posição pessoal sobre um assunto, sem deixar de compreender bem posições discordantes, afinal só se pode ter esperança de estar certo compreendendo bem a opinião alheia, especialmente quando bem informada, pois tem-se no outro o valor da independência, e não há nada melhor para a validade da descoberta do que a pluralidade de corroborações independentes.

É por isso que lutar por um mundo em que as opiniões discordantes* saiam do armário deve ser não apenas um imperativo moral de igualdade na expressão, mas a obrigação de um pensador honesto interessado em se aproximar da verdade.

P.S.: * Xingar e atacar não é “opinião” pelo mesmo motivo que briga de bar não é arte marcial.

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