Estranhos em ninhos estranhos

Vez ou outra temos acesso a notícias que demonstram um pouco como ser ateu, agnóstico ou simplesmente não ter qualquer religião pode ser um fator de estranhamento (e em muitos casos, de discriminação explícita) por outras pessoas.

Por exemplo, em abril deste ano, como noticiado na Folha de São Paulo e reproduzido no Pavablog, chegou ao conhecimento público que em uma escola estadual da cidade de Irapecerica da Serra-SP ocorria diariamente um “pai-nosso” coletivo antes de se iniciarem as aulas.

Não é preciso ser nenhum gênio para atentar ao fato de que esse momento viola a laicidade estatal, indo de encontro ao inciso I do art. 19 da atual Constituição Federal.
Apesar disso, a prática já vinha ocorrendo a um bom tempo, e sem a qualquer suposição de que talvez eles estivessem errados; possivelmente por achar que não há nada demais nesse tipo de atividade, alguns funcionários da instituição ainda declararam que não havia obrigação em participar, que seria possível ficar em silêncio (sic). Essa declaração é, no mínimo, patética; óbvio que se pode ficar em silêncio, até porque seria impossível saber se todo mundo estava realmente rezando. Entretanto, a presença dos alunos era obrigatória, o que por si só já configura a compulsoriedade da participação, uma vez que apenas após a oração coletiva os alunos eram liberados para irem para as salas.

A situação só foi resolvida quando um aluno do 9º ano, de13 anos, que se declara ateu, se dispôs a reclamar. Esse aluno conversou com sua mãe e seu irmão mais velho, afirmando que se sentia constrangido com o olhar de reprovação dos colegas e professores diante do seu silêncio, o que os levou a reclamar formalmente junto à direção da escola, a qual respondeu que a prática foi autorizada “democraticamente” pela maioria das pessoas; algumas mães de alunos disseram que o momento reza foi combinado pela direção quando o ano letivo começou.

A diretora da época, que teve a iniciativa de implantar o “pai-nosso” obrigatório, não se pronunciou e orientou a reportagem a procurar a Secretaria de Estado de Educação. O órgão reprovou e proibiu a prática, afastou a diretora e comunicou que “A secretaria não compactua com o desrespeito ao preceito constitucional da laicidade do Estado e do ensino público, que acarreta o desrespeito ao direito de liberdade de escolha religiosa por parte dos alunos e familiares”.

Chama a atenção que com tantos adultos envolvidos (falo dos professores e demais funcionários da escola), foi necessário que um adolescente de 13 anos se indignasse e percebesse que seus direitos estavam sendo lesados para que a situação fosse corrigida. Na verdade, desconfio seriamente que o caso só chegou a essa resolução porque houve o envolvimento da imprensa.

Mas não achem que isso é exclusividade de terras brasileiras.

Em notícia publicada no último dia 24/10 no site do Paulopes, com informações da National Secular Society, foi divulgado que um rapaz de 16 anos teve um problema parecido na Irlanda. O adolescente registrou queixa na Comissão de Direitos Humanos do seu país contra a sua escola por ter sido obrigado a participar de culto “multi-denominacional” dentro de sala de aula. Segundo ele, durante o culto, Deus foi mencionado 28 vezes e Jesus, 6. Os alunos tiveram de cantar três hinos. Houve duas leituras da Bíblia e referências ao batismo e à eucaristia. O aluno solicitou ao professor que o deixasse sair da sala, pedido que foi negado. O aluno ficou sabendo que o diretor havia determinado que todos deveriam participar do momento ecumênico, incluindo ateus e agnósticos. Segundo o diretor, embora a comunidade da escola seja multi-denominacional, a maioria das pessoas é cristã (católicos e protestantes). Porém, nas próprias palavras do aluno denunciante, mesmo que estejam em maioria, os cristãos não têm o direito de forçar as demais pessoas pessoas a participar de seus ritos, aí inclusos os ateus, agnósticos, budistas, espiritualistas variados e até mesmo os próprios cristãos que porventura não queiram participar.

O que eu achei curioso é que nos dois casos as pessoas mentoras da prática de reza coletiva simplesmente não se incomodam em estarem desrespeitando o direito à liberdade de crença de crianças e/ou adolescentes. Afinal, para elas, não basta promover o ritual no estabelecimento de ensino; têm que definir como compulsória a participação de todos, sem distinção e sem qualquer respeito à liberdade individual.

Fico me perguntando, seríamos nós, ateus, agnósticos, céticos e sem religião uns estranhos nos ninhos, ou os ninhos que são deveras estranhos?

3 Respostas para “Estranhos em ninhos estranhos

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