Em busca do “invisível”

Um dos capítulos (mais especificamente, o capítulo 3) do livro “Filosofia da Ciência”[1] de Rubem Alves desenvolve uma ideia central que, inclusive, encontra-se contida em seu próprio título: a ciência está em busca de ordem. O autor vai além e argumenta que não existe vida ou comportamento inteligente sem ordem, sendo esta uma exigência para nossa sobrevivência e, portanto, nada mais natural que a ciência busque desvendar qual é essa ordem.

Essa busca é parte do desejo do ser humano em conhecer como o mundo funciona (ordem), o qual por sua vez se enquadra em um caldo dos mais diversos desejos a que todos nós estamos sujeitos. Todavia, questiona Rubem Alves, qual a diferença entre a ordem científica e a ordem do senso comum? Uma seria mais lógica ou mais absurda do que a outra? Esses conceitos (lógico e absurdo) não seriam dependentes das nossas próprias concepções do que é absurdo ou não, as quais estariam necessariamente ligadas a nossas capacidades de perceber o mundo? A Terra estar parada no espaço seria, dependendo do ponto de vista, mais absurdo do que o fato de que ela gira a uma velocidade estonteante e continuamos todos com os pés colados no chão? Como nos livrar das limitações de nossas experiências a fim de entender o que se passa lá fora?

Isso posto, Rubem Alves argumenta que os cientistas estariam em busca do “invisível”, caçando uma ordem que eles não sabem qual é, de forma a tentarem encontrar uma descrição que, para além das aparências, se encaixe na tentativa de explicar como tudo funciona.

Nessa complexa busca os cientistas procuram, por meio da coleta de dados, confirmarem ou refutarem teorias construídas a partir do que esses próprios dados indicam. Todo esse esforço dá origem a modelos que têm o objetivo de serem descrições inteligíveis da realidade, embora não possamos ver diretamente como a realidade é. Tais modelos têm a característica de serem declarados verdadeiros caso funcionem, embora persista o problema de não sabermos, necessariamente, se eles descrevem exatamente a realidade. Dessa forma, os modelos criados seriam construções intelectuais baseadas no pressuposto de que é possível fazer uma relação de analogia entre o que conhecemos e o que desejamos conhecer. Ademais, é importante que essa analogia funcione. Modelos e teorias que não nos fornecem soluções para os problemas levantados ou que têm que ser extensa e artificialmente remendados para manterem sua validade simplesmente não nos servem.

Diante do que Rubem Alves levanta neste capítulo 3, entendo que uma das funções principais (e para mim mais interessantes) da ciência é justamente essa incessante busca pela ordem “invisível”. Acredito que há uma realidade objetiva independente e autoconsistente; entretanto, tal qual um peixe que vive em um aquário redondo, estamos limitados por nossos sentidos e por nosso intelecto (e suas extensões tecnológicas), o que provavelmente nos restringirá por ainda muito tempo à busca de teorias e modelos que funcionem (sem que estes reflitam exatamente a realidade), revisando e/ou substituindo tais descrições sempre que necessário diante de novos acúmulos de conhecimento. A meu ver o exemplo do peixe é uma ótima analogia: da mesma forma como ele pode, a partir de observações de como objetos se comportam diante de sua visão, descrever o mundo externo a ele de uma maneira que funcionará perfeitamente para ele, inclusive sendo possíveis fazer previsões consistentes sobre a forma e o movimento de corpos, não é difícil perceber que suas teorias, modelos e equações valerão apenas para a realidade de quem vive dentro um aquário redondo cheio de água. Analogamente, a nossa capacidade de descrever de forma inequívoca uma realidade objetiva está limitada ao fato de estarmos inseridos dentro dessa realidade. Não me arriscaria a dizer que não há brechas nessa prisão a serem abertas futuramente, mas mantenho-me cético quanto a isso. Penso que estamos, pelo menos por um bom tempo, presos a um realismo dependente de modelos[2], o que não necessariamente é algo ruim ou desanimador, desde que tais modelos funcionem cada vez melhor.


[1] Capítulo 3 – “Em busca de ordem” do livro “Filosofia da Ciência”, de Rubem Alves.

[2] Retirei a analogia do peixe e a ideia de realismo dependente de modelos do livro The Grand Design [O Grande Projeto], escrito pelos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow.

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