Considerações sobre a importância das evidências científicas

Em junho de 2011, o psiquiatra Daniel Martins de Barros, autor do blog Psiquiatria e Sociedade, hospedado no site do Estadão, escreveu um texto intitulado “Pelo fim das leis inúteis (uma Legislação Baseada em Evidências)”. O texto propõe o que ele chama de “Legislação baseada em evidências”, que nortearia a criação de leis de acordo com uma regra bem simples: projetos de leis deveriam ter como base evidências sólidas, buscadas na literatura das ciências humanas, biológicas ou exatas, ou até em experiências documentadas em outras regiões do mundo.

Segundo o autor, a intenção seria criar um movimento semelhante ao ocorrido na década de 90 do século passado no âmbito da medicina: a Medicina Baseada em Evidências (MBE). Nesse contexto, as decisões médicas baseadas apenas em experiência pessoal e conhecimentos adquiridos durante a formação passaram a dar lugar à utilização ponderada das melhores evidências científicas existentes, visando à tomada da melhor decisão para o tratamento individual ou coletivo dos pacientes. Embora a MBE ainda encontre resistência em alguns setores da medicina, por exemplo, a homeopatia, não há dúvidas de que, ao substituir opiniões por conhecimentos embasados, ela trouxe eficácia e segurança aos tratamentos médicos.

O autor voltou ao tema este mês em um novo texto chamado “Frustrações com a hipnose, da Suécia ao Paraná”, utilizando como gancho a reinauguração do Laboratório de Hipnose no Instituto de Criminalística do Paraná (segundo o site da instituição, “o único da América Latina especializado no uso desta técnica para colaborar com a investigação de crimes”), que funcionou de 1998 a 2008, quando foi fechado, e reabriu em dezembro do ano passado.

O Instituto de Criminalística do Paraná descreve as aplicações da hipnose na colaboração da investigação de crimes da seguinte forma:

“Geralmente é utilizada quando a vítima ou testemunha de um crime, sofreu traumas decorrentes da violência empregada pelo agressor ou por qualquer outro motivo, que resulte em bloqueio mental e, por isso, não consegue descrever o criminoso e nem fatos que ocorreram. Muito utilizada em casos de assalto, seqüestro, estupro e atropelamentos em que a vítima ou testemunha está com amnésia total ou parcial em relação aos detalhes gerais ou fisionômicos que observou e não consegue descrever.”

O referido instituto faz ainda uma ressalva quanto ao uso da hipnose:

“A hipnose não se constitui na prova em si, mas através da hipermnésia (potencialização da memória) tem se constituído em elemento importante, trazendo à tona detalhes para a investigação criminal que estão esquecidas devido ao trauma psicológico sofrido pela vítima ou testemunha. Todavia, cabe às provas testemunhais, através da investigação e ao laudo pericial, que representa a materialidade do delito, as provas em si.”

Nesse momento, entra a objeção do Daniel Barros, pois segundo ele “as revisões sistemáticas da literatura científica mostram que a hipnose não é um meio confiável de resgatar lembranças” e, portanto, resgatando a questão da “Legislação baseada em evidências” proposta por ele, seriam necessárias mais pesquisas antes da proposição de novas leis ou da utilização de certos procedimentos judiciais, como nesse caso do Instituto de Criminalística do Paraná.

De acordo com o autor, embora a hipnose possa ser eficaz em outras aplicações, como controle da dor e relaxamento, sua utilização no resgate de memórias seria problemática, pois o número de lembranças corretas das pessoas sob estado hipnótico aumentaria na mesma proporção em que ocorrem falsas memórias, sendo que haveria ainda um agravante: a hipnose tornaria as pessoas mais confiantes nas suas lembranças, mesmo que sejam falsas. O autor cita também, como exemplo, que vários estados dos EUA proíbem que pessoas que foram hipnotizadas sejam ouvidas como testemunhas posteriormente, uma vez que a crença de que as lembranças que emergem sob estado hipnótico são verdadeiras é muito forte, independentemente da veracidade da recordação.

Entretanto, não se deve jogar tudo “na lata do lixo”. Daniel Barros faz uma ressalva bem interessante:

“Há que se ressaltar, no entanto, que algumas técnicas de entrevista usadas pelos hipnólogos podem ser úteis, mas por outras razões: enquanto policiais normalmente interrompem o fluxo de ideias na hora de interrogar as pessoas, usam perguntas fechadas (tipo sim/não), induzem respostas e não raro transmitem juízos de valor ao longo do interrogatório, a abordagem do entrevistador afeito à hipnose é em tudo oposta, facilitando o acesso dos sujeitos a suas memórias. Isso sem qualquer relação com um estado transe hipnótico.”

Aproveito esse trecho para fazer um paralelo direto com a atuação de alguns profissionais de saúde que praticam ou têm certa afinidade com áreas ditas “alternativas”, “integrativas” ou “complementares” das ciências da saúde. Tomando como exemplo a medicina, em um contexto no qual profissionais apressados tendem a fazer consultas curtíssimas, às vezes de 10-15 minutos ou menos, talvez dando a impressão de quase não estar prestando atenção no que o paciente relata, e comparando essa situação com as relativamente longas consultas homeopáticas, em que o médico se propõe a ouvir tudo o que o paciente quiser relatar, demonstrando que realmente se preocupa com aquela pessoa que está em sua frente, em qual desses quadros o profissional terá mais condições de encontrar a raiz de determinado problema de saúde?

Deixando de lado coisas como “desequilíbrio energético”, “cura pelo semelhante” e “diluições infinitesimais”, os médicos (e outros profissionais de saúde) poderiam se beneficiar de expedientes utilizados pelos seus colegas das “práticas complementares”?

Ora, muitos já o fazem muito bem (embora há os que resistam). Há profissionais que fazem questão de ficar com seus pacientes pelo tempo necessário para uma averiguação das causas de uma determinada condição e posterior ataque a estas, fugindo da lógica de consultas relâmpagos que só têm o objetivo de identificar sintomas e medicá-los para que sumam. Não saberia dizer com certeza (embora desconfie) se tais profissionais são a regra ou a exceção (arrisco a dizer que a proporção deve ser diferente nos contextos privado, dos planos de saúde e público); limito-me a ter esperança de que um dia a maioria absoluta dos profissionais de saúde (e analogamente de outras áreas, como a segurança) reconheça a importância de se unir as melhores evidências científicas com a arte de escutar o outro e investigar a fundo um determinado problema.

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