Ignorância e Preconceito papal

Que o papa Bento XVI é ignorante ou desonesto eu já não tinha muitas dúvidas, afinal um senhor que afirma que a distribuição e uso de preservativos podem aumentar o problema da Aids carece de uma mínima educação científica ou compromisso com a verdade.

Que ele seja preconceituoso também não me surpreende, pois isso está no cerne da religião que ele lidera. Na verdade, eu nem deveria dar atenção a um cara desse. Mas como há muitas pessoas que realmente ouvem o que ele diz, vale a pena perder um tempinho para jogar uma pá de cal em algumas de suas opiniões.

Nesta segunda-feira, 09/01/2012, o referido papa declarou que o casamento homossexual é uma das várias ameaças atuais à família tradicional e que ameaçaria “o próprio futuro da humanidade“, pois segundo ele a educação das crianças precisa de “ambientes adequados” e “o lugar de honra cabe à família, baseada no casamento de um homem com uma mulher“. A família seria, na visão do papa, “a célula fundamental de cada sociedade“, e a conclusão a que ele chega é que “políticas que afetam a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade“.

Vejam bem, não é preciso ser nenhum gênio para interpretar as palavras de Joseph Ratzinger. Ele pretende estabelecer uma relação direta entre o casamento homossexual e uma suposta ameaça à dignidade humana e educação de crianças em ambientes inadequados. E é aí que reside todo seu podre preconceito, e como não poderia deixar de ser, tal preconceito é filhote direto da ignorância.

Não há qualquer indício de evidência que aponte para problemas decorrentes da criação de crianças por casais homossexuais, e não é por falta de estudos. Por exemplo, um trabalho de 1995 publicado no periódico Developmental Psychology sugere que, se há alguma diferença na forma como são criadas crianças por casais tradicionais ou por casais de lésbicas, as crianças com duas mães levam vantagem. Como apontou Carlos Orsi em um texto publicado sobre o assunto, uma metanálise publicada em 2010, avaliando vários estudos sobre o impacto do tipo de família  (casal heterossexual, pai solteiro, mãe solteira, casal gay masculino, casal gay feminino) na criação dos filhos conclui que crianças criadas por duas mães tendem a receber mais amor, atenção e carinho, mas que “o sexo dos pais (…) tem uma significância mínima na saúde psicológica ou no sucesso social” dos filhos.

Está pouco? Tem mais. Abaixo há uma lista de estudos que pode ser conferida em um post do blog “Paul Cameron refutado“; são trabalhos que evidenciam o fato de uniões homossexuais reportarem o mesmo nível de estresse que relações heterossexuais e crianças não serem afetadas psicologicamente por serem criadas por famílias homossexuais, o que ajuda a destruir a argumentação rasteira do papa:

2005 Lambert S. Family Journal: Counseling & Therapy for Couples & Families 13(1): 43-51. “Gay and Lesbian Families: What We Know and Where to Go From Here”

2004 Wainright J. Child Development 75(6): 1886-1898. “Psychosocial Adjustment, School Outcomes, and Romantic Relationships of Adolescents With Same-Sex Parents”

2003 Golombok S. Developmental Psychology 39: 20-33. “Children with lesbian parents: A community study.”

2003 Millbank J. Australian Journal of Social Issues 38: 541-600. “From here to maternity: A review of the research on lesbian and gay families.”

2002 Vanfraussen K. Journal of Reproductive and Infant Psychology 20: 237-252. “What does it mean for youngsters to grow up in a lesbian family created by means of donor insemination.”

2002 Golombok S. British Medical Journal 234: 1407-1408. “Adoption by lesbian couples.”

2002 Anderssen N. Scandinavian Journal of Psychology 43(4): 335-351. “Outcomes for children with lesbian or gay parents: A review of studies from 1978 to 2000”

2002 Perrin E. Pediatrics 109: 341-344. “Technical report: Coparent or second-parent adoption by same-sex partners.”

2001 Stacey J. American Sociological Review 66: 159-183. “(How) Does the Sexual Orientation of Parents Matter?”

2000 Patterson C. Journal of Marriage and the Family 62: 1052-1069. “Family relationships of lesbians and gay men.”

1999 Fitzgerald B. Marriage and Family Review 29(1): 57-75. “Children of lesbian and gay parents: A review of the literature”

1999 Tasker F. Clinical Child Psychology and Psychiatry 4(2): 153-166. “Children in lesbian-led families: A review”

1998 Binder R. Journal of the American Academy of Psychiatry and the Law 26(2): 267-276. ” American Psychiatric Association resource document on controversies in child custody: Gay and lesbian parenting, transracial adoptions, joint versus sole custody, and custody gender issues.”

1998 McNeill K. Psychological Reports 82:59-62. ” Families and parenting: A comparison of lesbian and heterosexual mothers”

1998 Parks C. American Journal of Orthopsychiatry 68(3): 376-389. “Lesbian parenthood: A review of the literature”

1997 Brewaeys A. Human Reproduction 12:1349-59

1997 Brewaeys A. J of Psychosomatic Obs and Gyn 18:1-16

1997 Patterson C. Advances in Clinical Child Psychology 19:235-282. “Children of lesbian and gay parents”

1997 Tasker F. Journal of Divorce and Remarriage 1997 28 (1-2) 183-202. “Young People’s Attitudes toward Living in a Lesbian Family: A Longitudinal Study of Children Raised by Post-Divorce Lesbian Mothers”

1996 Allen M. J of Homosexuality 32(2):19-35. “Comparing the impact of homosexual and heterosexual parents on children: Meta-analysis of existing research”

1996 Golombok S. Developmental Psychology 32 (1) p3-11. “Do Parents Influence the Sexual Orientation of Their Children? Findings from a Longitudinal Study of Lesbian Families.”

1996 Patterson C. Journal of Social Issues 52(3): 29-50. “Lesbian and gay families with children: Implications of social science research for policy”

1995 Bailey J. Developmental Psychology 31(1): 124-129. “Sexual orientation of adult sons of gay fathers.”

1995 Flaks D. Developmental Psychology 31(1): 105-114. “Lesbians choosing motherhood: A comparative study of lesbian and heterosexual parents and their children.”

1995 Fowler G. Family and Conciliation Courts Review 33(3): 361-376.”Homosexual parents: Implications for custody cases”

1995 Tasker F. Am J of Orthopsychiatry 65:203-15. “Adults Raised as Children in Lesbian Families”

1995 van-Nijnatten C. Medicine and Law 14(5-6): 359-368. “Sexual orientation of parents and Dutch family law.”

1995 Victor S. School Psychology Review 24(3): 456-479. ” Lesbian mothers and the children: A review for school psychologists.”

1994 McIntyre D. Mediation Quarterly 12(2), winter, 135-149. “Gay Parents and Child Custody: A Struggle under the Legal System”

1993 Patterson C. , Annual Progress in Child Psychiatry and Child Development 33-62 “Children of Lesbian and Gay Parents”

1992 Baggett C. Law and Psychology Review 16: 189-200. “Sexual orientation: Should it affect child custody rulings.”

1987 Kirkpatrick M. J of Homosexuality 14:201-11. “Clinical Implications of Lesbian Mother Studies”

1986 Green R. Archives of Sexual Behavior 15:167-184. “Lesbian Mothers and Their Children: A Comparison with Solo Parent Heterosexual Mothers and Their Children”

1986 Kleber D. Bulletin of the Am Acad of Psychiatry and Law 14(1):81-87. “The impact of parental homosexuality in child custody cases: A review of the literature”

1983 Golombok S. J of Child Psychology and Psychiatry 24:551-572. “Children in lesbian and single-parent households: Psychosexual and psychiatric appraisal”

1982 Green R. Bulletin of the Am Acad of Psychiatry and Law 10:7-15. “The best interests of the child with a lesbian mother”

1981 Hoeffer B. Am J of Orthopsychiatry 51:536-44. “Children’s acquisition of sex-role behavior in lesbian-mother families”

1981 Kirkpatrick M. Am J of Orthopsychiatry 51:545-551. “Lesbian mothers and their children: A comparative survey”

1981 Miller J. J of Homosexuality 7(1):49-56. “The child’s home environment for lesbian vs. heterosexual mothers: A neglected area of research”

1980 Lewis K. Social Work 25:198-203. “Children of Lesbians: Their Point of View”

Parafraseando o que escreveu Carlos Orsi no texto citado, talvez seja um pouco demais pedir que um senhor que acredita que “um biscoito se transforma em carne humana ao mesmo tempo em que continua a ser um biscoito” seja capaz de ver um pouco além de suas crenças e seus preconceitos e estude o conhecimento científico pertinente a um tema antes de dar declarações tão graves como essas.

Mas eu espero que, pelo menos, parte dos milhões de católicos que existem por aí não caiam na lábia preconceituosa do atual liíer supremo de sua igreja.

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