Alguém está realmente surpreso?

Tenho visto, ouvido e lido nas últimas semanas diversas manifestações de surpresa e espanto quanto aos problemas que vêm ocorrendo devido às chuvas, em especial no caso de Minas Gerais, estado no qual resido. E aí, eu me pergunto: qual o motivo de tanto espanto?

Claro que a quantidade elevada de água que vem caindo nas tempestades de verão (que se iniciaram ainda na primavera) ultrapassou um bocado a curva média, como não cansam de falar meteorologistas televisivos e políticos regionais e nacionais. Porém, diante do fato óbvio de que chove muito nesta época do ano, e tendo em vista o rápido crescimento, quase sempre desordenado e em boa medida irregular, de várias regiões urbanas ao longo do tempo, como ficar surpreso com os problemas que se repetem neste verão se as medidas que deveriam ser tomadas pelo poder público praticamente inexistem (ou pelo menos são quase completamente ineficientes)?

Como bem escreveu o jornalista Leonardo Sakamoto em seu blog no texto “Pena que a memória dos eleitores seca rápido”:

“Desgraça é desgraça, descaso é descaso. Desgraças acontecem, mas parte delas poderia ser prevenida, planejada, antecipada, informada, pois não são novidade. Nesses casos, o que é tragédia vira descaso”

E mais à frente em seu texto:

“Ano vem, ano vai – e é sempre a mesma coisa. Administradores públicos reclamando que não daria para fazer nada porque a chuva resolveu cair toda de uma vez, culpando La Niña, El Niño, o calendário Maia…

E se choveu mais do que deveria, não há nada que se possa fazer, correto? Bem, isso se, há muitos anos, já não fosse típico a realidade de chuvas atípicas em certas regiões do país.”

É claro que não adianta culpar somente aqueles que atualmente ocupam as prefeituras, os governos estaduais e os centros do governo federal, pois há toda uma história de descaso construída durante anos de politicagem eleitoral em que o objetivo maior de políticos é se eleger, re-eleger ou fazer seu sucessor. Nesse cenário, de que importam ações, obras, programas e estratégias que só terão visibilidade uma vez por ano? Como tomar atitudes extremamente impopulares quanto à organização do espaço urbano? Como planejar a médio e longo prazo se não há pessoal capacitado (ou motivado) para isso?

No trecho a seguir, retirado deste texto do Correio Braziliense, divulgado no site do Ministério do Planejamento, há um questionamento parecido:

“se boa parte das cidades atingidas são construídas em áreas de risco, por que não se tomam medidas capazes de prevenir o drama das chuvas? Uma das respostas é a falta de planejamento. Trata-se de traço da cultura brasileira. Governantes se sucedem, partidos deixam o poder e a ele voltam tempos depois, mas o cenário se repete com indescritível falta de criatividade. Todos parece verem a tragédia pela primeira vez, como se estivessem diante de fatalidade contra a qual nada pudessem fazer.”

E assim começaram as promessas e os planos, mas será que veremos, neste ano eleitoral, algo além de medidas paliativas e implantação de sistemas de alerta?

Retomando o texto do Sakamoto citado acima, destaco um trecho que exemplifica ações que deveriam estar no topo das prioridades políticas:

“políticas de habitação decente, saneamento, dragagem de rios, limpeza de vias, campanhas de conscientização quanto ao lixo. O fato é que ocupação irregular, planejamento, plano diretor, reforma urbana são expressões ouvidas apenas no tempo das chuvas. Na seca, evaporam do léxico não só dos mandatários, mas também de pobres e ricos, que continuam construindo, desmatando e poluindo. Suas razões são diferentes, mas o efeito é o mesmo. Vale lembrar que tudo isso dito aí em cima não gera um voto, pelo contrário: quem é o doador que vai ficar feliz por ter a construção de sua casa em uma área de preservação ambiental embargada?

Considerando que quando há um problema urbano os mais pobres são expulsos do lugar onde estavam para um lugar perto da esquina entre o ‘não me encha o saco’ com o ‘não me importa aonde’, é de se esperar também que a remoção deles de áreas de risco e de locais inundáveis também seja precedida de grandes protestos que irão reverberar nas urnas. Então, ninguém faz nada, só promete e faz cara de preocupado e de entendido. Afinal, é de palavras vazias que vive nossa política.”

Claro que não espero ver qualquer tipo de revolução nas políticas públicas tão cedo (se é que vou chegar a ver algum dia), pois as eleições no Brasil continuam sendo um grande circo onde o que menos importa na fala dos candidatos é a apresentação de programas e planejamentos efetivos de médio/longo prazo. Infelizmente, o que eu acho que acontecerá ainda nos próximos anos são reprises do que acontece neste verão, do que aconteceu ano passado e em outros anteriores. Novamente citando o texto do Sakamoto:

“continuaremos a ver as cenas de sempre: alguém será levado pela correnteza e famílias perderão tudo, sendo alojadas em ginásios de escolas públicas. Vão ganhar espaço na mídia, mas o debate vai durar só até o asfalto secar.”

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