1º de Dezembro – Dia Mundial de Luta Contra a AIDS

Aproveitando que hoje, 1º de dezembro, é conhecido como o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, resolvi trazer algumas informações sobre o panorama atual dessa doença em nosso país.

Antes, uma pequena história.

Segundo o médico infectologista Ésper Kallás, em entrevista ao também médico Drauzio Varella, estudos realizados nos Estados Unidos baseados em análises das características genéticas do vírus HIV isolado em várias regiões do mundo analisaram sequências genéticas, mapearam a evolução do vírus, e estabeleceram as modificações adquiridas e sua adaptação às diversas regiões em que foi identificado no planeta. O conhecimento atual sugere que a epidemia tenha surgido no centro da África, numa região abaixo do deserto do Saara onde o vírus, antes encontrado somente em chimpanzés, foi transmitido para os humanos através de contato ocasional entre esses animais e os homens.

Por meio de estudos e investigações cuidadosas sobre os costumes do povo que habitava a região da África na qual o vírus teria surgido, pesquisadores observaram que, em alguns lugares, as pessoas tinham o hábito de caçar chimpanzés, sendo que muitas vezes, esses animais eram mortos e esquartejados no local onde eram abatidos. Há fotos de pessoas manipulando os macacos mortos, cobertas de sangue até os ombros. Elas mexiam nas vísceras, cortavam a carne em pedaços e os levavam para serem comercializados nos mercados onde outras pessoas podiam entrar contato com o sangue do bicho. Por outro lado, é fácil imaginar que esses caçadores, andando dentro da mata ou lidando com o animal, podiam machucar-se, ferir-se e serem infectados pelo vírus dos chimpanzés. Ainda segundo o infectologista, atualmente não se discute mais que essa foi a origem do vírus em humanos, porque estudos muito convincentes estão se acumulando a favor dessa teoria.

E como está o cenário no Brasil atualmente?

A prevalência da doença (estimativa de pessoas infectadas pelo HIV) se mantém estável já há alguns anos em cerca de 0,6% da população. No caso da incidência (novos casos notificados) houve leve redução de 18.8/100 mil habitantes em 2009 para 17,9/100 mil habitantes em 2010. A taxa de incidência não tem mudado mundo ao longo do tempo, se analisarmos o histórico de 1998-2010, veremos que a incidência ficou sempre entre 17 e 20 casos notificados para cada 100.000 habitantes.

Quando consideramos o número absoluto de casos notificados (de 1980 a 2011), a maioria está concentrada na região Sudeste com 343.095 (56,4%) casos, seguido da Sul com 123.069 registros (20,2%), Nordeste 78.686 (12,9%), Centro-Oeste 35.116 (5,8%) e Norte 28.248 (4,6%). Por outro lado, há uma grande diferença na incidência (casos novos) entre as regiões para o ano de 2010, sendo que o menor valor foi encontrado na região Nordeste (12,6 por 100.000 hab.) e o maior na região Sul (28,8 por 100.000 hab.). Esse último dado merece uma exploração mais cuidadosa, pois esses dados são provenientes das bases de notificação do Ministério da Saúde, que são compiladas e informadas pelos municípios e estados. Dessa forma, há que se considerar outras variáveis como a facilidade de acesso aos serviços de saúde e, consequentemente, aos testes diagnósticos, e a confiabilidade das informações que chegam aos bancos de dados nacionais, que podem, em algumas circunstâncias, diferirem bastante do número real de pessoas com HIV/AIDS (muitos dos quais podem não estar identificados).

Embora ainda haja uma assimetria entre a quantidade total de casos notificados (período entre 1980 e junho/2011) em homens (397.662 – 65,4% do total) e mulheres (210.538 – 34,6% do total), essa diferença vem diminuindo ao longo dos anos. Em 1983, a razão era de 40 homens infectados para cada mulher, caiu para 15,3 em 1986, 6,0 em 1989, 2,1 em 1997, e ficou abaixo de 2 desde 1998, sendo que está em 1,7 considerando o ano de 2010; em números absolutos, vemos que dos 34.218 casos identificados em 2010, 21.369 pessoas eram do sexo masculino e 12.846 do feminino. Chama atenção a análise da razão de sexos em jovens de 13 a 19 anos, que é a única faixa etária em que o número de casos de AIDS é maior entre as mulheres. Essa inversão apresenta-se desde 1998.

Deve-se considerar, ainda, que no Brasil o fato de alguém ser identificado como HIV-positivo não é, per si, um fato de notificação obrigatória. Somente as situações identificadas como “casos de AIDS”, com base alguns critérios bem definidos, devem ser compulsoriamente notificados pelos serviços de saúde às autoridades da vigilância epidemiológica. Dessa forma, os números periodicamente publicados pelo Ministério da Saúde não refletem a totalidade de pessoas infectadas pelo HIV no país, pois consideram apenas os “casos de AIDS” notificados cruzados a dados do Sistema de Informação de Exames Laboratoriais e do Sistema de Informações sobre Mortalidade. Ficam de fora possíveis infectados que desconhecem sua condição. Estima-se que entre 250 mil e 300 mil brasileiros tenham o vírus sem saber.

Claro que há boas notícias. Não é segredo que o Brasil vêm já há algum tempo se consolidando como modelo de combate à AIDS, principalmente no que se refere à distribuição de medicamentos. Segundo relatório da UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS), 97% dos brasileiros diagnosticados com AIDS têm acesso garantido aos antirretrovirais (considerando o mundo todo, essa porcentagem fica em torno de 50%). O mesmo relatório apontou que o modelo brasileiro de prevenção do HIV e assistência dos portadores é um dos melhores do mundo, sobretudo no tratamento a populações mais vulneráveis. Por exemplo, entre os menores de cinco anos de idade (configurados como casos relacionados à transmissão vertical, ou seja, da mãe para o bebê durante a gravidez, o parto ou aleitamento) a taxa de incidência por 100 mil habitantes, caiu 41% de 1998 a 2010 (de 5,9 para 3,5). Outro dado interessante é a taxa de mortalidade, cuja taxa de incidência baixou de 7,6 para 6,3 a cada 100 mil pessoas em 12 anos, uma queda de 17%.

Há também alguns desafios importantes, principalmente quanto à prevenção. A Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas Relacionadas às DST e AIDS (PCAP 2008) apontou que, apesar de 97% das pessoas pesquisadas terem consciência de que a camisinha é a melhor maneira de se prevenir da AIDS e de outras DSTs, entre os jovens de 15 a 24 anos o uso da camisinha cai de 61% na primeira relação para 50% considerando os que responderam que utilizaram o preservativo em todas as relações casuais nos 12 meses anteriores à pesquisa. Esse número (uso da camisinha em todas as relações casuais em 12 meses) cai para 32% na população de 50-64 anos. Além disso, novamente considerando a população jovem, os dados apontam que, embora eles tenham elevado conhecimento sobre prevenção da AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, há tendência de crescimento da infecção pelo HIV. Note-se ainda que entre os gays jovens houve aumento de 10,1% nos casos notificados. Em 2010, para cada 16 homossexuais dessa faixa etária vivendo com AIDS, havia 10 heterossexuais. Essa relação, em 1998, era de 12 para 10.

Não há dúvidas de que as terapias antirretrovirais atualmente disponíveis aumentam muito a sobrevida e a qualidade de vida das pessoas infectadas pelo HIV, o que provavelmente tenha diminuído o impacto dessa doença no imaginário das pessoas se compararmos com a situação vivenciada na década de 80 e início dos anos 90. Citando o infectologista Ésper Kallás:

“Os mais jovens relaxam nos cuidados, porque vivem uma fase em que o tratamento alcança resultados melhores, os sintomas desaparecem e não se desenvolvem as chamadas doenças oportunistas. Alguns estudos realizados na Califórnia, Estados Unidos, evidenciaram claramente essa situação. O risco de contrair o vírus aumentou especialmente entre os mais jovens por absoluto relaxamento com a prevenção. Não acredito que, nesse aspecto, haja muita diferença entre a realidade americana e a brasileira.”

Cabe ressaltar que, apesar do sucesso das terapias atuais, ainda não sabemos quando teremos uma cura (ou se algum dia a teremos). Sabemos que o vírus HIV insere seu genoma nas células infectadas, e quando estas se reproduzem os genes virais são copiados e passados às células filhas, perpetuando, dessa forma, a persistência do vírus pelo tempo em que a célula e as progênie sobreviverem. Devemos lembrar que o nosso sistema imunológico tem dificuldade de erradicar as células infectadas exatamente porque os vírus infectam elementos do próprio sistema. Embora os coquetéis de drogas atuais coíbam a replicação do HIV e limitem a sua disseminação, o que em teoria deveria garantir que partes saudáveis do sistema imunológico expulsassem as células infectadas, estas acabam passando despercebidas, uma vez que não produzem novas partículas virais que seriam identificadas. Estimativas baseadas no tempo de vida de um tipo de célula imunológica normalmente infectada pelo HIV (células T de memória) sugerem que levaria mais de 50 anos para que todo estoque de células infectadas com o HIV latente morra naturalmente.

Pesquisas recentes indicam que outros elementos do sistema imunológico, como macrófagos e células dendríticas, são também infectadas pelo HIV e contribuem para o reaparecimento do vírus quando este adquire resistência aos medicamentos ou quando a terapia é interrompida. Mesmo quando o nível de infecção é tão baixo que os vírus não atingem o sangue para serem identificados, a quantidade nessas células é suficiente para que os linfócitos T de memória sejam atingidos, mantendo a infecção, ainda que dormente. Outro problema se refere a refúgios do HIV no organismo, por exemplo, o sistema nervoso central (SNC). Os macrófagos infectados podem ultrapassar a barreira sangue-cérebro e promover a infecção de outros macrófagos especializados que residem permanentemente no SNC, chamados micróglia, entretanto, parte das drogas utilizadas nas terapias não é capaz de atravessar eficientemente essa barreira sangue-cérebro, o que faz com que o SNC seja um refúgio anatômico para o HIV. Ainda não se sabe com certeza se células cerebrais infectadas podem enviar o vírus para outras regiões do corpo, porém se macrófagos podem cruzar a barreira sangue-cérebro em direção ao SNC, supõe-se que o caminho de volta também seja possível. Alguns outros locais que parecem dificultar a penetração de algumas drogas das terapias utilizadas incluem as paredes do trato gastrointestinal e do trato genital, sendo inclusive freqüente encontrar o HIV no sêmen de pessoas cujo sangue parece livre dos vírus.

Adicione a isso a capacidade do vírus HIV em sofrer mutações e podemos ter uma idéia do desafio que ainda temos pela frente.

Por fim, uma curiosidade. Ainda não se sabe por que, mas há um subgrupo de mulheres prostitutas (um pequeno percentual, é verdade) em algumas localidades no centro da África que possuem uma atividade sexual tão intensa, sem proteção e com múltiplos parceiros, que seria impossível imaginar que não pegassem o vírus, todavia esse subgrupo não foi contaminado. Essas mulheres têm alguma coisa especial, embora não se saiba o que é. Algo semelhante ocorre em certos casais em que um dos membros é soropositivo sem que o outro saiba. Eles mantêm relações sexuais sem proteção durante anos e o vírus não é transmitido. Da mesma forma, não se sabe bem o porquê disso. Seria uma constituição genética especial? Um desenvolvimento de uma resposta imunológica mais eficaz? Certamente quem encontrar uma resposta convincente para esses enigmas estará contribuindo para que se descubram uma vacina contra o HIV e a cura da AIDS.

Cartaz polêmico divulgado na Espanha por ocasião da campanha do ano de 2010

Para fechar o texto, um recado. Seja inteligente. Use camisinha. Ensine seus filhos e/ou suas filhas a utilizarem a camisinha. Converse com seus amigos e amigas. Troquem informações, tirem dúvidas. E, principalmente, ignore posições dogmáticas de certos líderes religiosos. Como disse Pedro Charque, chefe da UNAIDS no Brasil, ao ser questionado sobre a pregação religiosa pela abstinência sexual para prevenir a AIDS: “Não é ético assumir posições filosóficas e moralistas que não contribuem para a redução da epidemia”.

E se decidir não usar preservativo, lembre-se que, dependendo da situação, sua decisão não é muito diferente de brincar de roleta russa com um revolver carregado com uma bala no tambor. Apontado para a sua cabeça ou para cabeça do(a) parceiro(a).

FONTES:

http://www.AIDS.gov.br/noticia/2011/sus_oferece_tratamento_97_dos_brasileiros_diagnosticados_com_AIDS

http://www.AIDS.gov.br/noticia/2011/sus_mantem_epidemia_de_AIDS_estabilizada_no_brasil

http://www.AIDS.gov.br/sites/default/files/anexos/noticia/2011/50650/briefing_boletim_25112011_pdf_29679.pdf

http://www.AIDS.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2011/50652/vers_o_preliminar_69324.pdf

http://www.AIDS.gov.br/pagina/AIDS-no-brasil

http://www.unAIDS.org.br/

http://www.AIDS.gov.br/publicacao/pcap-2008

http://www.AIDS.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2009/40352/pcap_2008_f_pdf_13227.pdf

http://drauziovarella.com.br/sexualidade/boas-e-mas-notivias-sobre-o-combate-ao-hiv/

http://www.salves.com.br/virtua/AIDSvigilepid.htm

http://www.AIDS.gov.br/node/365

Stevenson, Mario. Afinal, a AIDS tem cura? Scientific American Brasil – Edição Especial nº 43.

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1009630-brasil-vai-mudar-estrategia-de-campanha-contra-aids-diz-ministro.shtml

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s