Opinião ou apologia?

Neste início de mês me deparei com uma situação sobre a qual resolvi pensar muito antes de escrever.

Trata-se de reclamações em alguns sites ateus sobre o conteúdo de uma música chamada “Não tem que ser assim” (letra da música no link) de uma banda gospel chamada “Metal Nobre“.

Antes de mais nada, quero dizer que não tenho nenhum tipo de simpatia por bandas do tipo gospel, independentemente do estilo musical de cada uma. Simplesmente não me atraem, mesmo que seja a guitarra mais bem elaborada, a bateria mais forte e o baixo mais ritmado. Isso posto, sigamos.

Sites como o Ateus atentos e o Ateus do Brasil divulgaram o caso de uma forma, a meu ver, equivocada. O Ateus atentos utiliza como título do post a seguinte frase: “Música evangélica pede: chute seu namorado ateu“; enquanto do Ateus do Brasil noticia da seguinte forma: “Música da banda Metal Nobre incita o rompimento de namoros entre cristãos e ateus“. Há também um vídeo que segue a mesma linha. (Ao ver essas manifestações, acabei concordando com alguns argumentos deste texto do Ceticismo.net)

Discordo completamente dos dois títulos e do vídeo. No texto (igual nos dois sites), a situação não é diferente. Está escrito: “O que você, ateu, faria se descobrisse que a pessoa que você ama é cristã, judia, ou tem outra religião qualquer? Terminaria imediatamente o relacionamento e ainda recomendaria a mesma atitude a todos que se encontram na mesma situação? Na situação inversa, é exatamente isso que fariam os integrantes da banda gospel Metal Nobre. Confira a letra da música Não tem que ser assim“.

Não vou discorrer sobre manifestações posteriores da banda ou daqueles que protestaram contra a música. Vou me ater à percepção que algumas pessoas (no caso essas que citei) tiveram da letra.

Meu posicionamento é o seguinte: Opinião, posicionamento, divulgação de atitudes não é incitação ou apologia a um determinado comportamento. A letra da música não incita a nada e não faz apologia ao término de namoros. O que a letra (péssima por sinal) diz é que o “eu-lírico” resolveu terminar um relacionamento porque seu par abandonou a crença. A letra não diz “chute (você) o seu namorado ateu”, ela diz “eu chutei o meu namorado ateu”. Só isso.

É uma atitude babaca? Talvez sim, talvez não. Fiquei imaginando se eu estivesse em um relacionamento e a pessoa se convertesse e passasse a ser, por exemplo, Testemunha de Jeová ou Adventista do Sétimo Dia. Não sei se conseguiria seguir com tal relacionamento.

E você, meu leitor ateu, conseguiria manter um namoro com uma pessoa de uma dessas duas religiões, por exemplo? Algumas das restrições impostas por tais sistemas de crença não acabariam por quase impossibilitar uma convivência saudável? Pense nisso…

Especificamente sobre a suposta incitação ou apologia à intolerância, eu realmente acho que tal música não tem nada disso. Ora, os caras cantarem que eles fariam (ou fazem, ou já fizeram) não quer dizer que eles estejam dizendo que outras pessoas devem seguir o mesmo caminho.

Que tal uma analogia?

Quem se lembra da banda Planet Hemp? Eles chegaram a ser presos, supostamente por apologia ou estímulo ao uso de drogas no conteúdo de suas músicas.

Tremenda babaquice!

Ora, as músicas do Planet Hemp não falavam “vamos fumar maconha galera!”… o que microfone potente do Marcelo D2 defendia era a legalização da Cannabis sativa, e em várias músicas ele fala “eu fumo maconha, nós da banda fumamos maconha“. Ou seja, eles explicitavam sua opinião a favor da legalização da maconha e diziam que eles fumavam. Só. Onde está a apologia ou o estímulo aí? Emitir opinião é, necessariamente, incitar a algum comportamento? (Tal raciocínio também serve para, por exemplo, as Marchas da Maconha que acontecem Brasil afora).

Por fim, reforço meu recado: Opinião NÃO é, em todo e qualquer caso, apologia ou incitação a algo.

9 Respostas para “Opinião ou apologia?

  1. Muito bem Alex! Também não vi nenhum problema com a letra. Se é de bom gosto ou não, se é bem escrita ou não, é outra história. Mas não podemos censurar tudo quanto é opinião contrária ou simples expressão de ideias. A banda está no seu canto sem fazer mal algum a ninguém

  2. Pois é, Eduardo.

    O que mais me incomodou foi a alegação, a meu ver falaciosa, de que a banda “incita” a discriminação, ou “manda” os(as) crentes terminarem o namoro com um(a) ateísta… Nada a ver.

    Os caras simplesmente cantam o que eles fariam (ou talvez já fizeram, não importa) em um caso desses e só.

    A meu ver a analogia que fiz com o caso Planet Hemp reflete bem.

    Abraço.

  3. oi, alex.

    eu achei muito interessante o seu ponto e tendo a concordar com vc até.

    porém, eu acho q a questão do “opinião x apologia” não deve se limitar ao significado do dicionario unicamente ou mesmo a analises contextuais (o “eu-lirico chutaria o namorado ateu ou fumaria maconha).

    veja, ideias e conceitos estão embutidos nisso. quando um artista faz uma obra ele tem uma intenção, está pensando num publico a ser atingido. não se trata simplesmente de “expressar sentimentos”. é muito mais. desse ponto de vista, a letra da musica de fato carrega um certo preconceito.

    o grande problema foi fornecer publicidade para uma banda de segunda, desconhecida, que faz um sucesso restrito dentro de um meio (ainda) tambem restrito.

    quem é ‘metal nobre’ na ordem da dia? duvido muito q qualquer dos integrantes, até mesmo os ditos fãs da banda saibam explicar o que é um metal nobre.

    acho que nós, ateus na ciber militancia, lidando com memes e ideias, temos que ter um pouco mais de criterio mesmo quando formos criticar condutas.

  4. rayssa,

    não nego que um fã da banda, por exemplo, ouviria a música e levasse a letra como uma espécie de conselho… acho até bem provável…

    porém, acho que seria um tipo de “apologia de 2ª mão”, posto que é bem diferente de dizer: “você, meu caro cristão, se livra desse namorado ateu”…

    a crítica à música não me incomoda. O que me incomodou foi o tom sensacionalista (assim me pareceu, pelo menos) na divulgação dos sites citados lá no post.

    Não há incitação a nada. Simplesmente não há. Se algum fã concordar com a letra da música, direito dele…

    e tb não acho que seja, necessariamente preconceito… acho que é mais um tipo de “pós-conceito”… uma pessoa tão devotada a “louvar a deus” e seguir seu caminho, está somente estipulando como pré-requisitos de um relacionamento que o outro tenha a mesma conduta. não vejo nada de muito errado nisso.

    e essa parte do seu comentário tá perfeita:
    “o grande problema foi fornecer publicidade para uma banda de segunda, desconhecida, que faz um sucesso restrito dentro de um meio (ainda) tambem restrito.”

    beijo!

  5. Você com uma ótica crítica pode até encontrar pontos que indiquem que essa letra hora nenhuma é uma incitação, mas vai entrar na cabeça dos crentes pra ver, é uma incitação e ofensa sim, uma pregação aberta

  6. “e tb não acho que seja, necessariamente preconceito… acho que é mais um tipo de “pós-conceito”… uma pessoa tão devotada a “louvar a deus” e seguir seu caminho, está somente estipulando como pré-requisitos de um relacionamento que o outro tenha a mesma conduta. não vejo nada de muito errado nisso.” TEM GENTE QUE NÃO LÊ O QUE ESCREVE, SÓ PODE SER ISSO !!!

  7. Oi werner,

    concordo que a letra da úsica seja uma pregração, afinal, não é pra isso que serevem as músicas gospel? Apenas pra pregar toda aquela baboseira de deus, cristo, amor celestial, blablabla? Então, óbvio que seja uma pregação, e não vejo nada de errado nisso, posto que é exatamente a isso que esse tipo de banda se propõe. Ouve quem quer.

    Continuo suportanto que a letra apenas indica a opinião do autor sobre o que ele faria (ou já fez alguma vez na vida) caso namorasse um ateu. E realmente não vejo problema nisso. Não há ofensa nenhuma aí. Eu mesmo não conseguiria levar adiante um relacionamento com uma mórmom ou uma seguidora da cientologia ou uma testemunha de jeová, e caso eu fosse compositor, me acharia no completo direito de fazer uma música sobre isso, por que não?

    Não entendi bem a sua observação em seu último comentário, o qual destaca parte do meu comentário anterior.

    Se puder deixar mais claro o que vc pensa, talvez seja possível debatermos produtivamente.

  8. Tava procurando saber sobre a música e procurando informações acabei aqui no seu post. Gostei da posição e achei bem equilibrado, parabéns.

    Sou crente e acho que os ateístas que ficaram muito ofendidos com essa música, parecem ser ou pessoas carentes ou então adeptos de um tipo de militância extremista que enxerga perseguição em tudo.

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