O SUS na visão da população

Não há como negar os inúmeros problemas existentes no nosso sistema público de saúde. Hospitais precários, falta de profissionais em algumas regiões, baixa qualificação e remuneração dos trabalhadores da saúde, filas absurdas, demora no atendimento e na marcação de especialidades, imensas áreas sem cobertura, e por aí vai.

Não obstante, nem tudo é um absoluto inferno, e há locais em que a assistência é prestada de forma exemplar, moderna e bem gerenciada, embora não sejam esses casos os que vão parar na mídia. Por exemplo, pouco se fala que temos um dos maiores programas de imunização pública do mundo, e não preciso me alongar demais aqui sobre os óbvios benefícios da vacinação em massa de crianças e quantas vidas são salvas com esse tipo de medida preventiva tão simples.

Ma so objetivo específico deste texto é apresentar, de forma resumida, os resultados do mais recente estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o assunto, chamado Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS).

É importante salientar que o SIPS não tem como foco a análise abrangente e profunda da efetividade do acesso aos serviços no SUS, e se este é ou não oportuno ou resolutivo; tampouco pretendeu avaliar diretamente a qualidade dos serviços. Em suma, o estudo não deriva de uma avaliação técnica do Ipea, mas sim da percepção dos entrevistados em relação ao SUS.

Segundo informações do Ipea, os dados foram coletados no período de 3 a 19 de novembro de 2010, por meio de questionário aplicado a uma amostra 2.773 pessoas residentes em domicílios particulares permanentes em todas as unidades da federação. Foi considerada a distribuição dos domicílios em cotas para Brasil e regiões, e as variáveis de controle validadas posteriormente foram: sexo, faixa etária, faixas de renda e escolaridade.

De acordo com a pesquisa, 28,9% dos entrevistados avaliaram os serviços públicos de saúde prestados pelo SUS como sendo muito bons ou bons. Proporção semelhante dos entrevistados (28,5%) opinou que esses serviços são ruins ou muito ruins, enquanto 42,6% os consideraram regulares.

Todavia, o dado que considero mais interessante nessa pesquisa foi a diferença de avaliação entre usuários e não usuários do SUS. Entre as pessoas que utilizaram algum serviço público de saúde nos 12 meses anteriores à pesquisa, 30,4% o avaliaram como muito bons ou bons. Por outro lado, no grupo que não utilizou a rede do SUS, essa avaliação (muito bom ou bom) cai para 19,2%.

Essa diferença entre os dois grupos cai no caso da avaliação como muito ruim ou ruim. Daqueles que utilizaram o SUS, 27,6% qualificaram-no negativamente, enquanto no outro grupo esse número chega a 34,3%.

A avaliação regular não foi muito discrepante entre os dois grupos, sendo 42% para os usuários do SUS e 46,5% para o outro grupo.

Quando a pesquisa é detalhada para a avaliação do tipo de serviço utilizado, temos que o melhor resultado (80,7% de muito bom/bom) vai para o atendimento das Equipes de Saúde da Família, o que é uma vitória, uma vez que esta estratégia de reorganização da atenção à saúde é o eixo prioritário da assistência nos principais modelos de sistemas de saúde universais, pois pretende levar à parcela da população que depende do SUS os conceitos e as práticas de promoção da saúde e prevenção de doenças, comprovadamente mais econômicos e eficientes do que a atenção puramente curativa e reparadora.

Logo depois vêm a distribuição de medicamentos, com 69,6% de avaliações positivas, e as especialidades médicas, com 60,6% de muito bom/bom.

Os entrevistados também foram perguntados sobre quais seriam, na visão deles, os principais problemas do SUS. Os mais citados foram a falta de médicos (58,1%), a demora para atendimento nos postos/centros de saúde ou nos hospitais (35,4%) e a demora para conseguir uma consulta com especialistas (33,8%). Nesses casos, não houve diferença significativa entre as respostas do grupo que utilizou o SUS e do outro grupo.

Também sem muitas diferenças entre os dois grupos, os principais pontos positivos do SUS apontados pelos entrevistados foram o acesso gratuito aos serviços de saúde prestados pelo sistema (52,7%), o atendimento universal (48,0%) e a distribuição gratuita de medicamentos (32,8%).

O que me chamou a atenção nessa pesquisa foi a discrepância entre os resultados e o que vemos constantemente na TV, nos jornais e nas revistas. Óbvio que há problemas, muitos deles extremamente sérios, e geralmente o que a mídia nos apresenta não é nenhum exagero, muito pelo contrário, ver pessoas amontoadas nos corredores de hospitais nem se compara à experiência de realmente passar por isso. Todavia, infelizmente, as boas iniciativas e os bons exemplos quase nunca são divulgados, a não ser por publicidade governamental (nos três níveis de governos, e muitas vezes com certa maquiagem).

Em minhas andanças pelo interior de Minas Gerais como auditor do SUS, já pude visitar unidades de saúde nas quais eu não teria coragem nem de ir ao banheiro ou de lavar a mão em uma pia, e locais que não deixam absolutamente nada a desejar a qualquer clínica ou hospital particular de ponta. Já pude ouvir usuários reclamando, com razão, da baixa qualidade do atendimento, e em outros lugares ter acesso a todo tipo de elogio. Presenciar a precariedade das condições de trabalho para os profissionais de saúde, e por outro lado ver que é possível garantir ótimas condições com iniciativas simples e boa vontade política.

O SUS está em construção a pouco mais de 20 anos, muito já se avançou desde a Constituição Federal de 1988 e a Lei nº 8.080 de 1990, que são os primeiros alicerces desse sistema, porém ainda resta um enorme caminho pela frente, para que tenhamos um sistema público universal de saúde comparável em qualidade aos sistemas do Canadá, da França ou da Inglaterra, por exemplo.

O desafio é colossal, se considerarmos o último dado do IBGE, 26,3% da população brasileira possui planos de saúde, e que uma parcela ínfima da população recorre unicamente ao atendimento particular, podemos estimar que por volta de 140 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do SUS. Some-se a isso o sub-financiamento do setor (seja por desvios de verbas, nada incomuns, seja por escassez de recursos exclusivos), temos um vislumbre da tarefa hercúlea de garantir o atendimento pleno dos princípios do sistema.

E jamais esqueçamos que somos todos, em certa escala, dependentes desse sistema público de saúde.

Afinal, só para ficar em um exemplo bem simples, qualquer pessoa que sofrer um acidente de carro (seja na cidade, seja na estrada) irá parar primeiramente em algum grande hospital público de pronto-socorro; possíveis transferências para hospitais particulares só são realizadas depois, mediante pedido do paciente ou da família (que nem sempre estão disponíveis para tal solicitação em uma situação de urgência/emergência).

E na defesa deste que é considerado um dos maiores sistemas públicos universais de saúde, deveriam ter lugar não só as críticas, mas também os elogios.

Uma resposta para “O SUS na visão da população

  1. eu amo o sus nunca me deixou na mão

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