Ciência, fé e as três origens

Autor: Marcelo Gleiser

Fonte: Folha de São Paulo

Via: Luis Nassif Online

Uma excelente ilustração da intersecção entre a ciência e a religião ocorre quando refletimos sobre o que chamo de “as três origens”: a do Universo, a da vida e a da mente.

Por milênios, mitos de criação de todas as partes do mundo vêm tecendo explicações para esses três grandes mistérios. No meu livro “A dança do Universo” (Ed. Companhia das Letras, 2006), explorei alguns dos temas míticos que reaparecem na ciência, em particular na cosmologia, no estudo do Universo.

Precisamos conhecer nossas origens. E, desde os primórdios, olhamos para os céus em busca de respostas. Hoje, sabemos que somos aglomerados de poeira estelar dotados de consciência. Para desvendar nossa misteriosa origem, precisamos saber de onde vieram as estrelas, como a matéria não viva se transformou em matéria viva e como essa virou matéria pensante.

Mitos de criação atribuem as três origens a forças sobrenaturais, capazes de realizar feitos que nos parecem impossíveis. Grande parte do conflito entre a religião e a ciência se deve à tensão entre esses dois modos antagônicos de explicação.

Qualquer entidade que, por definição, existe além das leis naturais está além da esfera da ciência.

Será que as três origens podem ser explicadas pela ciência, sem a interferência de entidades sobrenaturais? Em caso afirmativo, religiões baseadas em entidades que existem além das leis naturais teriam que sofrer revisões profundas.

Isso não significa que, caso a ciência venha a entender as três origens, não teremos mais uma conexão espiritual com a natureza. Pelo contrário, a compreensão dos fenômenos naturais, dos mais simples aos mais profundos, deveria apenas fortalecer nossa espiritualidade. A racionalidade e a espiritualidade são aspectos complementares.

Religiosos ou não, poucos resistem ao fascínio da criação. As perguntas que fazemos hoje foram já feitas há milênios de anos na savana africana, nas pirâmides do Egito, nas colinas do monte Olimpo e na selva amazônica. O que mudou foi a natureza da explicação.

A cosmologia nos mostra que o Universo surgiu há 13,7 bilhões de anos. Podemos reconstruir sua história a partir de um segundo após a criação – um grande feito do intelecto humano. Mas ainda não podemos ir até a origem.

Podemos afirmar que todos os seres vivos na Terra, presentes e extintos, dividem um ancestral em comum, um ser unicelular que viveu em torno de 3,5 bilhões de anos atrás. Mas não entendemos a origem da vida em si e nem sabemos se a questão pode ser respondida de forma definitiva: talvez existam várias origens da vida.

Entendemos menos ainda o cérebro, esse fantástico aglomerado de cerca de 100 bilhões de neurônios que define quem somos. Porém, através da ressonância magnética, detectamos as atividades de grupos de neurônios que trabalham como numa orquestra sem maestro.

Se podemos ou não entender as três origens através da ciência é matéria para futuros ensaios. Precisamos destrinchar as questões relacionadas com a natureza e com os limites do conhecimento.

São as questões não respondidas que servem de motivação para os cientistas. O destino final importa menos do que o que aprendemos no meio do caminho.


3 Respostas para “Ciência, fé e as três origens

  1. Desculpe pelo comentário off-topic Alex.

    Fui eu quem comentou no blog da Lola sobre o “saquinho gestacional” ja ter um coração.

    Como eu disse lá, sou totalmente a favor da mulher ter a opção de tomar essa decisão.

    Mas ao mesmo tempo sou totalmente contra a decisão de se abortar num caso como esse. Me explicando:
    Sim, eu entendo que com essa idade não temos 1 ser humano no útero.
    Mas eu sempre lembro do Dawkins comentando o quanto somos sortudos em nascer no começo do livro “Desvendando o arco-íris”. Não acho correto alguém tirar a oportunidade de um potencial ser humano de vir a nascer.
    Sim, existem “N” fatores externos: eu não tenho condições, não quero ter filhos, não isso, não aquilo…
    Sendo tão individualista quanto a mulher nesse caso, porque sim, pra mim ela só esta pensando em si mesma, eu não concordo com essa decisão.

    Não sou religioso, por isso não defendo a questão de alma, blablabla… anencéfalos não são seres humanos e pronto.

    Porque eu penso que a mulher é individualista nessa decisão? Não quer/pode ter o filho? Doe a uma instituição de adoção. Quantos casais que não podem ter filhos não querem adotar um bebe?
    “Vai atrapalhar a minha carreira”, “vai acabar com o meu corpo”… novamente, me desculpe, mas eu não posso concordar com se tirar a CHANCE de uma pessoa vir a nascer simplesmente pela sua satisfação pessoal.

    Mais uma vez, desculpe pelo off-topic. Espero que a minha posição tenha ficado mais clara.

    Att.

    Guilherme
    PS: Aproveitando pra deixar um parabéns pelas contribuições no BuleVoador, um blog que acesso diariamente e que gosto muito.

  2. Olá Guilherme.

    Apesar de o comentário ser completamente off topic, vou fazer algumas considerações para não deixá-lo sem resposta.

    Talvez sua posição tenha ficado mais clara pra mim. Como vc mesmo disse, sou totalmente a favor da mulher ter a opção de tomar essa decisão, portanto, concordando ou não com a atitude, vc parece admitir que a palavra final quem dá é a mulher.

    Pelo o que entendi do seu comentário, o que eu posso dizer pra vc é o seguinte: diante das suas opiniões, se algum dia vc estiver diante de uma situação como uma gravidez indesejada (seja como ator, seja como “conselheiro”), não proponha o aborto. E só. Porém, deixe a mulher livre para decidir por si mesma.

    Não podemos desconsiderar o que é uma gravidez, em si. Entregar um recém-nascido de uma gravidez não planejada para a adoção pode parecer um forte argumento contra o direito de abortar, mas não podemos esquecer que os 9 meses que essa mulher terá pela frente não são nenhum passeio no parque. E nós, como homens, só podemos tentar imaginar ( e provavelmente falharemos miseravelmente) o que é passar por isso.
    Individualismo? Pode ser. Mas quem somos nós, homens, para determinar que uma mulher não pode ser individualista, sendo que o que está na balança é algo que vai acontecer dentro do seu próprio corpo?

    Sobre a questão do sorte de termos nascido… Concordo completamente com sua citação de Dawkins, dada a quantidade de eventos que foram necessários para que cada um de nós exista exatamente como nascemos, realmente somos absurdamente sortudos (inclusive se considerarmos a própria fragilidade natural da gravidez humana, taxa de fertilidade não muito alta, abortos espontâneos, anencefalia, etc).

    Porém, utilizar a questão do “potencial ser humano” não me parece um argumento válido, pois estaríamos, por assim dizer, colocando os supostos direitos de um “potencial ser humano” (que inclusive pode sofrer de problemas como os citados anteriormente) acima dos direitos individuais (e individualistas? talvez…) de um ser humano completamente formado, como toda uma história, todo um arcabouço mental, toda uma rede de sentimentos.

    Valeu pela visita e pelo elogio🙂

  3. Alex, obrigado pela resposta!

    Sim, voce entendeu. Eu sou, como ja disse, totalmente a favor da legalização do aborto, de a mulher ter o direito de decidir sobre o que fazer com o próprio corpo.

    E não, eu não quis usar a minha opiniao sobre o assunto como um argumento para defender que o aborto não seja legalizado, é somente a minha opinião.😉

    Mais uma vez obrigado por me dar espaço mesmo sendo off-topic, futuros comentários serão somente sobre o devido artigo.

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