Considerações sobre um tipo de preconceito

Autor: Alex Rodrigues

 

Considero todo tipo de preconceito e/ou discriminação como perverso e danoso.

Resolvi falar hoje sobre um tipo de preconceito sobre o qual não costumamos discutir muito. Decidi a trazer o tema ao debate, pois tenho me tornado cada vez mais averso a qualquer tipo de preconceito ou discriminação.

Imagine que alguém lhe diga uma das duas sentenças abaixo:

“Tenho que voltar pra casa rápido. cheio de coisa pra mim fazer lá.”

“Peguei só um pouco de chuva. Minha camisa ficou meia molhada.”

Algo doeu aí no seu ouvido?

Imagino que a contração “pra” e a abreviação “tá” já estão tão disseminadas que nem são mais consideradas como errados na língua falada, o que faz com que seja normal ouvirmos e falarmos isso a todo tempo.

Todavia, sobre os outros dois destaques em itálico, suponho que alguns de vocês tenham se incomodado. Confesso que até um tempo atrás, esse tipo de coisa me incomodava um pouco. Afinal, a maioria de nós sabe que “mim” é um pronome oblíquo e não pode ser sujeito de uma oração. E que o advérbio, palavra que na construção acima modifica um adjetivo, geralmente (já volto nesse “geralmente”) é invariável e, portanto a expressão “correta” seria “camisa meio molhada”.

Embora eu tenha contato com esses “erros” no meu meio social (pessoas graduadas e pós-graduadas, em sua maioria), imagino (e acho que muitos concordam) que são expressões mais constantes vindas de pessoas com menos anos de estudo formal.

E já ouvi muitos comentários do tipo: “Como as pessoas falam errado”.

O que me levou a fazer a seguinte pergunta: O quanto de preconceito e discriminação há na forma como “julgamos” o modo de falar das pessoas? Na língua falada, cujo principal objetivo é a comunicação, há que se falar em “certo” ou “errado” como conceitos rígidos?

Essa pergunta me levou ao livro de Marcos Bagno, “Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz”.

Para ilustrar, convido-os para uma reflexão.

Já reparou como há certa tendência em algumas camadas menos estudadas da sociedade a trocar a letra “L” pelo “R”? Quem aqui nunca ouviu alguém dizer “chicrete”, “praca”, “pranta”, e não ver nada de errado nisso? (Só para ficar bem claro, não estou me referindo àquelas pessoas que têm problemas de dicção com os encontros cosonantais com o “L”, estas estão no domínio da fonoaudiologia, refiro-me neste texto tão somente aos que aprenderam a falar assim no meio social em que vivem).

Minha pergunta é: isso é realmente “errado”? Ou será que não cabe um rígido julgamento certo/errado?

Que tal uma análise menos superficial e, por que não dizer, científica?

Marcos Bagno em seu livro citado acima nos informa que diversas palavras já passaram por modificação parecida na construção do idioma português. Quer exemplos?

As palavras “brando”, “cravo” e “dobro” são derivadas dos seguintes vocábulos latinos: “blandu”, “clavu” e “duplu”. Então? Será que realmente devemos considerar ignorantes as pessoas que falam “chicrete” ou “pranta”?

Deveríamos considerar ignorante o grande Luís de Camões, que em sua magnífica obra “Os Lusíadas”, escreveu “ingrês”, “pubricar”, “pranta”, “frauta”, “frecha”?

 

Bagno argumenta, e eu concordo com ele, que esses casos não se tratam de questões lingüísticas, mas sim de questões socioeconômicas e políticas. Segundo o autor, “as pessoas que dizem craudia, praça, pranta pertencem a uma classe social desprestigiada, marginalizada, que não têm acesso à educação formal e aos bens culturais da elite, e por isso a língua que elas falam sofre o mesmo preconceito que pesa sobre elas mesmas”.

Entretanto, considerando a análise acima, o fenômeno que ocorre nesse “português não-padrão” não é linguisticamente diferente do que ocorreu na história do “português padrão”. Portanto, e aqui cito novamente o texto de Bagno, “o problema não está naquilo que se fala, mas em quem fala o quê. Neste caso, o preconceito lingüístico é decorrência de um preconceito social”. E como todo preconceito, ele é danoso, perverso e deveria ser sempre evitado.

Há até mesmo o preconceito regional, a meu ver, diretamente relacionado ao preconceito social.

Já vi conhecidos meus rindo da forma de falar certas palavras em algumas regiões do Nordeste, e encontrei o exemplo perfeito no livro citado.

Não sei em quais regiões do nordeste isso ocorre, mas meus avós oriundos da Paraíba constumavam pronunciar a palavra “OITO” com um chiado após a letra “T”, como na palavra “TCHECO”, algo como “OITCHO”.

Meus primos achavam engraçado. Meus pais e meus tios também. Até eu achava!

Hoje eu perguntaria: O que tem de engraçado?

Afinal, como cariocas, mineiros, capixabas, paranaenses pronunciam a palavra “TITIO”? Falam “T-I-T-I-O”, usando o som do “tê”? Ou, assim como eu, utilizam o mesmo som do “TCHECO” e falam “TCHITCHIO”?

Então, qual a real diferença entre as duas situações? O problema é realmente aquilo que se fala, ou quem fala?

Vejam bem, não estou aqui defendendo a bagunça gramatical e a anarquia linguística. Obviamente, há situações em que é desejável o cumprimento de regras formais, em especial na produção de textos escritos (jornais/revistas/sites/livros), embora mesmo nestes, pequenas variações se acumulam com o tempo e se tornam aceitáveis.

Contudo, acho realmente que no que concerne a língua falada, a comunicação oral, temos de ter em mente que esta é influenciada diretamente por aspectos socioeconômicos, regionais e culturais, que ela é mutável, que se modifica com o tempo, e o que considero o mais importante: o falante deve se fazer entender ao seu interlocutor, algo não muito difícil de acontecer caso haja uma dose razoável de boa vontade livre de quaisquer preconceitos. E em minha opinião, isso vale tanto para o gari e o bóia-fria quanto para o presidente de um país.

Para não me estender muito, recomendo a leitura do livro de Marcos Bagno, disponível no link acima, em especial o item “Mito nº 4 – As pessoas sem instrução falam tudo errado”, de onde tirei as informações para este post. Deem atenção a uma pequena análise (começa na página 45) de como a mídia retrata a fala nordestina (e aqui ele dá um belo puxão de orelha nas novelas de Rede Globo). Pra deixar um gostinho, cito palavras do autor: “No plano lingüístico, atores não-nordestinos expressam-se num arremedo de língua que não é falada em nenhum lugar do Brasil, muito menos no Nordeste. Costumo dizer que deve ser a língua do Nordeste de Marte!”.

Por fim, caro leitor duas reflexões aos cultos visitantes deste blog, que nos leva a questionar se falamos tão “corretamente” como achamos.

Repare como você e os que estão a seu redor geralmente tratam o futuro do subjuntivo do verbo “VER”. Qual a construção mais comum de se ouvir? “Quando eu ver aquele filme” ou “Quando em vir aquele filme”? Qual você realmente usa?

E toda vez em que você se sentir incomodado com o advérbio “meio” se flexionando para acompanhar um adjetivo feminino, como no caso da “camisa meia molhada”, imagine que você tenha tomado muita chuva e vá descrever o estado da sua camisa, pergunto: você dirá que sua camisa está “todo molhada” ou “toda molhada”?

Caso levemos em consideração a definição de advérbio, deveríamos sempre usar “camisa todo molhada”. Porém, se você procurar nos dicionários verá que estes já aceitam a flexão para “toda”, a fim de concordar com o adjetivo. Pergunto: qual a diferença entre os advérbios “todo” e “meio”? Por que um pode flexionar e o outro não? Será que há algo racional nessa aceitação? Ou será que tem a ver com a parcela da sociedade que já aceita um, mas não o outro?

Pois é. A língua muda. Tanto a falada como a escrita. Mas como toda evolução, geralmente, nós não a vemos acontecer.

Quase sempre somos atropelados por ela.

 

4 Respostas para “Considerações sobre um tipo de preconceito

  1. Certa vez assisti no Jô uma professora defendendo a ideia de que é mais importante nos entendermos quando falamos, do que falar corretamente.

    Com um chops e dois pastel, sempre de bem com a vida.

  2. Concordo, Milton.

    Imagina se todo mundo falasse como os advogados, promotores e juízes costumam falar em audiências???

    Aí sim, que ninguém entenderia nada!!!

  3. Pingback: Tweets that mention Considerações sobre um tipo de preconceito « No Lado Escuro da Lua -- Topsy.com

  4. Além de falar errado Pranta em vez de Planta , Prano em vez de Plano , etc..e.tc.. eu ainda não sei onde coloco as virgulas , os acentos , e sempre termino minhas frases com ….. , hehehe….

    Bom , só por ai vcs percebem que estou na categoria dos menos privilegiados da população , afinal não recebi a correção no tempo certo…………

    Mais vejam:
    Eu ainda quero aprender a falar Planta , Quero Plantar novas amizades por esse mundo , como sou corretor de imóveis , quero vender milhoes de plantas de novos empreendimentos em lançamentos imobiliarios de minha cidade, de minha região,etc…

    Estou aqui para aplender …..hehehehe

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