Eu tb me sinto discriminado!

Autora: Suzana Herculano-Houzel

Fonte: A neurocientista de plantão

Introdução: Alex Rodrigues

Eis um texto que eu gostaria de ter escrito. Mas já que não foi o caso, contento-me em divulgá-lo e expressar minha completa concordância com a autora.

Muitas vezes, a discriminação sobre ateus, agnósticos e descrentes em geral não é explicita como em casos “datenados“, e se manifesta por meio da não aceitação de um debate ou de um silêncio respeitoso auto-imposto visando a não não criar animosidades.

E em tempos de 2º turno pautado por bajulações de ambos os candidatos a alguns setores mais retrógrados, conservadores e medievais de diversas instituições religiosas, torna-se ainda mais interessante o texto abaixo.

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Pouco importa o que Dilma e Serra de fato pensam sobre aborto. Em campanha, eles dirão o que o povo brasileiro deseja ouvir – e não os culpo nem um pouco por isso. Se o que o povo deseja ouvir é que o(a) futuro(a) chefe de nosso Estado teoricamente laico é temente a Deus e aos valores das religiões católica e evangélica, assim será. Por quê? Porque, no nosso país, ser ateu é feio. Ateus não são confiáveis. Ateus não podem ser chefes de Estado nem devem confessar em cadeia nacional sua não-crença, como minha mãe bem me advertiu lá no começo da minha carreira de declarações públicas (“Olha o Fernando Henrique, até ele passou a falar em Deus!”).

Segui o conselho de minha mãe por dez anos, resignada e crendo que, de fato, pouco deveria importar para os outros se eu pessoalmente acreditava ou não em Deus ou seguia alguma religião em particular. Mas agora, irritada ao ver os jornais e as campanhas políticas dominadas pelo discurso religioso, resolvi que não me calo mais: sou ateia, sinto-me discriminada por causa de minha crença na não-existência de um Deus (nem de vários), e agora vou fazer ativamente campanha em prol do respeito à não-crença.

Crenças são produto do cérebro: modelos internos que criamos para explicar acontecimentos sistemáticos, não importa se baseados em evidências ou não, dentro dos quais nossos valores e experiências de vida se encaixam, e que nos ajudam não só a explicar eventos quanto a predizê-los, o que por sua vez ajuda a orientar nossas ações. Pessoas diferentes creem na bondade dos homens (ou na sua maldade intrínseca), na pureza das crianças, em guardar dinheiro na poupança, creem no governo, em educar-se muito e sempre ou em fazer o bem ao próximo.

A crença em Deus, em particular, resolve muitas questões de uma vez só: para começar, todas aquelas em que não conseguimos identificar um agente responsável pelos acontecimentos. A colheita foi boa? Deus quis. Foi péssima? Obra Dele, também, por algum de seus desígnios. Surgiu um câncer? Desapareceu sozinho? Nossos olhos e ouvidos internos são estruturas complexas e aparentemente improváveis? Obra de Deus.

Uma alternativa é aceitar que cânceres, dilúvios, seres altamente complexos e tantas outras coisas simplesmente acontecem, sem um Agente identificável. São obra do Acaso, ou da Natureza, ou de algum outro agente ainda não identificado. Para mim e meus colegas ateus (ou agnósticos: não vejo diferença prática entre uns e outros, assim como não vejo diferença entre crer na inexistência de Deus ou não crer na Sua existência), essa é nossa crença. A crença em um Ser superior, portanto, é tão boa quanto qualquer outra crença, posto que são crenças, justamente: nem melhor, nem pior.

E no entanto, não temos liberdade para dizer que não cremos em Deus, ou que acreditamos em debates (sobre o aborto ou o casamento, por exemplo) que NÃO envolvam a religião. É devido à imposição de Deus, crença aparentemente compulsória nesse país, que tem-se o nojo que anda o jornal O Globo e, nojo dos nojos, que deixou minha ínsula absolutamente revoltada, a revista Veja da semana passada (digo isso somente agora, tarde demais para que meu repúdio gere curiosidade e os ajude a vender exemplares).

Pois cansei de ser discriminada. Quero ter direito à liberdade de exercer minha não-religiosidade e a não ser considerada pior do que os religiosos por não crer em Deus. Defendo os direitos dos religiosos de curtirem suas crenças em paz, e acho o máximo conhecer a cultura, os valores e as particularidades de judeus, muçulmanos e tantos outros – mas está na hora de os não-religiosos também terem a sua não-crença respeitada.

E respeito começa pela não-imposição de valores. Assim como não desejo que todos os brasileiros abandonem suas crenças particulares, repudio ardentemente a imposição de valores católicos ou evangélicos ou de qualquer outra religião à política e aos meus direitos civis. Quero um Estado laico de fato: que respeite a diversidade de crenças, incluindo aquela na inexistência de Deus, e não tome decisões pautadas por religião alguma. Não acredito em Deus, mas acredito no ser humano, acredito em fazer o bem, e acredito que nossa a liberdade tem que ter limite onde nossas crenças e ações começam a interferir na liberdade dos outros.

E a partir de agora, podem ter certeza que vou responder com todas as letras que sou ateia toda vem que me perguntarem, em cadeia pública ou em particular. Assim vou fazer minha parte pela liberdade de expressão religiosa *e* não-religiosa. Como Fernando Pessoa bem escreveu, não ter Deus é um Deus também.

 

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