Silêncio, hipocrisia ou sinceridade

Dia desses uma amiga perguntou à minha noiva qual a minha melhor qualidade. A resposta dela foi: a Sinceridade.

Perguntou também qual o meu pior defeito. E a resposta foi: a Sinceridade.

Concordei com ambas as resposta.

Cada vez mais tenho me livrado de diversas máscaras que somos todos obrigados a usar na vida em sociedade, e às vezes fico me perguntando qual o limite para essa transparência.

À medida que foi crescendo em mim a compreensão de que não há nada para além desta vida, e que não há um Papai do Céu me observando, me guiando, me recompensando, passei a me incomodar um pouco com certas convenções sociais que antes passavam despercebidas.

Meu círculo de relações é formado majoritariamente por pessoas que se considerariam teístas caso fossem perguntadas; e dentre estas há um amplo espectro de profundidade religiosa, desde os que diriam “acredito em deus, mas isso em nada interfere na minha vida”, até aqueles que declarariam sem pestanejar “tudo o que acontece na minha vida é obra do meu deus”.

Quando surgem determinados assuntos ou situações, vejo-me impelido a escolher uma das situações do título deste post: o silêncio, a hipocrisia ou a sinceridade.

Vou utilizar alguns exemplos que podem e devem ser ampliados para situações análogas.

Imagine que duas pessoas conversam perto de mim, e uma delas solta uma frase do tipo: “A situação X que estava me preocupando foi resolvida. O meu deus é muito bom pra mim. Eu sabia que ele iria me atender e me ajudar nisso”.

Aqui é relativamente fácil decidir. Uma vez que não participo da conversa, cabe-me um silêncio respeitoso, visto que não tenho (não mais) a vontade de me intrometer nas fantasias alheias.

Visualize agora que eu seja o ouvinte da conversa acima. Mesma pessoa contanto o mesmo caso para mim.

Dessa vez, as coisas se complicam um pouco.

Não sei se tenho o direito de usar minha sinceridade e dizer: “Não, fulano. Não acho que você deva agradecer a uma entidade imaginária na qual você foi convencida a crer desde a mais tenra idade. O seu deus não é diferente de Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa, em versão para adultos”. Inclusive não sei se tenho a paciência necessária para o que viria depois de dizer isso.

Tampouco me sinto confortável para vestir uma das máscaras da hipocrisia e concordar com a alegação de ajuda divina, como costumava fazer há algum tempo.

Portanto, neste caso, fico pensando o silêncio do ouvinte seria uma boa opção. Embora deva dizer que esse tipo de “concordância tácita” tem me incomodado.

Mudemos de situação e digamos que o colega acima agora resolva se dirigir diretamente a mim com relação a alguma situação da minha vida. Algo do tipo: “Você comprou apartamento? Que bom! Sempre soube que deus iria te ajudar muito. Você merece tudo de bom que deus te dá. Lembre-se que deus sempre abre uma janela após fechar uma porta. Você é uma pessoa boa, deus gosta muito de você.” (detalhe: após a primeira referência à palavra “deus”, minha mente já estaria meio avoada).

E é nesse tipo de situação que mais tenho dúvidas sobre como agir. Não faz mais sentido ser um ouvinte passivo e manter o silêncio respeitoso e a “concordância tácita”. A hipocrisia da falsa aceitação também não é uma opção aceitável.

Sobra a sinceridade. E aqui retomo o que minha noiva disse sobre minha melhor qualidade e meu pior defeito, como duas faces de uma mesma moeda.

Não que eu seja agressivo com minhas palavras. Tento controlar isso, embora ainda não tenha conseguido domar completamente meu humor um tanto quanto sarcástico e irônico.

O problema maior, penso eu, é como as pessoas reagem ao terem contato com uma opinião tão explícita que diga com todas as letras (ou com apenas umas poucas): “Não, meu caro. As coisas boas (e as ruins) que acontecem comigo (e com você) são frutos diretos das minhas (e suas) escolhas e atitudes, bem como as daqueles à minha (e à sua) volta. Não há deus(es) me (nos) observando ou interferindo no mundo por mim (nós). Papai do Céu não existe, e por isso não merece crédito nenhum por nada”.

Muita gente já deve ter passado por situações semelhantes. Um simples “Eu não acredito em deuses” (em resposta a um “Deus vai te ajudar”, por exemplo), mesmo dito em tom sereno e tranqüilo, é capaz de provocar olhares perplexos e queixos caídos.

E o pior. Algumas vezes esse tipo de posicionamento acaba sendo visto como uma afronta à crença do interlocutor. Como se eu o estivesse ofendendo por não crer na mitologia em que ele acredita. E isso me dá muita preguiça.

Termino este texto deixando uma reflexão.

Será que não somos todos, em certa medida e em diferentes gradações, silenciosos, hipócritas e sinceros?

Por vezes, identificamos a necessidade de ficarmos calados.

Em outras situações, necessitamos de algumas máscaras e não nos vemos totalmente livres de certo grau de hipocrisia.

E quem é que nunca se preocupou em estar sendo sincero demais?

Para você que encontrou o equilíbrio, meus parabéns!

Eu ainda estou à procura do meu.

P.S: As conversas que ilustram este post poderiam se referir a outros assuntos também, como astrologia, poder dos cristais, energia das pirâmides, etc…

6 Respostas para “Silêncio, hipocrisia ou sinceridade

  1. Já faz tempo que optei por não ficar mais quieto quando se dirigem diretamente a mim. Não me meto em conversa dos outros.
    Aconteceu naturalmente quando em um belo dia, ao entrar no mercado, uma senhora que estava sentada no chão me pediu pra comprar tempero pra ela preparar o arroz, que ela já havia “conseguido”.
    Entrei, comprei minhas coisas e o tal tempero pra ela. Quando lhe entreguei ela começou a “agradecer demais”, dizendo graças a deus por eu ter ajudado, etc… Eu simplesmente disse: De nada minha senhora, mas deus não tem nada a ver com isso. Fui eu que te ajudei porque eu quis… Ela me olhou por alguns segundos como se não tivesse entendido e não disse mais nada. Fui embora me sentindo a pior pessoa do mundo…
    Mas depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que não devo ficar quieto ou ser hipócrita. Adotei definitivamente essa postura. Já não me sinto mais mal…🙂

  2. Gláucio,
    é a situações assim que eu me refiro mesmo.

    E sobre o caso que vc contou, que sabe vc não plantou uma semente de descrença na cabeça daquela senhora?🙂

    • Claro. A idéia é essa mesmo. Acho que em situações desse tipo, em que a outra pessoa fala em nome de deus pra gente, não temos que fazer de conta que concordamos. Afinal quem “começou” foi a outra parte…🙂

  3. Guilherme Guimarães

    Boa, primeiramente parabéns pelo post.

    Sou ateu convícto há aproximadamente 5 anos. Contudo, sabemos que uma das maiores qualidades em ser ateísta é a liberdade para pensar, raciocinar, criticar, elaborar opiniões e hipóteses etc.

    Sou muito reservado com relação a minha opinião e descrença. E mais do que isso, respeito muito a fé alheia, de uma forma ética e impessoal. Se uma senhora, por exemplo, me agradece uma caridade e diz “graças a deus”, eu simplesmente responderia: disponha. Boa tarde!

    Um grande e fraterno abraço.

  4. Guilherme,
    esse tipo de expressão, “vai com deus”, fica com deus”, graças a deus”, que geralmente significam, “felicidades pra vc”, “durma bem”, “obrigado”, não me incomodam. Simplesmente ignoro, ou respondo com um obrigado, pois a intenção é boa.

    O que me incomoda são os discursos que tentam “enfiar” deus na minha vida, nas minhas ações… isso sim tem me feito sair do silêncio…

    Abraço.

  5. Pingback: Eu tb me sinto discriminado! « No Lado Escuro da Lua

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