Homem X Natureza? NÃO

Autores: Fabio R. Scarano, Claude Gascon, Russel A. Mittermeier

Fonte: Scientific American – Edição Especial nº 39

Introdução: Alex Rodrigues

A relação do homem com o meio ambiente é um assunto que tem, cada vez mais, ocupado minha cabeça. Há alguns meses escrevi um pequeno texto ligeiramente “pessimista” sobre o assunto aqui e no Bule Voador (quando eu ainda era um convidado).

Há algum tempo, assisti a um “documentário ficcional” chamado Earth 2100 (Terra 2100), há talvez alguns exageros e alarmismos, mas serve para nos fazer refletir sobre o caminho que podemos estar trilhando neste exato momento.

E este mês recebi a Edição Especial nº 39 da Scientific American, a qual trata somente sobre ecologia. Para mim, essa foi a oportunidade de contribuir com mais um texto para esta que é uma discussão extremamente importante nos dias de hoje.

O texto abaixo é um pequeno trecho do artigo introdutório da revista, chamado “O que é biodiversidade?”, e contém algumas reflexões bem interessantes.

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A modernidade pôs homem e natureza em caixas diferentes e, de certa forma, opostas. Daí, especialmente a partir da Revolução Industrial, surgiu a noção de que a natureza é um obstáculo ao desenvolvimento e, rapidamente, emergiu o dualismo conservacionismo versus desenvolvimentismo.

Esse dualismo persiste e se arraigou às tradições do homem contemporâneo.

A fase que começa a se descortinar na área ambiental e na própria ciência é aquela em que esses dois lados começam a reconhecer que devem dialogar. Em especial em países em desenvolvimento, como o Brasil, isso deve ocorrer de forma integrada com a conservação e o bom uso dos recursos naturais, e não às custas deles.

Sustentabilidade, a palavra-chave quando se pensa em modelos alternativos de desenvolvimento, demanda conciliação entre conservação, produção e bem-estar humano. Naturalmente, isso é bem mais fácil de ser dito que feito, especialmente porque ainda não juntamos na mente aquilo que a modernidade separou – homem e natureza.

Nesse contexto, há alguns riscos de interpretação que devem ser evitados. No passado, áreas protegidas eram vistas como áreas que excluíam o homem. Hoje, ainda que em alguns tipos de unidades de conservação não possa haver acesso ou uso, estas também devem ser vistas como protetoras de serviços ambientais que são de benefício ao homem.

Na pós-modernidade, o homem não pode correr o risco de continuar, na teoria e na prática, separado da natureza. Esse é um passo difícil, mas fundamental para o sucesso da transição em direção a um modelo de desenvolvimento econômico que, ao mesmo tempo, favoreça o homem e não dilapide os recursos naturais.

Não há outro papel possível para o Brasil senão assumir a liderança em uso sustentável e conservação e dar bons exemplos para o mundo.

O país tem cerca de 10% das espécies do planeta, 14% da água potável e renovável do mundo, é um celeiro de produção de alimentos e dispõe de amplos estoques de carbono florestal.

Em contraposição, 55% do território nacional já sofreu algum tipo de alteração pelo homem, que nitidamente não se reverteu para o bem-estar do povo brasileiro, uma vez que o Brasil ostenta ainda um índice de desenvolvimento humano (IDH) baixo para um país com a pujança econômica de que dispõe e uma precária distribuição de renda.

O desafio deste século é fazer com que esse fantástico capital natural possa se reverter em benefício das pessoas e efetivamente melhorar a qualidade de vida do povo brasileiro.

Biomas, ecossistemas e vegetações, coletivamente, são de grande importância e dão a base de sustentação ao bem-estar humano.

A degradação da mata Atlântica compromete corpos d’água, a do Cerrado reduz polinizadores e inimigos naturais que são a base de uma boa agricultura e, na Amazônia, afeta o clima global.

Um leitor mais pessimista pode avaliar que a velocidade da perda do capital natural é sempre maior que a geração pelo homem de alternativas sustentáveis. Entretanto, no Brasil, começam a aparecer exemplos de práticas e ações com sinalização muito positiva de que o jogo pode virar a favor da biodiversidade.

Na região Norte, Amazonas e Pará dispõem de amplas redes de unidades de conservação federal e estadual. O Acre tem se notabilizado pelo dinamismo e diversificação de sua economia florestal. O Amapá tem cerca de 90% de suas terras intocadas, 70% do território preservado em UC’s, e, desde a criação do Corredor de Biodiversidade do Amapá, em 2003, o IDH no estado tem crescido significativamente. Em 2005 foi o que mais cresceu no Brasil, graças a uma economia baseada em produtos naturais.

Do Sul ao Nordeste, está em curso o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica – assinado por duas centenas de empresas, instituições acadêmicas, governos e sociedade civil com o objetivo de duplicar a área florestal hoje coberta pela Mata Atlântica com plantios de espécies nativas.

A base científica que sustenta essas novas experiências está fortemente ligada a uma ampla rede nacional de cursos de pós-graduação voltados para o tema da biodiversidade: já gira em torno de 200 o número de cursos de mestrado e doutorado nas áreas de ecologia, botânica, zoologia, oceanografia biológica e ciências ambientais.

Essa vigorosa formação de jovens resulta no fato de o Brasil ter hoje a oitava maior produção científica do mundo na área de conservação da biodiversidade.

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