Um Caminho para a Descrença

Autor: Charles Darwin

Fonte: Autobiografia 1809 – 1882

Introdução: Charles Darwin escreveu sua Autobiografia entre 28 de maio e 3 de agosto de 1876, “durante quase uma hora na maioria das tardes”, conforme ele mesmo informa no final do livro, e dentre os vários assuntos de sua vida que são abordados, um me chamou especial atenção: o breve relato de seu caminho para a descrença em um deus.

Essa parte do texto me tocou profundamente, pois, guardadas as devidas diferenças, principalmente em relação ao desfecho, meu caminho para a descrença em deuses foi bem parecido. Além disso, conheço muita gente que, mesmo sem saber (ou sem querer saber), estão em um processo semelhante, porém se recusam a parar para refletir e abrir os olhos. Mantêm a “crença na crença”. Abaixo o trecho do livro.

*******************************************************************

Durante esses dois anos (outubro de 1836 a janeiro de 1839), fui levado a refletir muito sobre religião. Eu era ortodoxo na época em que estive a bordo do Beagle.

Nesse período, entretanto, eu percebera pouco a pouco que o Velho Testamento, com sua história flagrantemente falsa do mundo e por atribuir a Deus os sentimentos de um tirano vingativo, não merecia mais confiança do que os livros sagrados dos hindus ou as crenças de qualquer bárbaro.

Passei a conviver com a pergunta: se Deus fizesse agora uma revelação aos hindus, será que Ele a vincularia à crença em Vishnu, Shiva etc., assim como o cristianismo é ligado ao Velho Testamento? Isso me pareceu inacreditável.

Refletindo, além disso, que seria necessária a mais clara comprovação para fazer qualquer homem sensato acreditar nos milagres em que se sustenta; que, quanto mais conhecemos as leis fixas da natureza, mais inacreditáveis se tornam os milagres; que os homens daquela época eram ignorantes e crédulos num grau que quase não podemos compreender hoje; que é impossível provar que os Evangelhos tenham sido escritos na própria época dos acontecimentos; e que eles diferem em muitos detalhes importantes para serem aceitos como a imprecisão habitual das testemunhas oculares, através de reflexões como estas, que apresento não por terem o menos ineditismo ou valor, mas tal como me influenciaram, passei gradativamente a descrer do cristianismo como revelação divina.

Por mais bela que seja a moral do Novo testamento, dificilmente se pode negar que sua perfeição depende, em parte, da interpretação que damos hoje às metáforas e alegorias.

Mas eu não estava disposto a desistir de minha crença com facilidade; lembro-me bem das inúmeras vezes em que inventei devaneios que confirmassem de maneira admirável tudo o que estava escrito nos Evangelhos.

Mas eu tinha uma dificuldade cada vez maior, soltando as rédeas de minha imaginação, de inventar provas suficientes para me convencer. Assim, fui tomado lentamente pela descrença, que acabou sendo completa. A lentidão foi tamanha que não senti nenhuma aflição, e desde então nunca duvidei de que minha conclusão foi correta.

Aliás, mal consigo entender como alguém possa desejar que o cristianismo seja verdadeiro. Se assim fosse, a linguagem clara do texto parece mostrar que os homens que não têm fé serão castigados.

Essa doutrina é execrável.

Nos dias atuais, o argumento mais comum a favor da existência de um deus inteligente é extraído da convicção íntima e dos sentimentos experimentados pela maioria das pessoas. Mas não se pode duvidar que a maioria dos hindus e dos muçulmanos argumentaria da mesma maneira, e com igual vigor, a favor da existência de um ou de muitos deuses, ou, como entre os budistas, de nenhum deus. Existem também muitas tribos bárbaras que não acreditam no que chamamos Deus, mas sim em espíritos ou fantasmas.

Embora não creia que o sentimento religioso tenha sido muito desenvolvido em mim, sentimentos como os que acabei de mencionar levaram-me, no passado, à firme convicção da existência de Deus e da imortalidade da alma.

Hoje, entretanto, nem as cenas mais grandiosas trariam à minha mente tais convicções e sentimentos. Alguém poderia dizer que sou como um homem que se tivesse tornado daltônico; a crença universal dos homens na existência do vermelho faz com que minha atual perda de percepção não tenha valor de prova.

Essa argumentação seria válida se todos os homens de todas as raças tivessem a mesma convicção íntima da existência de um deus único, mas sabemos que isso está longe de ser verdade. Portanto, não vejo como essas convicções e sentimentos íntimos possam ter qualquer valor de prova quanto ao que realmente existe.

Tenho a impressão de que outra fonte de convicção da existência de Deus, ligada à razão e não aos sentimentos, tem muito mais peso. Ela decorre da dificuldade, ou melhor, da impossibilidade de conceber este universo imenso e maravilhoso como resultado do acaso cego ou da necessidade.

Ao refletir dessa maneira, sinto-me obrigado a buscar uma causa primária, dotada de uma mente inteligente e até certo ponto análoga à do homem, e mereço ser chamado de teísta.

Essa conclusão, tanto quanto posso recordar, era forte em minha mente na época em que escrevi A origem das espécies. Desde então, começou, gradualmente e com muitas oscilações, a tornar-se mais fraca.

Mas, surge uma dúvida: pode a mente do homem, que se desenvolveu a partir de uma mente tão inferior quanto a que possui o mais inferior dos animais, ser digna de confiança quando chega a essas conclusões grandiosas? Elas não serão o resultado da ligação entre causa e efeito, que nos parece necessária, mas que provavelmente decorre apenas da experiência herdada?

Também não devemos desconsiderar outra possibilidade: a repetição persistente de uma crença em Deus na mente das crianças pode produzir em seus cérebros, ainda não plenamente desenvolvidos, um efeito tão forte, que lhes seja tão difícil desfazer-se dessa crença quanto é, para um macaco, desfazer-se de seu medo e ódio instintivos das cobras.

Não tenho a pretensão de lançar luz sobre esses problemas obscuros. O mistério do início de todas as coisas nos é insolúvel. Devo contentar-me em permanecer agnóstico.

a

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s