A Questão de uma Weltanschauung [1] (Resumo) – Parte 5

Pode­-se, então, perguntar por que a religião não põe um fim a essa controvérsia, que é tão sem esperança para ela, declarando francamente: “Realmente não posso dar-­lhes o que comumente é chamado de ‘verdade’; se a querem, apeguem­-se à ciência. Mas o que tenho a oferecer-­lhes é algo incomparavelmente mais belo, mais consolador e mais elevado do que tudo o que podem conseguir da ciência. E, por causa disso, digo­-lhes que é verdadeiro, num outro sentido, mais elevado”.

É fácil encontrar a resposta para isto. A religião não pode admitir tal coisa, porque senão implicaria a perda de toda a sua influência sobre a massa da humanidade.

O homem comum conhece apenas uma espécie de verdade, no sentido corrente da palavra. Não consegue imaginar o que possa ser uma verdade, que assim como a morte, não admite graus de comparação; e não consegue acompanhar o salto que vai do belo ao verdadeiro.

A luta, pois, não chegou ao fim. Os adeptos da Weltanschauung religiosa agem segundo o velho ditado: a melhor defesa é o ataque.

Dizem eles: “O que é essa ciência que se atreve a desacreditar nossa religião, que trouxe a salvação e o consolo a milhões de pessoas durante muitos milhares de anos? O que a ciência realizou até agora? Que podemos esperar dela, no futuro? Ela própria admite ser incapaz de proporcionar consolo e alegria. Mas deixemos isto de lado, embora não constitua uma renúncia fácil. Agora, de suas teorias, o que dizer? Pode a ciência dizer-­nos como se fez o universo e que destino nos espera? Pode, ao menos, dar-­nos um quadro coerente do universo, ou mostrar­-nos onde haveremos de procurar os fenômenos inexplicados da vida, ou como as forças da mente são capazes de agir sobre a matéria inerte? Se ela pudesse fazer isto, não lhe recusaríamos o nosso respeito. No entanto, pelo contrário, nenhum problema desse tipo foi solucionado por ela, até hoje. Dá­-nos fragmentos de supostas descobertas, as quais não consegue tornar coerentes entre si; coleciona observações de constâncias no curso dos eventos que dignifica com o nome de leis e as submete a suas perigosas interpretações. E pensem no reduzido grau de certeza que ela confere a seus achados! Tudo o que ela ensina é provisoriamente verdadeiro: o que hoje é valorizado como a mais alta sabedoria, amanhã será rejeitado e substituído por alguma outra coisa, embora também esta seja apenas uma tentativa. O último erro é, então, qualificado como a verdade. E é por essa verdade que devemos sacrificar nosso bem máximo!

Espero que, na medida em que os senhores mesmos são adeptos da Weltanschauung científica, que é atacada nessas palavras, não se deixarão abalar tão profundamente por essas críticas. As acusações contra a ciência, de ainda não ter resolvido os problemas do universo, são exageradas de forma injusta e maliciosa; de fato, ela ainda não teve tempo suficiente para essas grandes realizações; é muito nova, uma atividade humana que se desenvolveu tardiamente.

Recordemos, escolhendo apenas algumas datas, que se passaram apenas uns séculos desde que Kepler descobriu as leis do movimento dos planetas; que a vida de Newton findou em 1727; e que Lavoisier descobriu o oxigênio um pouco antes da Revolução Francesa. A vida de um indivíduo é muito curta em comparação com a duração da evolução humana; eu posso ser um homem muito velho, não obstante, já era nascido quando Darwin publicou seu livro sobre a origem das espécies. Naquele mesmo ano, 1859, nasceu Pierre Curie, o descobridor do rádio. E se os senhores retrocederem ainda mais no tempo para os começos da ciência exata entre os gregos, para Arquimedes, para Aristarco de Samos (cerca de 250 a.C.), que foi o precursor de Copérnico, ou até para os primórdios da astronomia entre os babilônios, terão apenas percorrido uma diminuta fração da extensão de tempo que os antropólogos requerem para a evolução do homem.

E não devemos esquecer que o último século trouxe tal quantidade de descobertas novas, tão grande aceleração do progresso científico, que temos toda a razão ao olhar com confiança o futuro da ciência.

[1] Freud, S. (1976b). Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise: Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol.22). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1933 [1932]).

2 Respostas para “A Questão de uma Weltanschauung [1] (Resumo) – Parte 5

  1. Oi Alex!

    Aqui é o Fabenrik, do blog Ateu e à toa, e também criador do Atheist College.
    Desculpe entrar em contato por esse meio.
    Primeiro, gostaria de dar parabéns pelo blog.
    Segundo fazer duas propostas, a primeira é uma parceria entre o seu blog. A segunda é que se fizer parte da equipe do Bule Voador, que possamos também fazer uma parceira com o Bule. E se não for, se tem contato com a galera de lá, pois também tenho interesse em fazer parceria com o Bule, aliás tanto o Banner do Bule e o seu link estão lá, se tiver banner para o seu blog me informe.

    Desde já agradeço
    Fabenrik
    ateu e atoa

  2. Já tenho o link do seu blog no ateu e à toa tem algum tempo, podemos trocar banners ou somente link, será que poderia me ajudar a falar com o pessoal do Bule? Enviei e-mail e não tive retorno…

    Fabenrik
    ateu e atoa

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