A Questão de uma Weltanschauung [1] (Resumo) – Parte 4

A luta do espírito científico contra a Weltanschauung religiosa, como sabem, ainda não chegou ao fim: ainda está­ se desenvolvendo atualmente, diante de nossos olhos. Embora, de modo geral, a psicanálise empregue pouco a arma da controvérsia, não me absterei de examinar tal disputa. Com isso, talvez, posso elucidar melhor nossa atitude referente às Weltanschauungen. Os senhores verão com que facilidade alguns dos argumentos apresentados pelos adeptos da religião podem ser respondidos, embora outros realmente possam escapar à refutação.

A primeira objeção que encontramos é no sentido de ser uma impertinência, da parte da ciência, fazer da religião um objeto de suas investigações, pois a religião é algo sublime, superior a qualquer operação do intelecto do homem, algo que não deve ser abordado mediante críticas excessivamente sutis. Em outras palavras, a ciência não tem competência para julgar a religião: é muito útil e respeitável em outros aspectos, desde que se mantenha dentro de sua própria esfera. Mas a religião não é sua esfera, nela a ciência não tem o que fazer.

Se não nos deixarmos desarmar por essa repulsa brusca e se, ademais, indagarmos qual é a base dessa pretensão a uma posição excepcional entre todos os assuntos humanos, a resposta que recebemos (se formos julgados dignos de alguma resposta) é que a religião não pode ser medida por critérios humanos, visto ter origem divina e haver-­nos sido dada como uma revelação por um Espírito que o espírito humano não consegue compreender.

Poder-­se-­ia pensar que não houvesse nada mais fácil do que a refutação desse argumento: é um caso claro de petitio principii, de ‘tomar como confirmada a questão’. A questão real que surge é saber se existe um espírito divino e uma revelação a atribuir-­lhe; e a matéria, por certo, não encontra uma decisão, dizendo-­se que essa questão não pode ser respondida, uma vez que a divindade não pode ser colocada em questão. Aqui a situação é a mesma observável, por vezes, durante o trabalho da análise. Se um paciente, geralmente inteligente, rejeita uma determinada sugestão, com base em motivos especialmente tolos, essa debilidade da lógica é prova da existência de um motivo especialmente forte para ele fazer a rejeição, ­um motivo que só pode ser de natureza afetiva, um nexo emocional.

Também nos pode ser dada uma outra resposta na qual se admite francamente um motivo dessa ordem: a religião não pode ser examinada criticamente, porque é a coisa mais elevada, mais preciosa e mais sublime que o espírito humano produziu, porque dá expressão aos sentimentos mais profundos, e porque apenas ela torna o mundo tolerável e a vida digna do homem.

Não devemos responder pondo em dúvida esse valor da religião, mas dirigindo a atenção para outro tema. O que fazemos é enfatizar o fato de que, de modo algum, está sendo cogitada uma invasão da área da religião pelo espírito científico; pelo contrário, ocorre uma invasão, pela religião, na esfera do pensamento científico. Qualquer que sejam seu valor e importância, ela não tem o direito, em nenhum sentido, de limitar o pensamento; ­não tem o direito, portanto, de se furtar à eventualidade de o pensamento tentar investigá-­la.

O pensar científico não difere, em sua natureza, da atividade normal do pensamento que todos nós, crentes ou incréus, empregamos ao cuidar de nossos assuntos na vida corrente. Ele apenas desenvolveu determinados aspectos: interessa-­se por determinadas coisas, conquanto estas não tenham uso imediato, tangível; procura evitar, cuidadosamente, fatores individuais e influências afetivas; examina mais rigorosamente a credibilidade dos sensos de percepção nos quais baseia suas conclusões; equipa-­se com novas percepções que não se podem obter pelos meios habituais, e isola os fatores determinantes dessas novas experiências em experimentações modificadas deliberadamente.

Seu esforço é no sentido de chegar à correspondência com a realidade, ­ou seja, com aquilo que existe fora de nós e independentemente de nós, e, segundo nos ensinou a experiência, é decisivo para a satisfação ou a decepção de nossos desejos. A essa correspondência com o mundo externo real chamamos de ‘verdade’. Permanece este o objetivo do trabalho científico, ainda que deixemos de considerar o valor prático desse trabalho.

Quando, portanto, a religião afirma poder tomar o lugar da ciência, que, por ser benéfica e porque dignifica, também deve ser verdadeira, isto realmente é uma intromissão que deve ser repelida em nome dos mais elevados interesses. É pedir demais a uma pessoa que aprendeu a conduzir seus assuntos comuns de acordo com as regras da experiência e, respeitando a realidade, sugerir-­lhe que ceda o cuidado daquilo que constitui precisamente seus mais íntimos interesses a uma instância que se arroga o privilégio de estar isenta das regras do pensar racional. E, relativamente à proteção prometida pela religião a seus crentes, penso que nenhum de nós estaria disposto a entrar num automóvel se o motorista nos anuncia que ele, desdenhando as regras do trânsito, dirige segundo os arroubos de sua imaginação desenfreada.

A proibição do pensamento, estabelecida pela religião para assegurar sua autopreservação, também está longe de ser isenta de perigos, seja para o indivíduo, seja para a sociedade humana. A experiência analítica nos ensinou que uma proibição como esta, embora originalmente limitada a apenas uma determinada área, tende a alastrar-­se e, daí, a se tornar causa de graves inibições na conduta de vida da pessoa. As biografias podem mostrar os danos causados pela inibição religiosa do pensamento, na história da vida de quase todas as pessoas célebres do passado.

Por outro lado, o intelecto, ­ou chamemo-­lo pelo nome que nos é familiar, a razão, ­está entre os poderes que mais esperamos vir a exercer uma influência unificadora sobre os homens, que são tão difíceis de manter unidos e tão difíceis de governar. Pode­-se imaginar como seria impossível existir a sociedade humana, se cada pessoa simplesmente tivesse a sua tabuada particular para multiplicar e suas próprias medidas para aferir comprimento e peso.

Nossa maior esperança para o futuro é que o intelecto – ­o espírito científico, a razão ­possa, com o decorrer do tempo, estabelecer seu domínio sobre a vida mental do homem. A natureza da razão é uma garantia de que, depois, ela não deixará de dar aos impulsos emocionais do homem, e àquilo que estes determinam, a posição que merecem. A compulsão comum exercida por um tal domínio da razão, contudo, provará ser o mais forte elo de união entre os homens e mostrará o caminho para uniões subseqüentes. Tudo aquilo que, à semelhança das proibições da religião contra o pensamento, se opõe a uma evolução nesse sentido, é um perigo para o futuro da humanidade.

[1] Freud, S. (1976b). Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise: Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol.22). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1933 [1932]).

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