Uma Fé Inofensiva

O texto a seguir é de Bruno Iori e foi retirado do site: http://deusilusao.wordpress.com/2010/04/09/uma-fe-inofensiva/


Fé. Apenas um monossílabo tônico na gramática. Simples e desimportante.

Mas no mundo real, esta palavra torna-se uma das mais poderosas ferramentas de manipulação e destruição em massa da história. Muito mais eficiente que a televisão. Muito mais destrutiva que uma arma nuclear. Assim é, a amada fé.

Como pode a crença, causar tanto mal? E, ao mesmo tempo, propagar a idéia de que faz tão bem? O que uma fé sincera e moderada tem de tão mau?

Por definição, fé é uma crença não-baseada em fatos que sustenta-se pela sugestão de terceiros (ou própria) acerca de sua veracidade. Sempre foi ensinado a qualquer cristão: “Se sua fé vacilar, peça a deus por ajuda para fortalecê-la.” Que bela antítese! É o mesmo que dizer: “Lobo, toma conta das ovelhas que eu já volto, tá?”. Este beco sem saída da lógica é apenas um dos muitos métodos utilizados para a doutrinação inconseqüente, covarde, desonesta de pessoas inocentes, que não têm escolha diante dessa poderosa arma psicológica. Acreditar não oferece escolhas. Pensar, sim.

Pense em uma criança de 5 anos que ouve freqüentemente estórias de fadas, saci-pererê, papai-noel, bicho-papão, ao mesmo tempo que ouve sobre deus, jesus, alá e etc. Depois que esta criança cresce, na maioria das vezes, deixa de acreditar nas primeiras porque entende que não faz sentido e que são lendas criadas pelas pessoas para seus filhos. Mas, curiosamente, muitas não concluem o mesmo em relação às estórias sobre deus. Por quê?

Por dois motivos: O primeiro é a ilusão coletiva que é mantida pela esmagadora maioria das pessoas à sua volta. Geralmente quando ela começa a perceber que tudo isso não faz sentido nenhum, ela se sente desamparada e confusa. Neste momento difícil ela é acolhida lentamente pelo sentimento reconfortante de que não estará sozinha se acreditar. As pessoas lhe falam: “Pode não fazer sentido, mas não se preocupe em pensar. Apenas tenha fé. Deus é justo e saberá recompensá-lo.” Esta mentalidade metade passiva de aceitação e metade ativa de ameaça faz com que ela perca a capacidade de duvidar desta e de outras idéias incrivelmente rápido.

Mas então, por que isso não acontece com as outras lendas também, você deve estar se perguntando. Por que não esquecem de deus? Por que não o encaram como deve ser, ou seja, um conto de fadas? Isso nos leva ao próximo motivo.

O segundo motivo pelo qual essas pessoas não esquecem de deus, é que assim como a campanha pró-deus é muito forte, a campanha pró-diabo, também. Isso mesmo: Pró-diabo. Afinal, toda ditadura (leia religião) que se preze tem que ter um eficiente mecanismo de opressão e controle. E, neste caso, é o medo do sofrimento eterno. Um medo que acompanha a criança durante todo o tempo e não só no escuro como o bicho-papão. Um medo que pode até tomar o controle da vida dela, fazendo-a temer seus próprios instintos o tempo todo, fazendo-a acreditar que só merece sofrimento e que deve arrepender-se por ser uma pecadora suja. É essa a força destrutiva que é exercida por este “mecanismo” na mente infantil. E este tipo de violência é tão abominável quanto os outros.

Uma criança tem o direito de pensar livremente e de ser protegida de medos prejudiciais à sua saúde mental. Uma criança tem o direito de não ter fé.

O fato é: Mesmo a mais pura e honesta fé semeia o fanatismo. A idéia de que ter uma fé inabalável é uma virtude, faz com que horrores possam ser justificados. Acho que cabe aqui uma frase dita pelo deísta Voltaire: “Aquele que faz você acreditar em absurdos, faz com que cometa atrocidades”

Se você acha que tudo isso que estou dizendo é puro preconceito ou agressão gratuita, lembre-se dos terroristas islâmicos que seqüestraram e jogaram dois aviões de passageiros contra as torres gêmeas do WTC em Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001, matando 3.234 pessoas. Eles eram maus? Eles eram loucos? Eles eram burros? Não.

É inconcebível colocá-los nessas posições. Eles eram cidadãos religiosos, lúcidos e com formação universitária. Como muitos religiosos “moderados” do cristianismo. Mas foram criminosamente manipulados por sacerdotes sem escrúpulos (como os que existem nas nossas igrejas) e acreditavam de verdade no que estavam fazendo. Acreditavam que aquilo era o certo a se fazer. Que era a vontade do deus deles. Apenas isso. Eles tinham esse tipo de fé. Uma fé que foi orientada para resistir aos mais sérios dilemas morais. Uma fé que está acima de tudo e de todos. Sincera e inquestionável.

Se alguém possui uma fé que não se abala nem um pouco com os mais convincentes questionamentos; estremece e se desespera só de pensar em perdê-la; que a faz assumir e proteger uma posição a qualquer custo; e procura por argumentos que a sustentem e às vezes precisa inventá-los, então, tenha cuidado. Se essa pessoa for manipulada por alguém experiente e mal intencionado, nada a impedirá de provar a deus sua fé, essa gigantesca fé, de uma maneira mais ativa ou agressiva. Por exemplo, com um atentado a uma clínica de aborto. Ou a uma parada gay. Ou até de formas menos drásticas, mas igualmente letais: Não usando camisinha, não doando nem recebendo sangue, não permitindo pesquisas com células-tronco, não permitindo a eutanásia e etc.

O que resta a compreender é que estas atitudes perigosas são derivadas de dogmas impostos pela religião, não através da força bruta e fanatismo, mas pelo cultivo gradual e inexorável da inofensiva fé.

Uma resposta para “Uma Fé Inofensiva

  1. Obrigado pela divulgação, amigo! Espero que tenha gostado do texto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s