A Questão de uma Weltanschauung [1] (Resumo) – Parte 3

Quanto mais eu leio (e re-leio) este texto, mais ele faz sentido pra mim. É uma pena que eu esteja, de certa forma, limitado para compreendê-lo plenamente, visto o fato de eu ser leigo em relação à psicanálise. Esta conferência me foi indicada por um amigo, este sim psicólogo, e realmente “caiu em meu colo” em um momento extremamente propício. Segue, então, a terceira parte deste pequeno resumo.

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O espírito científico, reforçado pela observação dos processos naturais, começou no decorrer do tempo, a tratar a religião como um assunto humano e a submetê-­la a exame crítico. A religião não podia suportar isto. O que primeiro deu origem à suspeita e ao ceticismo foram suas lendas de milagres, pois contradiziam tudo o que tinha sido constatado mediante acurada observação, e traíam muito nitidamente a influência da atividade da imaginação humana.

Depois disto, as suas doutrinas que explicavam a origem do universo se defrontaram com a contestação, pois evidenciavam uma ignorância que trazia a marca de épocas antigas, e em relação às quais as pessoas, graças à sua maior familiaridade com as leis da natureza, sabiam que estas eram superiores. E não devemos desprezar a influência do estudo comparativo dos diferentes sistemas religiosos e a impressão causada por sua recíproca exclusividade e intolerância.

Fortalecido por esses exercícios preliminares, o espírito científico adquiriu coragem suficiente para, afinal, arriscar­-se a examinar os elementos mais importantes e emocionalmente valiosos da Weltanschauung religiosa. As pessoas muitas vezes verificaram ­e isto foi muito antes de ousarem dizer assim tão abertamente ­que os pronunciamentos da religião, prometendo aos homens proteção e felicidade, bastando que estes cumprissem determinados requisitos éticos, também se haviam mostrado indignos de crédito.

Parece não ser verdade que existe um Poder no universo que vela pelo bem-­estar dos indivíduos com desvelo parental e conduz todas as coisas a um desfecho feliz. Pelo contrário, o destino dos homens não pode ser harmonizado, nem pela hipótese de uma Benevolência Universal, nem pela hipótese parcialmente contraditória de uma Justiça Universal. Terremotos, maremotos, conflagrações não fazem nenhuma distinção entre o virtuoso, o piedoso e o patife, o descrente. Mesmo ali onde o que está em questão não é a natureza inanimada, mas onde um destino individual depende de suas relações com outras pessoas, de modo algum se verifica a regra segundo a qual a virtude é recompensada e o mal é punido. No mais das vezes, o homem violento, ardiloso, implacável agarra as coisas boas que o mundo cobiça, e o homem piedoso fica de mãos vazias. Poderes obscuros, insensíveis, cruéis determinam o destino do homem; o sistema de recompensas e punições que a religião atribui ao governo do universo parece não existir.

A última contribuição à crítica da Weltanschauung religiosa foi feita pela psicanálise, ao mostrar como a religião se originou a partir do desamparo da criança, e ao atribuir seu conteúdo à sobrevivência, na idade madura, de desejos e necessidades da infância. Isto não significou necessariamente uma contestação à religião; não obstante, representou um ajustamento de nosso conhecimento a seu respeito e, pelo menos em um aspecto, foi uma impugnação, de vez que a própria religião se arroga uma origem divina. E, na realidade, nisto parece estar correta, desde que seja aceita nossa interpretação de Deus.

Em suma, portanto, o julgamento da ciência sobre a Weltanschauung religiosa é este. Enquanto as diferentes religiões altercam entre si pela posse da verdade, nossa opinião reside em que a questão da verdade das crenças religiosas pode ser totalmente colocada à parte. A religião é uma tentativa de obter domínio do mundo perceptível no qual nos situamos, através do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de nós em conseqüência de necessidades biológicas e psicológicas. Mas a religião não pode conseguir isso. Suas doutrinas conservam a marca dos tempos em que surgiram, dos tempos de ignorância da infância da humanidade. Seu consolo não merece fé. A experiência nos ensina que o mundo não é um aposento de crianças. As exigências éticas, sobre as quais a religião procura apoiar-­se, acentuam, antes, a necessidade de lhe serem dadas outras bases; pois são elas indispensáveis à sociedade humana, e é perigoso vincular à fé religiosa a obediência aos princípios éticos. Se tentarmos situar o lugar da religião na evolução da humanidade, ela aparece não como uma aquisição permanente, mas sim como um equivalente da neurose pela qual o homem civilizado, individualmente, teve de passar, em sua transição da infância à maturidade.

[1] Freud, S. (1976b). Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise: Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol.22). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1933 [1932]).

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