Perversidade contra dois jogadores de futebol

Não adianta dizer o contrário. A sociedade brasileira, no geral, ainda padece de um racismo crônico. Séculos de regime escravocrata e mentalidade racista refletem ainda hoje uma perversidade que só o ser humano parece capaz de exibir dentre todos os nossos primos mamíferos. Algumas vezes, a discriminação e o racismo aparecem de forma explícita na mídia – fulano ofendeu/discriminou cicrano e será processado – suscitando reações imediatas e contundentes das pessoas na rua e dos “formadores de opinião”, que não perdem tempo em rechaçar qualquer tipo de atitude racista ou discriminatória. Entretanto, vez ou outra, essa herança maldita que ainda guardamos em nossos armários reaparece de forma mais ou menos velada por atitudes tomadas pela própria mídia nacional, e o texto abaixo, publicado em 15/03/2010 por Marcelo Migliaccio (http://www.jblog.com.br/rioacima.php?itemid=20004) , demonstra bem esse tipo de situação.

As últimas “notícias” veiculadas por parte da grande imprensa sobre dois jogadores de futebol de origem humilde mostram mais uma vez o quanto este país, este nosso povo deseducado, é elitista e hipócrita (aliás, o ser humano em geral hoje pensa e age assim em quase todo o mundo, salvo honrosas exceções).

Primeiro, pegaram Adriano Imperador, craque do Flamengo e da Seleção Brasileira, para Cristo. O motivo? Ele teve uma briga pública com a noiva numa favela. Na favela onde nasceu e foi criado, diga-se, até descobrir que o destino lhe havia sorteado uma megasena, dando-lhe o dom de jogar bem o futebol.

Adriano – ou melhor, sua vida particular – virou manchete. Como se fosse o único ser humano famoso e rico a se envolver em barracos. Quantos barracos de atrizes de novela, diretores de cinema, políticos e empresários a grande imprensa deixou debaixo do tapete nas últimas décadas?

Não era conveniente publicar… ainda mais na base do “ouvi dizer”.

Mas, como se trata de um negro com pouco estudo, a execração pública está liberada. Afinal, se Deus não fosse camarada com ele, Adriano estaria numa esquina dessas defendendo o almoço do dia como flanelinha. Ou dando duro debaixo do sol como auxiliar de pedreiro. Ou até montando guarda numa boca-de-fumo com uma arma na mão. Quem saberá qual teria sido seu destino? Adriano é rico hoje, mas ainda é um favelado sobre quem achamos que podemos tripudiar ao menor escorregão. Adriano escorrega, nós não.

No último domingo, um jornal publicou que o craque promove festas de arromba com prostitutas e animais. Isso mesmo, animais. Se for mesmo verdade (porque o jogador deveria superar seu complexo de vira-lata e ir à Justiça para que provem isso), só quem deve se preocupar é a Sociedade Protetora dos Animais. Não há uma declaração assumida na suposta reportagem. Acusam Adriano de promover aberrações, mas ninguém tem coragem de dar o próprio nome. “Dois jogadores”, diz o texto, contaram a história ao repórter. “Um empresário” confirmou. Isso é o bastante para atacar a hora de uma pessoa? Uma boa fofoca? Hoje, no Brasil, é.

A vida privada de Adriano, por mais estranha que possa ser, não é mais dele, é de todos os brasileiros, que, parece, nada têm de mais importante com que se preocupar.

Ah, têm sim, o Big Brother Brasil…

No domingo à noite, foi a vez de Vágner Love, outro jogador do Flamengo, ser pregado na cruz. Filmaram o rapaz chegando a uma favela em meio a traficantes armados. Descobriram a pólvora? Ninguém sabia que na maioria das comunidades ainda reina o crime organizado? Agora, vão chamar o Vagner Love para depor (porque alguns adoram entrar na onda da TV). Teve um engravatado que apareceu na televisão dizendo que o jogador não deveria frequentar aqueles lugares. Poxa, mas ele nasceu ali, ali estão seus parentes, seus amigos de infância. Alguns viraram bandidos, a maioria não. Ali na Rocinha estão suas raízes. Fazer o quê?

Queriam que o atacante desarmasse os criminosos? Queriam que ligasse para a polícia e dissesse que estava cercado por traficantes? Se o delegado o chamou para depor, tem que exigir explicações também de todos os moradores da comunidade, que convivem com aquela realidade diariamente. E dos políticos, que, em época de campanha, sobem morros após seus assessores negociarem com as quadrilhas o salvo conduto.

Hipocrisia, preconceito acusar apenas os jogadores, que, pelo menos, não estão ali para fazer demagogia e pedir voto.

Quando Vágner Love nasceu, já cantavam na Rocinha os fuzis e metralhadoras. A polícia sabe disso há décadas, não precisa convocar o artilheiro para se informar.

Onde estava o delegado que convocou Love para depor quando Michael Jackson teve que pedir permissão aos traficantes do Santa Marta para gravar um clipe no alto do morro? Aliás, quem fez a segurança da equipe de Jackson e do diretor Spike Lee lá em cima foram os traficantes, como a mídia cansou de noticiar na época…

Mas Vágner Love é um negro brasileiro, mais negro que Adriano. Tem dinheiro, mas não tem berço nem sobrenome.

Seu sobrenome é Love.

Então podemos cair de pau em cima, dando vazão a toda a nossa crueldade, a toda a nossa mediocridade. Provas? Quem precisa delas?

Se os dois forem criminosos, que a polícia os prenda e um juiz os condene. O que se discute aqui é a abordagem jornalística das tais festas de arromba (a denúncia da moto foi posterior) e do vídeo do jogador Love na favela. Elitista como sempre.

Por essas e outras, às vezes, me envergonho de ser jornalista. Mais: de ser humano.

Uma resposta para “Perversidade contra dois jogadores de futebol

  1. Por falar em jogador de futebol… e o papelão que Robinho, Ganso e Neymar guiados pelo “pastor” Roberto Brum fizeram com as crianças de uma instituição de caridade? Não quiseram descer do ônibus do santos e entrar na casa por “motivos religiosos”. E a criançada esperando inocentemente eles descerem, vestidos de coelhinho da páscoa…HUNF!

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