A Questão de uma Weltanschauung [1] (Resumo) – Parte 1

Não sou psicólogo. Nem psiquiatra. Nem psicanalista. Assim, não pretendo fazer uma análise profunda do texto que dividi em partes e começo a apresentar esta semana. Minha intenção é apenas propiciar uma ótima leitura sobre a religião tal como vista por Sigmund Freud e explicitada nesta Conferência da década de 30 do século passado. Cabe dizer que o termo “Weltanschauung” é definido por Freud como “uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente, com base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos interessa encontra seu lugar fixo”. Nada modesto, não é? Então vamos ao resumo.

Não é lícito declarar que a ciência é um campo da atividade mental humana, e que a religião e a filosofia são outros campos, de valor pelo menos igual, e que a ciência não tem por que interferir nelas: que todas elas têm iguais pretensões de serem verdadeiras e que toda pessoa tem a liberdade de escolher de qual delas irá derivar suas convicções e em qual delas depositará sua crença. Uma opinião como esta é vista como especialmente superior, tolerante, emancipada e livre de preconceitos incultos. Infelizmente, não é sustentável e compartilha de todos os aspectos perniciosos de uma Weltanschauung não-­científica, e a esta equivale, na prática. É que a verdade simplesmente não pode ser tolerante, não admite conciliações ou limitações, e o fato é que a pesquisa considera como propriedade sua todas as esferas da atividade humana, e deve exercer uma crítica incessante se algum outro poder tenta arrebatar-­lhe alguma parte.

Dos três poderes que podem disputar a posição básica da ciência, apenas a religião deve ser considerada seriamente como adversária. A arte quase sempre é inócua e benéfica; não procura ser nada mais do que uma ilusão. Excetuando algumas pessoas que se diz serem ‘possessas’ pela arte, esta não tenta invadir o reino da realidade. A filosofia não se opõe à ciência, comporta-­se como uma ciência e, em parte, trabalha com os mesmos métodos; diverge, porém, da ciência, apegando-­se à ilusão de ser capaz de apresentar um quadro do universo que seja sem falhas e coerente, embora tal quadro esteja fadado a ruir ante cada novo avanço em nosso conhecimento. Perde o rumo com seu método de superestimar o valor epistemológico de nossas operações lógicas e ao aceitar outras fontes de conhecimento, como a intuição.

A filosofia, no entanto, não exerce influência direta na grande massa da humanidade; é objeto do interesse de apenas um pequeno número de pessoas da camada superior de intelectuais, e dificilmente é compreensível para alguém mais. Por outro lado, a religião é um poder imenso que tem a seu serviço as mais fortes emoções dos seres humanos. Sabe­-se muito bem que, em períodos anteriores, abrangia tudo o que desempenhava um papel intelectual na vida do homem, que ela assumia o lugar da ciência ali onde mal havia algo que se assemelhasse à ciência, e que ela construía uma Weltanschauung coerente e auto­suficiente num grau sem paralelo e que, embora profundamente abalada, persiste na atualidade.

Se quisermos dar uma noção da natureza grandiosa da religião, devemos ter em mente o que ela se propõe fazer pelos seres humanos. Dá-­lhes informações a respeito da origem e da existência do universo, assegura-­lhes proteção e felicidade definitiva nos altos e baixos da vida e dirige seus pensamentos e ações mediante preceitos, os quais estabelece com toda a sua autoridade. Com isto ela preenche três funções. Com a primeira delas satisfaz a sede de conhecimento do homem; faz a mesma coisa que a ciência tenta fazer, com os seus próprios meios, e nesse ponto entra em choque com ela. É à segunda das suas funções que a religião deve certamente a maior parte de sua influência. A ciência não pode competir com a religião quando esta acalma o medo que o homem sente em relação aos perigos e vicissitudes da vida, quando lhe garante um fim feliz e lhe oferece conforto na desventura. É verdade que a ciência nos pode ensinar como evitar determinados perigos e mostrar-­nos existirem determinados sofrimentos que ela é capaz de combater com êxito; seria muito injusto negar que ela é um poderoso auxiliar do homem; há, contudo, muitas situações em que se vê obrigada a deixar o homem entregue ao sofrimento e apenas pode aconselhá-­lo a resignar-­se. Em sua terceira função, mediante a qual estabelece preceitos, proibições e restrições, a religião vai muito além da ciência. Isso porque a ciência se contenta com investigar e estabelecer fatos, embora seja verdade que de suas aplicações se derivam normas e orientações quanto à conduta de vida. Em algumas circunstâncias, estas coincidem com aquelas que a religião oferece, mas, quando tal fato se verifica, os motivos de uma e de outra são diferentes. A convergência desses três aspectos da religião não está inteiramente clara. Qual a inter­relação entre a explicação da origem do universo e a inculcação de determinados preceitos éticos especiais? As garantias de proteção e felicidade estão mais intimamente ligadas aos requisitos éticos. São a recompensa pela observância desses mandamentos; somente aqueles que obedecem a esses últimos podem contar com esses benefícios; a punição espera o desobediente. Aliás, algo parecido se verifica com a ciência. Aqueles que desprezam suas lições, assim ela nos diz, expõem-­se a dano.

A notável combinação de ensino, consolo e exigências, que se verifica na religião, pode ser compreendida apenas quando submetida a uma análise genética. Esta pode ser abordada desde o ponto mais surpreendente do conjunto, ou seja, do seu ensino acerca da origem do universo; pois podemos perguntar por que uma cosmogonia faz parte, regularmente dos sistemas religiosos? Assim, a doutrina afirma que o universo foi criado por um ser semelhante ao homem, contudo magnificado em todos os aspectos, em poder, sabedoria e força de suas paixões ­um super-­homem idealizado. É interessante constatar que esse criador quase sempre é um único ser, mesmo nos casos em que se acredita existirem muitos deuses. Também é interessante o fato de que o criador geralmente é um homem, embora não sejam nada raras as indicações referentes a deidades femininas; e algumas mitologias realmente fazem a criação começar com um deus masculino eliminando uma divindade feminina, que é degradada em monstro. Aqui se nos apresentam os mais interessantes problemas de detalhes; mas não podemos determos aí. Nosso caminho torna-­se mais fácil de reconhecer, de vez que esse criador-­deus é abertamente chamado de ‘pai’. A psicanálise infere que realmente é o pai, com toda a magnificência em que, durante determinada época, ele aparecia para a criancinha. Um homem religioso imagina a criação do universo assim como imagina sua própria origem.

Vistas essas coisas, é fácil explicar o modo como garantias do consolo e rígidas normas éticas se combinam com uma cosmogonia. A mesma pessoa, à qual a criança deveu sua existência, o pai (ou, mais corretamente, sem dúvida, a instância parental composta do pai e da mãe), também protegeu e cuidou da criança em sua debilidade e desamparo, exposta como estava a todos os perigos que a esperavam no mundo externo; sob a proteção do pai, a criança sentiu-­se segura. Quando um ser humano se torna adulto, ele sabe, na verdade, que possui uma força maior, mas sua compreensão interna (insight) dos perigos da vida também se tornou maior, e com razão conclui que fundamentalmente ainda permanece tão desamparado e desprotegido como era na infância; ele sabe que, na sua confrontação com o mundo, ainda é uma criança. Mesmo agora, portanto, não pode prescindir da proteção que usufruía na infância. Também reconheceu, desde então, que seu pai é um ser que possui um poder muito limitado e não está dotado de todas as virtudes. Por esse motivo retorna à imagem mnêmica do pai, a quem, na infância, tanto supervalorizava. Exalta a imagem transformando-­a em divindade, e torna-­a contemporânea e real. A força afetiva dessa imagem mnêmica e a persistência de sua necessidade de proteção conjuntamente sustentam sua crença em Deus.

O terceiro item principal do programa religioso, a exigência ética, também se adapta facilmente a essa situação de infância. Posso lembrar aos senhores o famoso pronunciamento de Kant, no qual ele cita, de um fôlego só, os céus estrelados e as leis morais dentro de nós. Por mais estranha que possa soar essa justaposição – ­pois que têm a ver os corpos celestes com a questão de saber se uma criatura humana mata ou ama a outra? ­– ela toca numa grande verdade psicológica. O mesmo pai (ou instância parental) que deu a vida à criança e a protegeu contra os perigos, ensinou-­lhe também o que podia fazer e o que devia deixar de fazer, instruiu-­a no sentido de adaptar-­se a determinadas restrições em seus desejos instintuais e fé-­la compreender o respeito que devia ter para com os pais e os irmãos, se quisesse tornar-­se um membro tolerado e benquisto do círculo familiar e, posteriormente, de associações mais amplas. A criança é educada no sentido de conhecer os seus deveres sociais mediante um sistema de recompensas carinhosas e de punições; é-­lhe ensinado que sua segurança na vida depende de que seus pais (e, depois, de que outras pessoas) a amem e de que eles possam acreditar que a criança os ama. Todas essas relações são posteriormente introduzidas, inalteradas, pelo homem, na religião. A quantidade de proteção e de satisfação destinada a uma pessoa depende do seu cumprimento das exigências éticas; seu amor a Deus e sua consciência de ser amado por Deus são os fundamentos da segurança que adquire contra os perigos do mundo externo e do seu ambiente humano. Finalmente, pela prece assegura para si uma influência direta sobre a vontade divina, e com isto compartilha da onipotência divina. Estou seguro de que, enquanto os senhores estavam me ouvindo, foram molestados por numerosas questões que os senhores gostariam de ter ouvido já com respostas. Não posso empreender essa tarefa aqui e agora, mas confio em que nenhuma dessas indagações detalhadas viria a perturbar nossa tese segundo a qual a Weltanschauung religiosa é determinada pela situação de nossa infância. Com tudo isso, ainda se torna mais notável o fato de que, a despeito de sua natureza infantil, ela teve um precursor.

Semana que vem, apresentarei mais uma parte desse texto.

[1] Freud, S. (1976b). Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise: Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol.22). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1933 [1932])

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