Todos merecem outra(s) chance(s)

Retirado do site: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090726/not_imp408379,0.php

O personagem não poderia encontrar ator mais familiarizado com o tema. Washington Rimas, de 33 anos, não tem nenhuma experiência com a arte de representar. Mas bastou um teste para ganhar um dos papéis principais no episódio Concerto Para Violino, do filme Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos, escrito e dirigido por jovens de comunidades, com direção de Cacá Diegues.

Tanto talento tem explicação. Na ficção, Feijão – apelido que carrega desde menino – vai viver um traficante de drogas poderoso. Na vida real, por 11 anos ele controlou o tráfico na favela de Acari, zona norte do Rio. “Achei o papel fácil”, diz, na Favela de Vigário Geral, subúrbio carioca. “Foi só lembrar do passado.”

Feijão entrou na vida bandida aos 13 anos fazendo pequenos favores aos chefões. Comprava comida. Dava recado às namoradas. Em troca, ganhava balas, brinquedos. Foi subindo de posto até que, aos 19, assumiu o controle com a morte do chefe do lugar. Aos 30, não aguentava mais. Saiu com ajuda do controvertido pastor evangélico Marcos Pereira da Silva, com quem morou por três meses. “Mas não ia dar certo. Ele é evangélico, eu sou meio macumbeiro.”

Feijão só não voltou ao crime porque conheceu o AfroReggae. Há dois anos, ajuda a mediar conflitos com o tráfico nas favelas de Vigário Geral e Parada de Lucas, dominadas por sua ex-facção. “Estou vivo porque alguém me deu a mão e acreditou em mim.” Entrar no tráfico foi quase natural. “Quem nasce em favela já nasce envolvido. Desde pequeno a gente diz ‘não vi nada’, ‘não sei de nada’.” Filho de traficante e costureira, ele mal conheceu o pai, só estudou até a 6ª série e cansou de encontrar em casa apenas arroz com cebola para almoçar. “Sabe quem toma iogurte em favela? Só filho de bandido. Quando virei o cara, minha geladeira ficou estufada de iogurte.”

O começo no tráfico foi uma maravilha. É o que Feijão chama da fase do fascínio. “Tu fica dando tiro de fuzil igual ao Rambo, uma loucura.” Depois, vem a “embriaguez do sucesso”. “Andava pela favela cheio de cordão de ouro. Tinha carrão, moto, dinheiro, armário lotado de roupas da Nike, um monte de mulher bonita.” Mas aí chega a depressão. “Você quer sair e não sabe como. Não dormia dois dias no mesmo lugar. Tomava tiro de bandido que tentava invadir a favela e de polícia. Era uma vida infernal.” Cansou também de ver amigos morrerem e participar de matanças. “Matar eu nunca matei. Tinha gente para fazer isso.”

O inferno teve uma pausa em 2003, quando Feijão levou seu primeiro e único tiro. A bala entrou pela clavícula e saiu pelo abdome. Ele sangrou de manhã até a noite, desesperado de medo, achando que ia morrer. Foi socorrido ali mesmo na favela por um médico. Após dois meses escondido no interior, foi dar um tempo em Salvador. E se encantou com a capital baiana, onde comprou quatro táxis, casa em condomínio chique e, de longe, continuou dando as ordens em Acari. “Lá, preto é doutor. No Rio, preto dirigindo Audi toma tapa na cara de polícia.” Era uma vida quase normal, interrompida por viagens ao Rio para botar ordem na casa.

Em 2006, foi preso acusado de comprar fuzil roubado do Exército. “Fiz muita coisa errada. Mas nessa eu era inocente.” Passou um mês no presídio. Foi absolvido por falta de provas.

Quando saiu da prisão, tinha perdido o controle da favela. Ainda tentou se armar para retomar o ponto, mas foi convencido pelo pastor Marcos que valia a pena mudar de vida. “Mas como sobreviver se tudo o que eu sabia era vender droga?” Foi salvo pelos argumentos de José Júnior, do AfroReggae. “Se quer largar, vem trabalhar comigo.” Feijão foi. E agora ajuda quem quer sair do tráfico. “Só neste ano já encaminhei 70 meninos a outros empregos.”

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