Arquivo da categoria: Humanismo

When a person loves a person

Eu já escrevi uma porrada de textos abordando a questão dos direitos dos homossexuais (na verdade, hoje em dia eu prefiro dizer direitos dos “não-heterossexuais”). Obviamente não faz o menor sentido repetir aqui tudo o que já escrevi sobre o assunto, mas faço questão de deixar uma amostra de alguns links para quem quiser dar uma lida (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Esta semana chegou a mim, por meio do site do qual orgulhosamente faço parte, uma história que ilustra uma situação que poderia ser apenas uma pálida memória de tempos primitivos de uma comunidade ignorante, mas que infelizmente persiste em grande parte daquilo o que convencionamos chamar de “civilização moderna”.

Refiro-me ao vídeo abaixo:

Assistiu o vídeo todo?

Se a resposta foi sim, ótimo, continue a leitura.

Se a resposta foi não, recomendo que faça um pequeno “esforço” e veja até o fim. Se por algum motivo você começou a ver e achou que não vale a pena assistir, recomendo que vá plantar batatas :-)

O argumento principal da reflexão é o seguinte: imagine que fosse com você. Só isso. Tente, apenas por uns poucos minutos, imaginar que a situação ocorrida com esse casal estivesse acontecendo neste exato momento em sua vida. E aqui pouco importa se é homem+homem, homem+mulher, mulher+mulher, ou qualquer outra combinação possível.

E então, como você se sentiria?

“E se uma tragédia atingisse aquele quem você mais ama?”

E se você tivesse um “Tom” em sua vida?

Apenas tente se imaginar na pele de Shane, autor do vídeo original.

Se ainda assim você achar que as vantagens da legalidades devem recair apenas sobre unidades familiares formadas por homem+mulher, sinto muito, mas não posso deixar de dizer que sinto o mais profundo desprezo por sua opinião.

Na internet todo mundo tem voz

Recentemente apareceu um vídeo no youtube que tem se tornado famoso na internet. É o pedido de ajuda de um rapaz que teve o rosto mutilado devido a um câncer. Como ele ainda não conseguiu acesso ao tratamento de reconstrução de face, ele veio a este meio realmente democrático, veículo de uma verdadeira revolução, onde todos podem ter voz (sim, refiro-me à única entidade conhecida pela humanidade que é verdadeiramente onipresente: a internet), para pedir ajuda. (depois dos vídeos tem um recadinho meu).

Abaixo o vídeo do Oziel:

E a seguir apresento alguns vídeos de apoio ao Oziel de alguns canais do youtube no qual estou inscrito.

Vídeos do Canal “Eu, Ateu” do Yuri Grecco:

Vídeo do Canal “bematematica” do Bernardo:

Novo vídeo do Oziel no canal “feelipez”:

Quem quiser mais informações e quer saber como pode contribuir, o site oficial é: http://www.ajudeoziel.org/

Esse é apenas mais um exemplo de como a internet pode, efetivamente, mudar a vida das pessoas. Enquanto há pessoas que ainda resistem e que acham que a internet pode isolar as pessoas e diminuir o contato interpessoal, eu já acho justamente o contrário. Enquanto há alguns anos atrás pessoas como o Oziel, e outros casos similares, ficariam reféns de organizações beneficentes ou de conseguirem (talvez sem sucesso) o tratamento nos sistemas privado ou público de saúde, ou talvez teriam acesso à “bondade” de algum aproveitador, ops, apresentador de algum programa de TV em busca de audiência, hoje em dia as pessoas podem procurar ajuda por conta própria. Atualmente a rede de contatos de cada um de nós cresceu estonteantemente, e isso, acho eu, ninguém pode negar que seja algo de ruim.

E, quem sabe, como disse o Yuri no primeiro vídeo dele, toda essa movimentação na internet consiga levar o caso do Oziel para alguns aprove…, ops, apresentador de TV, ou alguma grande corporação, ou outra instância qualquer, que possam ajudar financeiramente o Oziel. É exatamente como disse o Yuri: talvez consigamos pautar a mídia, ao invés de ela nos pautar.

STF julgará direito à interrupção da gestação de fetos anencéfalos

Após vários anos de debates, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar nesta quarta-feira, 11/04/2012, a Ação por Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 54/DF) ajuizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde, que pretende autorizar a interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, se essa for a vontade da gestante.

É bom que fique claro uma coisa: nenhuma mulher será obrigada a interromper uma gravidez caso se constate que o feto é anencéfalo (por incrível que pareça tem gente por aí que acha que a interrupção dessas gestações seria obrigatória, o que obviamente não é o caso).

Outra coisa importante de ser dita é que não há expectativa considerável de vida em casos de anencefalia, já escrevi sobre isso em um texto anterior (o qual recomendo a leitura), chamando a atenção para o atual consenso científico que sustenta que ocorrerá a morte fetal, o parto de um natimorto, ou a morte neonatal em praticamente todos os casos.

Um outro texto interessante que eu também publiquei aqui (leitura também recomendada) foi o discurso do ex-Ministro Da Saúde, José Gomes Temporão, proferido em 04/09/2009 em uma audiência pública no STF. Temporão afirmou que é possível “assegurar o diagnóstico da anencefalia pela incorporação de tecnologias por imagem como a ecografia“, além de esclarecer que “o SUS tem plenas condições de oferecer, e oferece, diagnóstico seguro às mulheres durante o pré-natal. A imagem ecográfica é clara em diagnosticar um feto com anencefalia. Na medicina fetal, há duas certezas no diagnóstico por imagem: o óbito fetal e a anencefalia.

Um texto recente do Blogueiras Feministas traz um resumo bem completo da história dessa ação no STF; vale a pena dar uma lida para estar por dentro do assunto.

Recomendo ainda os vídeos sobre esse tema disponíveis no site Estação Saúde, mantido por Dr. Drauzio Varella (valem muito a pena, em especial os vídeos da entrevista com Thomaz Gollop, médico e professor de Ginecologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí).

Por fim, deixo abaixo um vídeo da série “Saiba Mais” do canal do STF no youtube.

Casamento civil é (ou deveria ser) para todos/as

Vamos deixar uma coisa bem clara: que se danem as celebrações religiosas de casamentos. Estas somente importam dentro de cada sistema de crenças, tendo valor inexistente para o restante da sociedade que não aderem a determinada religião.

O que eu quero dizer com isso é o seguinte: se você resolveu casar no religioso, faça bom proveito. Curta bastante. Aproveite. Mas não queira que outras pessoas tenham o mesmo desejo que você. Simples assim. Parece bobagem falar isso, mas logo abaixo ficará explicado por que iniciei este texto metendo o pé na porta.

Na semana que passou foi noticiado o primeiro casamento civil entre pessoas do mesmo sexo do estado de Minas Gerais, ocorrido no município de Manhuaçu (aproximadamente 80 mil habitantes), a 278 quilômetros da capital, Belo Horizonte. A exemplo desse, já se contam 10 casamentos homoafetivos no Brasil, cujos casais tiveram que recorrer à Justiça para casar diretamente no Cartório de Registro Civil, sem passar pela união civil estável.

Os noivos, caso desejassem, poderiam ter assinado a união civil estável homoafetiva num Cartório de Notas, conforme reconheceu o Supremo Tribunal Federal (STF), em 5 de maio de 2011, e depois fazer a conversão para o casamento civil, mas preferiram encurtar o caminho com uma ação judicial. Agora, já têm a certidão de casamento lavrada no Cartório de Registro Civil. No papel, no lugar de solteiro, está escrito casado (se você é daqueles que acham que a conquista do direito à união estável já está bom demais, recomendo que pesquise um pouco sobre as diferenças entre as modalidades; pode começar por este texto).

Destaco parte da argumentação do magistrado que julgou o caso. Segundo o  juiz Walteir José da Silva, “Se a lei permite a conversão de união heterossexual estável em casamento e o casamento direto entre heterossexuais, se não permitíssemos o mesmo para homossexuais, estaríamos tratando de forma diferente situações idênticas”. Declaração simples, objetiva, clara e sensata.

Agora, esclareço por que escolhi iniciar este texto com as palavras que constam nos dois primeiros parágrafos. O veículo de imprensa de onde tirei a notícia deste post resolveu ouvir um padre da cidade, e eis a declaração dele: “A notícia me pegou de surpresa. Isso não é casamento, é um contrato civil. Desde o início, é normal somente que homem e mulher se unam. O Estado é laico e tem suas leis, mas a Igreja só reconhece o sacramento do matrimônio entre pessoas de sexos diferentes”.

Bom, não é difícil perceber a ignorância e a contradição presentes no comentário do tal padre.

Ignorância porque ele diz que “Isso não é casamento, é um contrato civil.” Ora, claro que é um casamento. Basta ver a decisão do juiz. O padre em questão pode espernear à vontade; não vai mudar o fato de que o que aconteceu nesse caso (e em alguns outros já acontecidos e que ainda acontecerão) foi um casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo.

Contradição porque o mesmo admite expressamente que “o Estado é laico e tem suas leis”. Ótimo, nisso ele está certíssimo. Depois ele afirma que “a Igreja só reconhece o sacramento do matrimônio entre pessoas de sexos diferentes”; aí, eu me pergunto: e quem disse o contrário disso? Por acaso alguém está querendo obrigar “a Igreja” (claro que na habitual presunção católica, o sacerdote somente reconhece como “Igreja” a denominação da qual ele é parte) a aceitar que duas pessoas do mesmo sexo se unam no sacramento do matrimônio? Ninguém quer propor isso (o Estado não regula sacramentos das religiões), portanto, essa declaração é tão pertinente quanto o latido de um cachorro que estivesse passando na rua no momento da entrevista.

Por fim, aproveito o tema para divulgar o site oficial em apoio à campanha do Casamento Civil Igualitário para todos/as (http://casamentociviligualitario.com.br/). O objetivo dessa campanha é reunir apoiadores ao texto da Proposta de Emenda à Constituição, iniciativa do Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que pretende ampliar a quaisquer pessoas o direito de celebrar o casamento civil em qualquer cartório, sem a necessidade de buscar caminhos jurídicos para alcançarem tal desejo.

Reflexões na poesia do Pink Floyd #11

“Us, and them
And after all we’re only ordinary men.”

Música: Us and Them

Álbum: The Dark Side of the Moon

Por mais que algumas pessoas insistam em querer se diferenciar das outras, por mais que alguns seres humanos tentam parecer mais importantes do que outros, no fim ninguém escapa do fato de que todos nós temos muito pouco de diferentes.

Somos todos comuns.

Embora ainda tenhamos um caminho relativamente longo a percorrer na busca por sociedades mais igualitárias, não podemos desanimar e deixar a peteca cair; e uma grande aliada nessa luta (provavelmente a mais importante) é a educação. Não me refiro apenas à educação formal, aquela da escola; refiro-me também ao conhecimento adquirido nas ruas, nos livros, na TV, no rádio, no cinema, nas revistas, nos jornais, etc. Conhecimento que permita a qualquer um de nós perceber que não importa se somos destros ou canhotos, se temos olhos azuis ou castanhos, se somos negros ou brancos (e todos os outros matizes no meio), se somos religiosos ou descrentes, se somos heteros ou não-heteros, se somos homens ou mulheres, se somos novos ou idosos, todos somos pessoas comuns e todos deveríamos ter acesso aos mesmos direitos e às mesmas oportunidades.

Infelizmente, ao contrário do que muitos pensam, estamos bem longe disso ainda.

Direito ao Aborto: passos à frente, mas não muito.

Reunião da Comissão de Juristas para elaboração do anteprojeto do novo Código Penal. Grupos contra a ampliação do direito ao aborto protestam ao fundo.

Como todos sabemos, atualmente o aborto é crime no Brasil (embora desconheça notícias de pessoas presas pela prática), exceto em duas situações específicas descritas no Código Penal: gravidez resultante de estupro (caso seja vontade da mulher) e no caso de não haver outro meio para salvar a vida da gestante.

Uma comissão de juristas instituída pela presidência do Senado para elaborar o anteprojeto do novo Código Penal vem discutindo a ampliação dos casos em que a lei brasileira não punirá o aborto. Ressalte-se que não se trata ainda da descriminalização ou da legalização da prática, mas tão somente da ampliação dos casos em que a mulher pode optar pelo aborto de forma legal.

Conforme disse o relator-geral da comissão, o procurador Luiz Carlos Gonçalves:

“Há setores que defendem a descriminalização do aborto e há setores que defendem a permanência do texto atual. Estes segmentos são dignos de respeito. Puderam trazer seus pontos de vista. Todos foram ouvidos. A solução que encontramos foi a intermediária. Aborto permanece crime. O que fizermos, porém foi permitir que não o seja em algumas situações”

Dessa forma, a comissão proporá cinco outras possibilidades:

- quando a mulher for vítima de inseminação artificial com a qual não tenha concordância;

- quando o feto estiver irremediavelmente condenado por anencefalia e outras doenças físicas e mentais graves;

- quando houver risco à vida ou à saúde da gestante;

- por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação (terceiro mês), quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições de arcar com a maternidade.

Vê-se, portanto, que caso tal reforma no Código Penal se confirme, haverá avanços importantes na conquista desse direito das mulheres. Todavia, quero me deter no último ponto destacado acima.

Eu posiciono-me a favor de uma legislação que siga àquelas em vigor nos Estados Unidos, Canadá e a maioria dos países europeus, ou seja, o direito ao aborto deveria ser garantido a qualquer mulher que assim desejasse até a 12ª semana de gravidez. Por isso, vejo um problema complicado na proposta do novo Código Penal, que reside na necessidade de “o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições de arcar com a maternidade”.

Ou seja, dá-se com uma mão, mas tira-se com a outra, uma vez que a decisão final continuaria fora do âmbito da pessoa mais interessada: a mulher.

Para mim, todo esse cuidado em agradar aqueles que se colocam contra o direito irrestrito ao aborto parece, de certa forma, bem hipócrita. Não me refiro àqueles que se colocam contra o direito ao aborto sob quaisquer circunstâncias (inclusive nas atualmente permitidas), pois estes estão, ao menos, sendo coerentes ao serem contra todos os abortos provocados.

Todavia, aqueles que são a favor da lei como está ou aqueles que se posicionarão a favor do novo texto talvez não tenham parado para analisar mais detidamente uma incoerência: como ser a favor do direito ao aborto em alguns casos e não o ser em outros? Afinal, estamos falando sobre o direito das mulheres sobre embriões; e estes têm, basicamente, as mesmas características, tenha sido gerado por um estupro ou por sexo consensual, seja fruto de sexo sem proteção ou falha de métodos anticoncepcionais, e assim por diante. Gravidez indesejada é gravidez indesejada, e deveria caber às mulheres a decisão de prosseguir com ela ou não. Colocar nas mãos de um profissional (médico ou psicólogo) a decisão de se a gestante tem ou não condições de arcar com a maternidade mantém o alijamento dos direitos reprodutivos das mulheres. Além de este ser um conceito bem frouxo, pois quem decidirá o que é ter condições de ser mãe ou não?

Ressalte-se ainda a histórica diferença de acesso a serviços de saúde entre aquelas que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde – SUS, as usuárias de planos de saúde e as que podem custear consultas e tratamentos particulares. Corre-se o risco de continuarmos na mesma lógica atual, mulheres com melhores condições econômicas tendo acesso relativamente fácil a profissionais (e seus laudos) e estabelecimentos de saúde para realizarem abortos de forma segura e supervisionada, enquanto uma parte considerável da população feminina continuará (pela falta de acesso ou por ineficiência do sistema de saúde), em muitos casos, precisando recorrer a métodos inseguros e profissionais e clínicas clandestinos.

Como bem escreveu o Daniel Martins de Barros em sua coluna no Estadão, “ou bem a pergunta sobre “condições psicológicas” não deve ser feita ou bem só quem pode respondê-la é a própria mulher.“.

Parece-me que mesmo na redação atual do Código Penal, assim como na proposta da nova legislação, o Estado brasileiro já reconhece que a mulher é mais importante que o embrião, tanto que nas situações permitidas a vontade da mulher (como no caso do estupro) ou suas necessidades (como no caso de risco à sua vida) são soberanas sobre o embrião em formação; assim, por que não deixar a hipocrisia de lado e avançar de forma mais efetiva?

Fica a pergunta para reflexão.

A forma das críticas

Ultimamente tenho visto algumas discussões, e até desentendimentos, acerca do tom utilizado por algumas pessoas ao criticarem certos aspectos das religiões. Resolvi registrar alguns pensamentos sobre isso.

Antes de qualquer coisa quero deixar bem claro que considero que tudo e todos podem (e às vezes devem) ser criticados quando pertinente. Não acho que deva haver barreiras de proteção a nada e nem a ninguém, e obviamente que aí estão incluídos as religiões e os líderes religiosos, assim como também estão incluídos aqueles que não professam qualquer religião. Importante ressaltar, ainda, que se qualquer crítica é válida, também são válidas as “críticas às críticas”, as réplicas, as tréplicas, e assim por diante.

Isso posto, passo ao cerne central da minha opinião: a forma a ser utilizada.

Eu, particularmente, não tenho qualquer problema com sátiras, piadas, tiração de sarro e coisas do tipo; certamente algumas situações me incomodam um pouco, principalmente quando há alguns claros preconceitos implícitos (por exemplo, piadinhas de cunho homofóbico ou racista entre torcidas de futebol), mas estou bem longe de querer cercear a imbecilidade alheia.

Porém, há pessoas que ficam só nisso. Já não tenho mais qualquer paciência para aqueles que têm nas piadinhas e nos xingamentos o seu auge da capacidade de crítica. Não que eu ache que estes devam parar, só me dou ao direito de não ficar prestando a atenção (ou compartilhando efusivamente) nesse tipo de coisa que, convenhamos, talvez só prejudique ao invés de ajudar a busca por uma sociedade mais secularizada e por um Estado laico de fato, uma vez que pode acabar provocando ondas de reação raivosa por parte de setores religiosos, além de propiciar, por algum tipo de identificação de grupos, a “surdez” das pessoas religiosas para os argumentos daqueles que militam a favor da laicidade estatal e do secularismo. (claro que não posso dizer que nunca fiz isso, ou até que não faço de vez em quando, mas tenho procurado melhorar minha atuação nesse aspecto)

Embora possa ser até saudável uma ou outra piadinha feita com alguns dos absurdos propagados pelas religiões ou algumas atitudes e ideias de certos grupos ou líderes religiosos, ficar nisso demonstra, em minha opinião, apenas imaturidade e/ou falta de bons argumentos. No caso de xingamentos gratuitos então nem se fala; estes têm tanta profundidade e solidez quanto um pires de papel.

Se a intenção for abrir os olhos das pessoas para as falsidades forjadas ao longo dos anos pelas religiões, acredito que as sátiras e os xingamentos tenham tanta eficiência nessa tarefa quanto teriam se objetivassem “converter” um cruzeirense em atleticano (e vice-versa). Muito mais interessante é tentar argumentar de forma racional e lógica (mesmo que de forma ácida, sarcástica ou irônica, por exemplo), buscando despertar em quem nos está lendo aquela fagulha de dúvida que iniciou o processo de libertação das crenças religiosas pelo qual muitos de nós já passamos.

Reflexões na poesia do Pink Floyd #7

“Hey you

Don’t tell me there’s no hope at all

Together we stand, divided we fall”

Música: Hey You

Álbum: The Wall

Por mais que seja tentador tocar o foda-se pro mundo, tendo em vista toda as variedades de atrocidades que vemos dia a dia na TV, nos jornais, nas revistas e na internet, eu acho que ainda há esperança.

Confesso que não é uma esperança muito grande, certamente eu não acredito que vá viver em um mundo muito melhor do que o atual. A geração atual (e quem sabe mais umas três ou quatro pra frente) terá que se contentar a fazer de tudo para ao menos tentar construir as bases para que as sociedades futuras sejam menos desiguais e mais tolerantes.

Recentemente, Steven Pinker argumentou que, mesmo com todos os problemas,  o mundo nunca foi um lugar tão seguro para viver. Por meio de estimativas e dados estatísticos, Pinker pretende desconstruir a noção de que o século XX foi o mais violento da história, descartando-a como um erro de percepção. Segundo ele,

As estimativas que temos sobre as mortes nos séculos anteriores, quando calculadas como uma proporção da população mundial daquele período, mostram que pelo menos nove atrocidades anteriores ao século XX parecem ser bem piores que a Segunda Guerra Mundial. Estamos falando do colapso de impérios, das invasões de tribos montadas, do tráfego de escravos e da aniquilação de povos nativos com inspiração religiosa. Nessa lista, a Primeira Guerra Mundial nem está entre os dez eventos de maior mortalidade da história.

Todavia, Pinker chama a atenção para um problema no final da entrevista concedida à Revista Veja. De acordo com ele,

a violência deva aumentar no futuro próximo. A história mostra que mudanças culturais e sociais, crises econômicas, novas ideologias e tecnologias podem incitar guerras, conflitos, rebeliões e enfurecer determinados grupos sociais. Mas sou otimista em relação ao fortalecimento dos períodos de paz depois de surtos de violência extrema. Os períodos de paz tendem a ser cada vez mais longos e duradouros.

Diante disso, vem à minha mente a reflexão dos versos que iniciam este post. Cabe apenas a nós, Homo sapiens, garantir a viabilidade do nosso futuro, que como já argumentei em um dos meus textos mais antigos, está mais sujeito a sofrer as consequências de seus própios atos do que o restante da natureza.

Há esperança, entretanto, faz-se necessária a união. Juntos, nós nos mantemos de pé; divididos, cairemos.

Inegociável deveria ser a liberdade das mulheres sobre seus corpos

Recentemente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)  enviou uma carta à Presidenta da República criticando a posição da nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, que, no passado, defendera publicamente a ampliação dos casos em que o aborto seja praticado de forma legal.

Obviamente, a CNBB está em seu direito de se manifestar sobre um assunto que considere importante, e como todos sabemos a posição oficial da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) é clara sobre esse assunto: posiciona-se contra qualquer ampliação dos casos em que o aborto é permitido no Brasil. Há até setores que defendem que os casos atualmente legalizados sejam criminalizados (gravidez decorrente de estupro e se não há outro meio de salvar a vida da gestante). Todavia, uma declaração do presidente da CNBB, Raymundo Damasceno Assis, chamou-me a atenção. Após reafirmar que sua igreja “defende sempre a vida”, a qual ele entende como sendo desde a concepção até a morte “natural”, ele declarou que essa é “uma questão inegociável”.

Essa declaração do representante da ICAR é, se analisada atentamente, um verdadeiro acinte à laicidade do Estado brasileiro. Em um Estado laico, como deveria ser o Brasil, política e religião não deveriam se misturar. O Estado não se intromete nas religiões, garantindo a autonomia, a liberdade de crença, culto e posicionamento filosófico, o que faz-se muito bem no Brasil, por sinal. E em contrapartida as instituições religiosas não deveriam interferir nas políticas públicas, entretanto infelizmente não é isso o que vemos em temas como a legalização do aborto, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e outros. O que dom Raymundo parece não perceber ao declarar que a “defesa da vida” por parte de sua igreja é “inegociável” é que, na verdade, a ICAR ou qualquer outra denominação religiosa, como as dezenas de igrejas evangélicas que detém hoje um considerável poder político, sequer deveriam achar que têm o direito de “negociar” qualquer coisa no que se refere a decisões de políticas públicas. Se o Estado é constitucionalmente separado das religiões, um não interfere no quadrado do outro. Simples assim.

Vejam bem, ninguém quer obrigar ninguém a ser a favor da legalização do aborto em quaisquer casos que a mulher decida e, claro, até uma determinada idade gestacional, por exemplo, 12 semanas, se formos considerar a legislação de outros países socialmente mais desenvolvidos. A ICAR e as dezenas de igrejas evangélicas, bem como suas ovelhas, continuarão com seu direito inegociável (aí sim a palavra fica bem aplicada) de serem oficialmente contra. O que estas não podem (ou não poderiam) fazer é querer impor as suas crenças ao total da população do país.

Ademais, ressalte-se que essa posição oficial da ICAR e de outras igrejas cristãs passa longe da realidade de uma parte dos seus fiéis. Dou como exemplo a corajosa ONG Católicas pelo Direito de Decidir e a ampla pesquisa realizada pela Universidade de Brasília, a qual constatou que das mulheres pesquisadas que abortaram, 88% tinham alguma religião, sendo que 65% eram católicas e 25% eram protestantes.

O título deste texto é um pequeno recado aos representantes das religiões que, infelizmente, têm conquistado um poder político que põe em risco a incipiente e capenga laicidade do Estado brasileiro: Inegociável são a liberdade e autonomia totais das mulheres sobre os seus corpos.

Fontes:

Estadão

Católicas pelo Direito de Decidir

UnB Agência

Reflexões na poesia do Pink Floyd #4

“Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me.”

Música: Echoes

Álbum: Meddle

Essa música inteira é uma grande peça de mais de 20 minutos que eu adoro ouvir e reouvir. A melodia me arrepia e cada verso, cada palavra me toca profundamente.

Esse trecho em especial é um pequeno exemplo de como funciona uma das características mais extraordinária de nós, seres humanos: a Empatia. E isso não é uma interpretação apenas minha, o próprio autor da letra, Roger Waters, falou isso em um documentário sobre a construção do álbum “The Dark Side of the Moon”, dizendo que a ideia de empatia contida nesses versos da música Echoes fizeram parte do início do desenvolvimento do álbum mais famoso da banda (trechos dessa entrevista também estão disponíveis no livro “Pink Floyd e a Filosofia”, de George A. Reish).

E quer coisa mais empática do que “eu sou você e o que eu vejo sou eu”.