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Em busca do “invisível”

Um dos capítulos (mais especificamente, o capítulo 3) do livro “Filosofia da Ciência”[1] de Rubem Alves desenvolve uma ideia central que, inclusive, encontra-se contida em seu próprio título: a ciência está em busca de ordem. O autor vai além e argumenta que não existe vida ou comportamento inteligente sem ordem, sendo esta uma exigência para nossa sobrevivência e, portanto, nada mais natural que a ciência busque desvendar qual é essa ordem.

Essa busca é parte do desejo do ser humano em conhecer como o mundo funciona (ordem), o qual por sua vez se enquadra em um caldo dos mais diversos desejos a que todos nós estamos sujeitos. Todavia, questiona Rubem Alves, qual a diferença entre a ordem científica e a ordem do senso comum? Uma seria mais lógica ou mais absurda do que a outra? Esses conceitos (lógico e absurdo) não seriam dependentes das nossas próprias concepções do que é absurdo ou não, as quais estariam necessariamente ligadas a nossas capacidades de perceber o mundo? A Terra estar parada no espaço seria, dependendo do ponto de vista, mais absurdo do que o fato de que ela gira a uma velocidade estonteante e continuamos todos com os pés colados no chão? Como nos livrar das limitações de nossas experiências a fim de entender o que se passa lá fora?

Isso posto, Rubem Alves argumenta que os cientistas estariam em busca do “invisível”, caçando uma ordem que eles não sabem qual é, de forma a tentarem encontrar uma descrição que, para além das aparências, se encaixe na tentativa de explicar como tudo funciona.

Nessa complexa busca os cientistas procuram, por meio da coleta de dados, confirmarem ou refutarem teorias construídas a partir do que esses próprios dados indicam. Todo esse esforço dá origem a modelos que têm o objetivo de serem descrições inteligíveis da realidade, embora não possamos ver diretamente como a realidade é. Tais modelos têm a característica de serem declarados verdadeiros caso funcionem, embora persista o problema de não sabermos, necessariamente, se eles descrevem exatamente a realidade. Dessa forma, os modelos criados seriam construções intelectuais baseadas no pressuposto de que é possível fazer uma relação de analogia entre o que conhecemos e o que desejamos conhecer. Ademais, é importante que essa analogia funcione. Modelos e teorias que não nos fornecem soluções para os problemas levantados ou que têm que ser extensa e artificialmente remendados para manterem sua validade simplesmente não nos servem.

Diante do que Rubem Alves levanta neste capítulo 3, entendo que uma das funções principais (e para mim mais interessantes) da ciência é justamente essa incessante busca pela ordem “invisível”. Acredito que há uma realidade objetiva independente e autoconsistente; entretanto, tal qual um peixe que vive em um aquário redondo, estamos limitados por nossos sentidos e por nosso intelecto (e suas extensões tecnológicas), o que provavelmente nos restringirá por ainda muito tempo à busca de teorias e modelos que funcionem (sem que estes reflitam exatamente a realidade), revisando e/ou substituindo tais descrições sempre que necessário diante de novos acúmulos de conhecimento. A meu ver o exemplo do peixe é uma ótima analogia: da mesma forma como ele pode, a partir de observações de como objetos se comportam diante de sua visão, descrever o mundo externo a ele de uma maneira que funcionará perfeitamente para ele, inclusive sendo possíveis fazer previsões consistentes sobre a forma e o movimento de corpos, não é difícil perceber que suas teorias, modelos e equações valerão apenas para a realidade de quem vive dentro um aquário redondo cheio de água. Analogamente, a nossa capacidade de descrever de forma inequívoca uma realidade objetiva está limitada ao fato de estarmos inseridos dentro dessa realidade. Não me arriscaria a dizer que não há brechas nessa prisão a serem abertas futuramente, mas mantenho-me cético quanto a isso. Penso que estamos, pelo menos por um bom tempo, presos a um realismo dependente de modelos[2], o que não necessariamente é algo ruim ou desanimador, desde que tais modelos funcionem cada vez melhor.


[1] Capítulo 3 – “Em busca de ordem” do livro “Filosofia da Ciência”, de Rubem Alves.

[2] Retirei a analogia do peixe e a ideia de realismo dependente de modelos do livro The Grand Design [O Grande Projeto], escrito pelos físicos Stephen Hawking e Leonard Mlodinow.

Financiamento de curso de Homeopatia pela SES-MG

Texto também publicado no site do Desafio 10:23

Uma coisa que os defensores da homeopatia insistem em ignorar é que essa prática, pelo menos no que se refere ao uso de substâncias ultra-mega-hiper-diluídas, não é capaz de passar em testes científicos rigorosos. No blog do Desafio 10:23 foram publicados diversos textos embasando a ineficácia da homeopatia.

Todavia, infelizmente, não são apenas os praticantes da homeopatia que se negam a aceitar as evidências. Conselhos de classe são igualmente surdos para isso (em especial os de medicina, medicina veterinária, farmácia e odontologia). Gestores do Sistema Único de Saúde também se negam a aceitar as evidências científicas, haja vista a publicação, em 2006, de uma portaria do Ministério da Saúde que regulamenta essa prática (dentre outras) no SUS. E agora acabo de ver uma publicação no Diário Oficial do Estado de Minas Gerais que parte da mesma ignorância científica (Deliberação CIB-SUS/MG nº 1.113/2012).

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) irá financiar um curso à distância denominado “Introdução à Homeopatia”, destinado a médicos, cirurgiões-dentistas, farmacêuticos e médicos veterinários do SUS-MG, com o objetivo principal de apresentar “as concepções da homeopatia e suas aplicações nas diversas áreas, contribuindo para a implementação da Política Estadual de Práticas Integrativas e Complementares no estado de Minas Gerais”. Segundo o projeto do curso, a previsão do custo é R$ 212.792,06 mais o curso de capacitação de tutores de R$ 20.818,75, totalizando R$ 233.610,81.

Chamou-me a atenção também um dos objetivos específicos do curso: “Promover discussão sobre a cientificidade da homeopatia.” (grifo meu). Ora, se fosse para discutir a suposta “cientificidade da homeopatia”, o curso terminaria logo no primeiro dia com a apresentação das fartas evidências que refutam tanto os pressupostos da prática como os seus supostos efeitos.

Infelizmente os praticantes da homeopatia se agarram a uma suposta eficácia comprovada pela “experiência clínica”. Todavia, como confirmar essa suposta eficácia se quando submetidos a condições controladas não se consegue diferenciá-la do efeito placebo, ou se os pacientes continuam mantendo tratamentos tradicionais concomitantemente (até por reconhecimento de homeopatas de que sua prática seria “complementar” e suspender de imediato os tratamentos convencionais poderia trazer conseqüências indesejáveis e até perigosas), o que torna meio complicado afirmar se a causa de uma eventual melhora se deve à homeopatia ou à continuidade do tratamento convencional, ou até se muitas doenças simplesmente desapareceriam ao seguir seu curso natural (afinal, todos temos sistema imunológico, e para muitos agravos só ele nos basta).

Um estudo muito citado por aqueles que se opõem ao uso e, em especial, ao financiamento público de práticas homeopáticas é a revisão publicada na The Lancet em 2005, a qual identificou que preparados homeopáticos não difeririam de placebos. Obviamente este não é o único e nem o mais recente. Por exemplo, um posto do blog RNAm traz mais duas referências importantes:

Renckens, C. (2009). A Dutch View of the ”Science” of CAM 1986–2003 Evaluation & the Health Professions, 32 (4), 431-450 DOI: 10.1177/0163278709346815: Avaliação do governo holandês sobre o subsídio de medicinas alternativas no período entre 1986 e 2003. Os poucos resultados satisfatórios foram atribuídos a pobres metodologias de análise como a falta de grupos-controle tratados com placebo. Alguns estudos relataram resultados negativos. Esses dados culminaram na suspensão da verba governamental destinada a práticas complementares.

Nuhn, T., Lüdtke, R., & Geraedts, M. (2010). Placebo effect sizes in homeopathic compared to conventional drugs – a systematic review of randomised controlled trials Homeopathy, 99 (1), 76-82 DOI: 10.1016/j.homp.2009.11.002: Esse estudo derrubou a hipótese de que os ensaios testando a validade clínica da homeopatia falhavam por apresentarem grupos-controle tratados com placebo que retornavam efeitos maiores dos observados em ensaios clínicos alopáticos. A conclusão foi de que os grupos-controle tratados com placebo dos ensaios homeopáticos não demonstraram efeitos maiores dos observados na medicina convencional.

Posso citar também um artigo publicado no The Guardian, no qual se lê: “Over a dozen systematic reviews of homeopathy have been published. Almost uniformly, they come to the conclusion that homeopathic remedies are not different from placebo.” (Tradução livre: “Mais de uma dúzia de revisões sistemáticas de homeopatia foram publicadas. Quase uniformemente, elas chegaram à conclusão que remédios homeopáticos não são diferentes de placebo”).

Enfim, essa foi mais uma conquista dessa pseudociência que vem cada vez mais ganhando espaço no nosso sistema público de saúde, a despeito das evidências de sua ineficácia.

Ressurreição, um mito

Recentemente, no último dia 11 de abril, o colega André Tadeu de Oliviera publicou na coluna Advocati Fidei do Bule Voador um interessante texto de Alister McGrath em que este expõe a interpretação do teólogo luterano Rudolf Bultmann acerca da suposta ressurreição do personagem Jesus, evento que teria dado origem àquela data amada por todos os que, de alguma forma, dependem da indústria do chocolate.

Pretendo neste pequeno texto fazer algumas considerações que passaram pela minha cabeça.

André Tadeu, em sua introdução ao texto, apresenta uma frase que merece destaque:

“Como dogma central do cristianismo, é correto afirmar que sem a ressurreição a religião baseada nas tradições sobre o nazareno perde completamente seu sentido.”

Imagino que quase todo mundo concordaria com esse trecho. Parece-me que para os cristãos o retorno de seu messias dos mortos seria o que há de mais milagroso em toda a fábula criada em torno da vida de Jesus de Nazaré. Mesmo que se ignore qualquer outra das histórias existentes no Novo Testamento, tal evento configuraria algo certamente extraordinário e digno de devoção.

Pois bem, eis que no texto publicado na íntegra por André Tadeu, Alister McGrath apresenta alguns pontos muito interessantes, os quais reproduzirei abaixo:

“Bultmann compartilhava a convicção básica de Strauss de que, nessa era científica, era impossível acreditar em milagres. Por conseguinte, a crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo não mais era possível;”

“A crença na ressurreição de Jesus como um fato objetivo, embora fosse algo perfeitamente inteligível e legítimo no contexto do século I, não podia ser levado a sério nos dias atuais. “ É impossível usar a luz elétrica e o rádio ou, quando doente, recorrer ao auxílio da medicina ou das  descobertas científicas e, ao mesmo tempo, acreditar no mundo de espíritos e milagres apresentados pelo Novo Testamento”, afirmou Bultmann.”

“a ressurreição deveria ser considerada como um “mito, puro e simples”.

Obviamente, ateu como sou, não teria como eu discordar dessas frases. Imagino que para qualquer um que, assim como eu, vê os livros da Bíblia apenas como coleções de contos mitológicos e fantásticos, esses trechos destacados fazem todo sentido, evidenciando a sensatez da interpretação de Bultmann. E no lado diametralmente oposto, aqueles que tomam a Bíblia como uma obra a ser entendida de forma completamente literal (ou parcialmente, o que, felizmente, é uma característica da maioria dos cristãos) provavelmente não hesitariam em rotular o teólogo como mais um herege.

Entretanto, apesar de concordar com essa visão de Bultmann sobre o mito da ressurreição, não posso deixar de observar o restante de seus pensamentos expostos por McGrath. Há, parece-me, duas posições utilizadas por Bultmann para, de certa forma, “justificar” o cristianismo.

Uma é que “Tudo o que a crítica histórica pode estabelecer é que os primeiros discípulos vieram a crer na ressurreição“, ou seja, não houve a tão proclamada volta dos mortos, mas sim um tipo de boato que os discípulos de Jesus tomaram como verdadeiro e que milhões continuam tomando até hoje. Esse boato teria tornado possível o nascimento de uma nova religião com a presença de um dos elementos mais básicos que as religiões, em geral, apresentam: o sobrenatural, o fantástico, o extraordinário.

A outra, essa de cunho mais prático, é a importância não da fábula de um homem voltando dos mortos, mas sim da persistência de seus ensinamentos e sua mensagem, os quais não morreram com ele, mas “ressuscitaram” na extensiva pregação de seus discípulos.

Ora, assumindo que o dogma central do cristianismo (a ressurreição) é apenas mais um mito como centenas de outros que fazem parte das mais diversas religiões que existem ou já existiram, o que sobra? Um conjunto de ensinamentos morais (que sequer poderiam ser chamados de inéditos) disseminados pelos seguidores de um homem comum e compilados por autores que sequer viveram na mesma época do divulgador dessas mensagens? Se é assim, qual a diferença prática entre Jesus e alguns dos grandes filósofos da história (seja os antigos gregos, ou os iluministas, ou até alguns contemporâneos)? Qual a diferença entre o nazareno e Confúcio? Ou entre Jesus e Siddharta Gautama? Ou até entre Jesus e Maomé? Partindo do pressuposto que eram todos homens comuns que não passaram por qualquer experiência divina ou sobrenatural (afinal, todas as ressalvas feitas por Bultmann para o mito da ressurreição de Jesus valem para qualquer figura semelhante), seguir uma ou outra religião não seria exatamente a mesma coisa de ter um determinado posicionamento filosófico ou político?

Tenho que admitir que gostei bastante de conhecer essa visão de Rudolf Bultmann, e fico pensando se não seria muito interessante para a laicidade e o secularismo que mais pessoas religiosas conhecessem e compartilhassem dessa visão pé no chão de supostos eventos fabulosos.

Homeopatia na Scientific American Brasil

Foi com certa surpresa que vi um nota sobre homeopatia ao ler meu exemplar de abril/2012 da revista Scientific American Brasil. Transcrevo abaixo o que dizia a nota, sob o título “Eficiência Questionada da Homeopatia”:

Logo mais abaixo há uma transcrição da matéria

Pouco depois de ler essa nota, não me contive e enviei um email para a redação da revista, na esperança de vê-lo publicado no mês que vem para fazer um contraponto ao que foi divulgado. Segue o meu email:

A nota publicada na edição de abril/2012 sob o título “A eficiência questionada da homeopatia” pareceu-me  meio deslocada em uma publicação do porte e da qualidade da Sciam Brasil.

Ao longo dos anos acumulam-se evidências da ineficácia de ação dos preparados homeopáticos e da implausibilidade dos pressupostos dessa forma de terapia (cito, por exemplo, uma extensa revisão publicada na revista The Lancet em 2005, além de outras revisões disponíveis nas bases de dados científicas).

Apesar do tom crítico do título da nota, o texto em si é composto apenas de informações jogadas pela autora sem uma mínima apresentação de quaisquer evidências confiáveis. Cabe resslatar que apenas dizer que “pesquisas têm sido feitas” não diz muita coisa, haja vista não sabermos a qualidade metodológica das mesmas. Outra estratégia da autora é simplesmente atacar os agrotóxicos e as técnicas atualmente utilizados no controle de pragas e doenças agrícolas, como se os malefícios causados por estes venenos fossem motivo para, automaticamente, acreditarmos que a homeopatia tenha alguma eficácia.

E como não poderia deixar de ser, a autora ainda apela para os conceitos de “energia” e “física quântica” (já que com a química ela não pode contar) para fugir da constatação óbvia de que compostos homeopáticos são nada mais nada menos que água pura.

E eu não estou sozinho nessa. Houve até repercussão internacional, motivada por um email de um leitor brasileiro do site Science-Based Medicine. Felizmente o artigo que Hariett Hall escreveu se encontra disponível em inglês e em português, o que me fez publicá-lo no site do Desafio 10:23 e agora neste blog (reprodução na íntegra abaixo):

Autor: Hariett Hall

Fonte: Science-Based Medicine

Recentemente recebi um email de um dos leitores do SBM no Brasil, Felipe Nogueira Barbara de Oliveira, um aluno de Doutorado em Ciências Médicas e que possui Mestrado em Ciência da Computação e está tentando promover pensamento crítico e medicina científica no seu país. Ele me enviou uma cópia em .jpg de uma pequena matéria publicada na edição de Abril de 2012 da Scientific American Brasil. Ele ficou horrorizado que isso apareceu sob a alcunha da Scientific American, e eu também. A matéria é a seguinte.

Aviso: isto é doloroso.

Eficiência Questionada da Homeopatia

Aplicação dessa técnica à agricultura acena com recuperação de plantas e ambiente

A homeopatia é conhecida como tratamento alternativo para os seres humanos, mas poucos conhecem sua utilização em animais, plantas, solos e água. Essa técnica é alvo de críticas quanto aos resultados e eficácia. Uma delas diz respeito ao “efeito placebo” de seus remédios, que não contém nenhum traço da matéria-prima utilizada em sua confecção. Para responder a essa abordagem é necessário um esclarecimento: a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados.

A aplicação da técnica homeopática à agricultura não é recente, como a maioria das pessoas podem considerar. Um dos primeiros estudos feitos nessa área remonta à década de 20, com pesquisas em plantas realizadas pelo casal Eugen e Lili Kolisko, baseadas nas teorias de Rudolf Steiner para agricultura biodinâmica. Desde então muitas pesquisas tem sido feitas em países como Franca, Índia, Alemanha, Suíça, Inglaterra, México, Cuba, Itália, África do Sul e Brasil. Aqui a Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, é pioneira nessa área.

Não é preciso ser especialista em saúde ou em meio ambiente para perceber que o método convencional de tratamento de pragas e enfermidades na agricultura gera um desequilíbrio no ecossistema e, consequentemente, no ser humano. Agentes patogênicos e pragas vão adquirindo, com o tempo, resistência aos agrotóxicos – que, por estratégia de mercado, passaram a ser chamados de “defensores agrícolas”. Assim, a quantidade e a agressividade desses produtos químicos tem ser aumentadas para contornar essa situação, provocando um efeito cascata desastroso: o solo se torna mais pobre e diminui sua produção; trabalhadores rurais ficam gravemente doentes pelo manuseio constante desses produtos tóxicos; as águas, incluindo as subterrâneas, são contaminadas; e os seres que dependem dos frutos da terra recebem toda essa carga de veneno, desencadeando uma série de problemas de saúde.

Com exceção das indústrias de agrotóxico e fertilizantes químicos, quem mais se beneficia com a prática desses tratamentos convencionais?

Se Hipócrates pudesse reavaliar o seu principio dos contrários, representado pela alopatia, e suas posteriores conseqüências nos seres vivos e no meio ambiente, ele o excluiria suas considerações. Já a homeopatia como técnica sustentável, economicamente viável e ecologicamente correta torna-se imprescindível ao equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem.

Autora: Nina Ximenes, bióloga, é pós-graduada em educação ambiental.

É tão ruim que não sei nem por onde começar. Homeopatia não é nada mais que um sistema elaborado de distribuição de placebos. É baseado em pensamento mágico. Ciência básica nos garante que a homeopatia não pode funcionar como afirma (com água lembrando uma substância que não está mais presente e com soluções mais diluídas produzindo efeitos maiores).

E não há evidência confiável que possui algum efeito terapêutico em humanos, muito menos em animais, plantas, solos e água. Não tem nada a ver com física quântica: efeitos quânticos são significativos apenas nas escalas atômica e subatômica, e não explicam a afirmação da homeopatia que a água “lembra” a substância original, muito menos como essa memória poderia afetar a saúde. A afirmação que a homeopatia “trabalha com energia” é apenas imaginação, não demonstrada por evidências.

Rudolph Steiner foi um filósofo que criou o movimento espiritual chamado antroposofia. A ciência de Steiner é a tão chamada “ciência espiritual.” Medicina antroposófica e agricultura biodinâmica são dois ramos da “ciência” de Steiner que ainda são populares em alguns círculos, mas que foram perfeitamente caracterizados como pseudociência por verdadeiros cientistas. Se quiser saber mais sobre medicina antroposófica, você pode ler o que Dr. Gorski escreveu (em inglês) sobre isso aqui.

A autora usa uma linguagem inflamatória para fazer extravagantes  afirmações de danos de pesticidas e fertilizantes, sem nenhuma tentativa de prover alguma evidência para apoiá-las. Ela usa o termo “alopatia”, uma palavra pejorativa sem significado inventada por Hahnemann, o criador da homeopatia, para denegrir seus principais rivais. A autora refere-se ao “princípio dos contrários” de Hipócrates, uma distorção e simplificação de suas idéias. Hipócrates foi um homem esperto, e eu gosto de pensar que, se ele estivesse vivo, ele teria rejeitado a antiga teoria dos “quatro humores” e homeopatia, e teria adotado o método científico. A autora questiona “quem mais se beneficia” das convencionais práticas na agricultura. Eu argumentaria que há benefícios para pessoas que poderiam ter morrido de fome devido a escassez de alimentos se fertilizantes e pesticidas não tivessem funcionado para aumentar a disponibilidade de alimentos. Isso não significa que as práticas correntes não devem ser melhoradas e que não devem ser feitas com mais segurança, mas descartá-las de uma só vez e substituí-las por homeopatia dificilmente é a resposta!

Eu gostaria de saber se isso é algum tipo de sátira, mas eu acho que não. A matéria está na seção “Avanços” e com o rótulo “Saúde”. A autora está nos caçoando, ou ela realmente acredita que “a homeopatia torna-se imprescindível para o equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem”? Talvez ela esteja falando de algum planeta em um universo paralelo, ou dos sonhos dela. Se a Rainha Branca de Alice no Pais das Maravilhas tentasse acreditar nisso antes do café da manhã, o cérebro dela poderia explodir.

Se isso é o que se passa por ciência no Brasil, Brasil está em apuros. Aparentemente as coisas não mudaram muito desde que Richard Feynman teve seu encontro decepcionante com o sistema de educação brasileiro. No entanto, é claro que não é justo destacar apenas o Brasil, porque essas mesmas coisas acontecem em outros países.

Se isso é o que se passa por ciência para Scientific American, a revista é uma caricatura repreensível e deveria cortar a palavra “scientific” do seu título. No que os editores estavam pensando quando eles impuseram esse tipo de lixo aos seus leitores? Que vergonha!

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Nota do Editor: Em 05/04/2012, a Scientific American Brasil, por meio de seu editor-chefe, Ulisses Capozzoli, publicou no Blog da Sciam Brasil uma nota de esclarecimento chamada “Erro de Avaliação”. Segundo Capozzoli,

“Quando cometi o erro de avaliação a que me referi há pouco, atropelei o conteúdo conceitual: Scientific American, refletindo talvez a maioria das opiniões no meio científico, entende que homeopatia não é ciência.

Leitores indignados com minha avaliação enviaram e-mails à redação e abordaram a questão na rede social, o que permitiu que eu me desse conta da falha que havia cometido.”

O texto completo está disponível no Blog da Sciam Brasil.

O “mesmo deus” e a divergência que varremos para baixo do tapete

Autor do texto: Eli Vieira, texto publicado originalmente na página da LiHS no Facebook

Nota do blog: Concordo integralmente com o texto abaixo, escrito no Facebook por Eli Vieira, por isso resolvi publicá-lo neste espaço. Obviamente todos devemos tentar viver pacificamente, inclusive (e principalmente) os seguidores das mais diversas religiões. Todavia, maquiar as claras e enormes incongruências existentes entre essas diferentes religiões sob o mentiroso pretexto de que “todas seguem o mesmo deus” não passa de desonestidade intelectual e uma grande “bundamolice”.

Boas intenções geralmente estão por trás da afirmação de que cristãos, muçulmanos e judeus acreditam no “mesmo Deus”. É uma tentativa honesta de aproximação “ecumênica” feita por teístas.

Mas tem alguma base? Parece estranho supor que o deus que mandou seu filho como bode expiatório para pagar pelos erros dos outros (cristianismo) seja o mesmo que permitiu a Maomé voar sentado num cavalo alado e pregar a Jihad, além de negar que Jesus fosse algo mais que um profeta. O deus do “povo escolhido” de nome impronunciável, YHWH, não parece ser o mesmo Javé que assistiu impassível a milênios de antissemitismo na Europa que culminaram no holocausto.

Em obras de ficção em que há um gêmeo bom e um gêmeo ruim, espera-se que o público consiga separá-los não pelo nome ou pela aparência, mas pelas atitudes. Como pode ser um “mesmo deus” personagens com atitudes tão contraditórias nos três grandes monoteísmos?

Mas nem precisamos ir tão longe: dentro das diferentes vertentes dentro de cada monoteísmo há discrepância de supostas ações divinas. O deus que diz que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus não parece ser o mesmo que abençoa o cartão de débito de R. R. Soares, a conta bancária de Edir Macedo e o trono de ouro do Papa Bento XVI.

Quando o filósofo Bertrand Russell foi preso por fazer militância pacifista em 1918, teve de responder a um pequeno questionário na entrada da prisão. Quando foi perguntada sua religião, e Russell respondeu “agnóstico”, o oficial de segurança respondeu “Bem, há muitas religiões, mas suponho que todas adoram o mesmo Deus”.

Se é para levar em conta o que as religiões alegam sobre seus deuses, sequer podemos considerar que o deus único do qual falam os monoteístas é o mesmo, se dermos crédito às ações que atribuem a ele.

O erro do guarda da prisão de Russell é o desinteresse em conhecer o que dizem os discordantes, para assumir que toda posição diferente é uma analogia de sua posição própria. É este o erro de monoteístas que assumem que todas as religiões acreditam num único deus, fechando os olhos para os politeísmos que vicejam pelo planeta, e para religiões ateias, que não são poucas. (É, ateus, sinto muito, mas a cientologia é uma religião ateia.)

No afã proselitista de tentar converter pessoas para suas crenças, que nunca poupa, evidentemente, as posições diferentes de ataques, muitos tentam fingir que o grupo ao qual pertencem é monolítico, quando é na verdade um verdadeiro ninho de gatos de discordantes enrustidos.

Um exemplo disso é como podem ser diversas as posições criacionistas: existem criacionistas de Terra jovem que alegam que o planeta tem 6 mil anos, e existem criacionistas de Terra antiga que sopram mais velinhas para ela, que podem chegar às 4,54 bilhões que as evidências mostram. Mas isso não interessa para eles, pois estão preocupados apenas em converter mais pessoas para a crença de que as espécies vivas foram feitas à mão por Deus, que aparentemente ficou proibido de usar qualquer maquinário de leis imutáveis para gerar os resultados imprevisíveis que geraram. Aparentemente o trabalho braçal é o preferido para entidades oniscientes.

Como pode ser que o suposto criador tenha tanto interesse pelo Oriente Médio, que é apenas 1,4% da superfície do planeta, e por que, dos 200 mil anos de idade da nossa espécie, ele escolheu apenas os últimos 5 mil anos para começar a se revelar para povos dessa pequena região?

Ah, não faça essas perguntas, o importante é que acreditamos no “mesmo deus”, ou seja, escolhemos dar o mesmo nome para personagens diferentes que protagonizam narrativas incompatíveis entre si. Isso quando as narrativas dão espaço para algum personagem.

Abraçar a diversidade de opinião não significa fazer um espantalho de todas que não são a sua, fazendo delas uma analogia da sua posição.

Não, hindus não acreditam no “mesmo deus” dos cristãos. Não, ateus não têm “raiva de deus”. E não, religiões não são “ciências falidas”, nem toda religião, se alguma, tem o propósito de explicar metodicamente tudo o que se encontra no mundo.

Para quem adota o racionalismo, há, sim, critérios para ranquear opiniões, e são os critérios da lógica e da evidência. Mas quando a lógica está perfeita mas a evidência não favorece diferencialmente as alternativas disponíveis, cabe a cada um justificar como puder sua posição pessoal sobre um assunto, sem deixar de compreender bem posições discordantes, afinal só se pode ter esperança de estar certo compreendendo bem a opinião alheia, especialmente quando bem informada, pois tem-se no outro o valor da independência, e não há nada melhor para a validade da descoberta do que a pluralidade de corroborações independentes.

É por isso que lutar por um mundo em que as opiniões discordantes* saiam do armário deve ser não apenas um imperativo moral de igualdade na expressão, mas a obrigação de um pensador honesto interessado em se aproximar da verdade.

P.S.: * Xingar e atacar não é “opinião” pelo mesmo motivo que briga de bar não é arte marcial.

Crendice salgada

Acabo de ler um texto no ótimo blog do jornalista, escritor e blogueiro Carlos Orsi e me lembrei de algumas situações que já presenciei com pessoas próximas a mim.

No texto “Arqimedes e o mau-olhado“, Carlos Orsi descreve uma curiosa história. Segue abaixo o trecho:

Encontro um amigo que me conta algo curioso que aconteceu na empresa onde trabalha: a execução de um processo para detectar “mau-olhado” no setor, já que algumas pessoas vinham sentindo um “clima carregado” por ali.

O método: põe-se sal num copo; completa-se o copo com água; joga-se um pedaço de carvão na água salgada. E, se o carvão boiar, é porque há influências maléficas no ambiente.

Agora, para tudo. Voltemos à lição de Arquimedes em Siracusa, dois milênios e uns quebrados atrás: se um objeto tem densidade menor que a da água, ele inevitavelmente tenderá a boiar, a despeito da presença de Lúcifer, Exu, Sauron ou Darth Vader ali, na mesma sala.

Alguns dados: a densidade do carvão vegetal comum vai de 0,31 g/ml a 0,18 g/ml, de acordo com este ensaio científico. Isto é de 70% a 80% menos que a densidade da água comum, de 1g/ml. A água salgada é ainda mais densa que a água pura. No Mar Morto, por exemplo, a densidade chega a 1,24 g/ml.

Acho que já ficou mais do que claro que o “teste” não passa de um jogo de cartas marcadas para garantir que a leitura de mau-olhado dê “positivo” — o resultado é tão certo quanto seria jogar uma maçã para o alto e dizer que, se ela não entrar em órbita, é porque fomos todos amaldiçoados pela Bruxa Malvada do Oeste.

É evidente que testes assim garantem aos vendedores de figas, ramos de arruda, trabalhos, orações, benzeduras, fogueiras santas e descarregos em geral um fluxo contínuo de diagnósticos preocupantes que favorece a prosperidade de seus respectivos negócios. Mas a questão principal nem é essa: é o fato de pessoas com diploma universitário ficarem olhando para o carvãozinho flutuante como se ele fosse um misterioso oráculo, e não uma mera reafirmação de leis da física descobertas há 23 séculos.

Pois é. Eu mesmo conheço algumas pessoas que cairiam nessa história do carvão, e afirmo isso porque já as ouvi dizendo que mantém atrás da porta de entrada de suas casas um copo com um pouco de água e sal grosso para “limpar as energias negativas” ou “afastar o mau-olhado”, dica esta que parece ser muito difundida nos meios “esotéricos”. (pausa para risadas)

Sério! E não são pessoas com baixa escolaridade ou coisa parecida. São familiares, colegas de trabalho, conhecidos, todos com, pelo menos, ensino médio completo; a maioria graduados e pós-graduados.

Acho engraçado que a recomendação é que se troque o copo toda semana, supostamente para não saturá-lo com “energias negativas”. (nova pausa para risadas)

Com certeza, se você resolver colocar um copo com água e sal grosso em qualquer canto da sua casa, deve trocá-lo toda semana mesmo, mas não por causa das “energias negativas”, e sim porque depois de um tempo o copo vai ficar cheio de borra de sal, visto que ele se cristaliza com a evaporação lenta da água e vai se depositando nas paredes do copo. Só isso. Um processo físico que qualquer moleque pode aprender na escola primária em uma aula bem dada de ciências.

Pena que alguns adultos se esquecem de lições tão básicas.

Abaixo o resultado de um experimento no qual o uso do sal grosso é amplamente recomendado e cuja eficácia é cientificamente comprovada.

Quem precisa de um ajustador?

Este texto foi publicado originalmente na seção “Periódico Bule” do Bule Voador.

Se pararmos um pouco para pensar, muitos de nós podem chegar à conclusão de que as leis da física e suas constantes parecem finamente ajustadas para que o Universo seja como é, e em especial para que nossa existência seja possível. Porém, como citou Carlos Orsi em um texto de 02/02/2011: “Não é o Universo que é ajustado para nós, nós é que somos ajustados para ele”).

Tendo em vista essa incrível excepcionalidade, muitos se voltam para a crença em um “Ajustador Fino” (“Fine Tuner”), que teria determinado todas as características do Universo, de forma a poder existir como existe e, além disso, permitir que em um planeta rochoso orbitando uma pequena estrela na periferia de uma Galáxia comum, a vida surgisse. O conhecido Dinesh D’Souza é um deles (veja no início deste vídeo, e claro veja também a resposta de Christopher Hitchens).

Mas será que as características únicas de nosso Universo são realmente tão excepcionais e necessárias para o surgimento da vida?

Estudos de Alejandro Jenkins e Gilad Perez [1] indicam que talvez não. Esses autores desenvolveram modelos de valores alternativos para algumas constantes físicas diferentes das nossas, os quais poderiam levar a universos com propriedades interessantes, inclusive a capacidade de sustentar a vida.

Tomemos como exemplo a força nuclear fraca. Essa força desempenhou em nosso Universo primordial um papel importantíssimo, pois ela é, dentre outras coisas, responsável por permitir as reações que transformam um nêutron em um próton e vice-versa. Essas reações servem de base para que a fusão nuclear ocorra nas estrelas (fusão de 4 prótons, ou núcleos de hidrogênio, com posterior transformação de 2 desses prótons em nêutrons, e conseqüente formação de Hélio-4 com liberação de energia), com a posterior síntese de outros elementos mais pesados no fim da vida estelar (e dispersão destes por meio de explosões de supernovas), e a possibilidade de existência de planetas rochosos orbitando estrelas médias a uma distância segura para o surgimento da vida.

E o que aconteceria se eliminássemos a força nuclear fraca? Em um universo sem essa força, a fusão de prótons para a formação de hélio-4 seria impossível, uma vez que não ocorreria a transformação de 2 prótons em nêutrons. Todavia, alguns outros ajustes nesse modelo (por exemplo, na assimetria original entre matéria e antimatéria) permitiriam que uma grande quantidade de deutério (hidrogênio-2, um próton e um nêutron) fosse criada logo após o Big Bang, algo que não aconteceu em nosso Universo. Assim, as estrelas nesse universo sem a força nuclear fraca gerariam energia por meio da fusão de um próton com um deutério, formando hélio-3. Tais estrelas seriam menores e mais frias do que as que conhecemos, brilhariam por cerca de 7 bilhões de anos e irradiariam energia a uma taxa comparável a uma fração da irradiada pelo Sol (o que faria com que planetas passíveis de abrigar vida devessem estar cerca de seis vezes mais próximos de suas estrelas do que nós estamos do Sol).

Devido à pouca disponibilidade de nêutrons, esses astros não sintetizariam elementos além do ferro, porém este e os outros abaixo dele na Tabela Periódica poderiam existir no coração das estrelas desprovidas de força nuclear fraca. A dispersão desses elementos universo afora também seria diferente, pois a inexistência da força nuclear fraca impediria a explosão de supernovas como as que conhecemos. Entretanto um outro tipo de supernova, uma explosão termonuclear por acreção ao invés de colapso, seria possível, dispersando elementos pelo espaço, o que poderia levar ao desenvolvimento de novas estrelas e até de planetas. A tabela de elementos terminaria no ferro, exceto por traços de outros elementos mais pesados, porém esse fato não impede o desenvolvimento de uma química semelhante a que temos em nosso Universo e, dessa forma, o palco estria montado para o surgimento da vida em algum planetinha rochoso banhado por oceanos.

Em outro modelo, foi estudado até que ponto as massas dos três quarks mais leves (updownstrange) poderiam variar e ainda permitir a química orgânica baseada em carbono, hidrogênio e oxigênio, que até o momento é a única que conhecemos como alicerce da vida. Em nosso Universo, o quark down é duas vezes mais pesado que o quark up (e o strange é muito pesado para participar de qualquer reação nuclear), nêutrons possuem dois downs e umup, enquanto prótons têm dois up e um down, essas características garantem a existência de hidrogênio estável e carbono-12 estável (química orgânica que conhecemos). No caso de um universo em que o up é mais pesado que o down, o próton seria mais pesado que o nêutron (o contrário da nossa realidade) e não seria possível formar hidrogênio estável (pois o próton capturaria o elétron do átomo e se transformaria em nêutron), porém deutério (hidrogênio-2) e trítio (hidrogênio-3) seriam estáveis, assim como formas de oxigênio e carbono (em especial o carbono-14), essas características não seriam um obstáculo fundamental para o desenvolvimento da vida.

Mesmo em um cenário completamente estranho, no qual o quark strange fosse leve o suficiente para participar de reações nucleares, novas partículas (formadas por um strange e dois down, batizadas de “sigma”) poderiam substituir os prótons nos núcleos atômicos, formando elementos estáveis (“hidrogênio-sigma” e “carbono-sigma”) que permitiriam o surgimento de uma química orgânica completamente diferente da nossa, porém passível de sustentar vida.

Outra questão interessante é a Inflação Cósmica. Em resumo, trata-se da idéia de que o universo passou por um surto primordial de crescimento intenso, o que teria estabelecido a geometria e a uniformidade do Cosmos, levando o universo a ser como é. Todavia, alguns modelos desenvolvidos sugerem que a mesma geometria e uniformidade de um universo poderiam surgir sem a necessidade desse período de expansão hiperacelerada.[2] Inclusive há defensores da idéia de que de todas as formas que um universo poderia começar, apenas uma pequena fração conduziria ao estado relativamente uniforme que vemos hoje, e que os “inícios” sem Inflação seriam majoritários em relação a universos como o nosso, que passaram por essa fase. Assim, temos mais uma situação em que o nosso Universo não é tão improvável assim, tampouco o único possível de se desenvolver, posto que outras formas de desenvolvimento do Cosmos levariam a um resultado semelhante.

Tendo em vista o que foi apresentado neste texto, podemos considerar que não é necessário postular a existência de um ajustador para explicar as particularidades do nosso Universo que levaram, por exemplo, ao surgimento da vida na Terra. Parafraseando Stephen Hawking e Leonard Mlodinow no recente livro “O Grande Projeto”: não precisamos de um deus para explicar o Universo.

Referências:

[1] Jenkins, Alejandro; Perez, Gilad. A busca pela vida na estranheza do Multiverso. Scientific American Brasil. Edição Especial nº 41.

[2] Steinhardt, Paul J. Alternativas para o Universo ser como é. Scientific American Brasil. Ano 9, Edição nº 108, maio/2011.

Tabu X Razão

Autor: Bertand Russell

Fonte: A Sociedade Humana na Ética e na Política – 1954

Editor: Alex Rodrigues

Nota do blog: O trecho abaixo foi retirado de um livro escrito em 1954, dessa forma algumas informações obviamente soarão anacrônicas. Todavia o cerne do que é exposto continua válido e muito do que é escrito poderia muito bem ser exemplificado com fatos mais próximos de nossa atual realidade, todavia decidi manter o texto sem grandes alterações.

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Os princípios morais baseados na superstição penetram nas sociedades civilizadas muito mais profundamente do que se imagina. Pitágoras proibia o feijão e Empédocles julgava que era nocivo mastigar folhas de louro. Os hindus estremecem ante a idéia de comer carne bovina, ao passo que os maometanos e judeus ortodoxos consideram impura a carne do porco. Santo Agostinho, o missionário da Grã-Bretanha, escreveu ao Papa Gregório o Grande para saber se as pessoas casadas podiam entrar na igreja se tivessem tido relações na noite precedente, tendo o Papa estabelecido que só o poderiam fazer após um banho cerimonial. Houve uma lei em Connecticut que considerava ilegal um homem beijar sua esposa aos domingos. Em 1916, um clérigo da Escócia escreveu uma carta à imprensa atribuindo os insucessos dos Aliados na luta contra a Alemanha ao fato de o governo inglês haver encorajado o plantio de batatas aos domingos.

Todas essas opiniões só podem ser justificadas à base do tabu.

Um dos melhores exemplos de tabu é a vigência de leis ou regras proibindo várias formas de endogamia.

Às vezes uma tribo é dividida em um certo número de grupos e o homem tem de escolher sua esposa em grupo diferente do seu. Na Igreja Grega os padrinhos de uma mesma criança não se podem casar. Na Inglaterra, até há pouco, o homem não podia desposar a irmã de sua falecida mulher. Tais proibições são impossíveis de justificar sob a alegação de que essas uniões proibidas possam causar algum mal; encontram apoio, tão somente, no respeito às velhas superstições. Mas, além disso, as formas de incesto que a maioria de nós outros ainda considera como não devendo merecer a sanção da lei são encaradas, por muitos povos, com um horror que não guarda proporção com o mal que possam acarretar, e que tem de ser considerado como resultante de um tabu primitivo.

O tabu apresenta grandes vantagens como fonte de comportamento moral. Psicologicamente é muito mais imperativo do que qualquer lei ou regra puramente racional. Compare, por exemplo, a indignada aversão ao incesto com a calma reprovação que suscitam crimes tais como o de falsificação, que não são encarados supersticiosamente. Além disso, a moral baseada no tabu pode ser perfeitamente precisa e definida. É verdade que ela pode proscrever atos inofensivos, como o de comer feijão, mas, provavelmente, proibirá também ações genuinamente perniciosas, tais como o assassinato, e o faz com mais sucesso que qualquer outro método ético ao alcance das coletividades primitivas onde, além disso, contribui para assegurar a estabilidade dos governos.

Quando os ortodoxos argumentam que a rejeição dos dogmas leva, certamente, à decadência dos costumes, o maior dos argumentos em que se apóiam é a utilidade do tabu. Quando os homens deixam de sentir um respeito supersticioso por preceitos antigos e veneráveis, podem não se contentar mais com desposar a irmã de sua falecida esposa ou plantar batatas aos domingos; podem prosseguir para pecados mais atrozes como o homicídio e a traição.

No entanto, os argumentos contra a validade da moral tabu são, para mim, de peso muito maior que os a ela favoráveis e, como estou empenhado na tentativa de expor uma ética racional, preciso apresentar essas opiniões a fim de justificar minha tese.

O primeiro argumento é que, numa sociedade onde a educação é moderna e científica, é difícil manter o respeito pelo que é meramente tradicional, a menos que, por um rígido controle sobre a educação, se elimine a possibilidade de haver pensamento livre. Se você for educado como protestante, deverá ser mantido alheio ao fato de ser o sábado, e não o domingo, o dia no qual é pecado plantar batatas. Se sua educação for católica, deverá ignorar que, a despeito da indissolubilidade do casamento, duques e duquesas podem ter seus casamentos anulados pela Igreja diante de provas que não seriam julgadas suficientes para um casal plebeu. Esse grau necessário de estupidez é socialmente pernicioso e só pode ser obtido por meio de um regime rigidamente obscurantista.

O segundo argumento é que, se a educação moral dor limitada à inculcação de tabus, o homem que desrespeitar um deles derrubará, provavelmente, todos os demais. Se tiverem lhe ensinado que todos os Dez Mandamentos são obrigatórios e chegar à conclusão de que o trabalho nos dias de guarda não constitui pecado, poderá terminar concluindo ser o assassinato também admissível e não haver razão para considerar qualquer ato pior do que o outro. O colapso moral que acompanharia uma irrupção repentina de livre-pensamento é atribuível à falta de uma base racional para o código ético tradicional. Não houve tal colapso entre os livre-pensadores ingleses do século XIX principalmente porque eles acreditavam no utilitarismo como base não teológica para a obediência àqueles preceitos morais considerados válidos, os quais eram, de fato, todos os que contribuíam para o bem-estar da comunidade.

O terceiro argumento se baseia no fato de, em qualquer código moral inspirado em tabus que tenha existido até hoje, sempre terem havido alguns preceitos positivamente perniciosos, alguns em alto grau. Considere, por exemplo, o texto seguinte: “Não permitirás que viva uma feiticeira.” (Êxodo, XXII, 18). Como resultado desse versículo, e apenas na Alemanha, foram sacrificadas umas 100.000 feiticeiras nos cem anos decorridos entre 1450 e 1550. A crença na feitiçaria estava generalizadas na Escócia e foi alimentada por Jaime I, na Inglaterra. Foi para adulá-lo que “Macbeth” foi escrito, e as feiticeiras faziam parte da bajulação. Sir Thomas Browne afirmava que quem negasse a bruxaria era ateu. Não foi a caridade cristã, mas a propagação dos conhecimentos científicos, a partir de Newton, que pôs fim à queima de mulheres inofensivas, na expiação de crimes imaginários. Os elementos tabu na moral convencional são menos violentos hoje do que eram há 300 anos, mas ainda continua, em parte, obstáculos aos sentimentos e costumes humanos; tal é o caso da oposição ao controle da natalidade e à eutanásia.

Mas existe outra fonte de sentimentos e preceitos éticos inteiramente diferente das até aqui mencionadas – são as concessões recíprocas ou o compromisso social. Não se baseiam, como os códigos morais que já examinamos, na superstição nem na religião; nasceram – falando-se em termos gerais – do desejo de uma vida tranqüila. Quando quero batatas, poderia ir, à noite, retirá-las do terreno do vizinho, mas ele, em revide, furtaria os frutos do meu pomar. Cada um de nós teria, então, de deixar alguém em vigilância a noite toda, para evitar tais depredações. Isto seria inconveniente e cansativo; finalmente, chegaríamos à conclusão de que dá menos trabalho respeitar as propriedades uns dos outros – sempre supondo que nenhum de nós está morrendo à míngua. A moral assim concebida, embora possa ter sido, a princípio, auxiliada por tabus ou sanções religiosas, pode sobreviver à decadência destes porque, no mínimo em intenção, oferece vantagens sobre todas as outras. Com o progresso da civilização, ela tem sido chamada a ter uma participação cada vez maior na legislação, no governo e na moral privada, embora nunca tenha inspirado emoções violentas como o horror ou a veneração que se acham ligados à religião ou à superstição.

Como somos enganados (por nós mesmos)

Introdução: Nosso cérebro tem alguns “bugs“, e constantemente somos enganados por ele. Podemos ver ou ouvir coisas que não existem. Podemos ter a impressão errada sobre uma forma ou um barulho. Podemos crer em curas milagrosas, astrologia, homeopatia, numerologia. E podemos acreditar que determinado produto é melhor do que outro unicamente pela sugestão de que assim o seja. E o trecho abaixo, retirado do livro de Leonard Mlodinow, “O Andar do Bêbado – como o acaso determina nossas vidas“, fala um pouco sobre esse último exemplo de uma forma leve e interessante.

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Nos anos 1970, a indústria dos vinhos era um empreendimento adormecido; crescia, mas principalmente nas vendas de vinhos de baixa qualidade. Então, em 1978, ocorreu um evento muitas vezes creditado pel rápido crescimento da indústria: um advogado autoproclamado crítico de vinhos, Robert M. Parker Jr., decidiu que, além de escrever artigos críticos, daria notas numéricas aos vinhos, numa escala de 100 pontos. Ao longo dos anos, a maior parte das publicações especializadas passou a fazer o mesmo. Atualmente, as vendas anuais de vinhos nos EUA passam de US$ 20 bilhões, e milhões de consumidores fanáticos evitam colocar a mão no bolso sem antes observar a classificação de um vinho para sustentar sua escolha. Assim, quando a revista Wine Spectator deu, digamos, nota 90 em vez de 89 ao cabernet sauvignon Valentín Bianchi de 2004, um vinho argentino, esse ponto a mais representou uma enorme diferença nas vendas do produto. De fato, se observarmos uma loja de vinhos, veremos que as bebidas em promoção, menos procuradas, muitas vezes possuem notas um pouco abaixo de 90. Mas qual é a probabilidade de que o  Valentín Bianchi de 2004, que recebeu nota 90, tivesse recebido nota 89 se a avaliação houvesse sido repetida, digamos, uma hora depois?

Do ponto de vista teórico, temos muitos motivos para questionar o significado das classificações de vinhos. Para começo de conversa, a percepção do sabor depende de uma interação complexa entre estímulos ao paladar e ao olfato. Em termos estritos, o sentido do paladar surge de cinco tipos de células receptoras presentes na língua: salgado, doce, azedo, amargo e umami. Este último responde a certos aminoácidos (presentes, por exemplo, no molho de soja). Mas se a percepção do paladar não passasse disso, poderíamos imitar qualquer coisa – nossa refeição preferida de bife, batata assada e torta de maçã, ou um bom espaguete à bolonhesa – usando apenas sal de cozinha, açúcar, vinagre, quinino e glutamato monossódico. Felizmente a gula não se resume a isso, e é aí que entra o sentido do olfato. Ele explica por que, se pegarmos duas soluções idênticas de água com açúcar e acrescentarmos essência de morango (sem açúcar) a uma delas, esta irá parecer mais doce do que a outra. O sabor que sentimos no vinho surge dos efeitos de uma mistura de 600 a 800 compostos orgânicos voláteis sobre a língua e o nariz. Trata-se de um problema, pois foi demonstrado que até mesmo profissionais bem treinados raramente conseguem identificar com segurança mais que três ou quatro componentes numa mistura.

As expectativas também afetam nossa percepção do sabor. Em 1963, três pesquisadores acrescentaram secretamente um pouco de corante vermelho ao vinho branco, dando-lhe aparência de rosé. pediram então a um grupo de especialistas que avaliasse sua doçura em comparação ao vinho não tingido. Para os especialistas, o falso rosé pareceu mais doce que o vinho branco, o que correspondia a suas expectativas. Outro grupo de pesquisadores deu duas taças de vinho a um grupo de estudantes de enologia. Ambas continham o mesmo vinho branco, mas a uma delas foi acrescentado um corante insípido de antocianina de uva, que fez com que o vinho parecesse tinto. Novamente, os estudantes notaram diferenças entre o vinho tinto e branco, segundo suas expectativas. E num estudo feito em 2008, um grupo de voluntários deu nota melhor a uma garrafa com etiqueta de US$ 90 que a outra com etiqueta de US$ 10, embora os sorrateiros pesquisadores tivessem enchido as duas com o mesmo vinho. Além disso, o teste foi feito enquanto o cérebro dos voluntários era visualizado com um aparelho de ressonância magnética. As imagens mostraram que a área do cérebro considerada responsável por codificar nossa experiência do prazer ficava muito mais ativa quando os voluntários tomavam o vinho que acreditavam ser mais caro. Porém, antes de julgar os enófilos, considere o seguinte: quando um pesquisador perguntou a 30 consumidores de refrigerante se preferiam Coca-Cola ou Pepsi e depois lhes pediu que testassem sua preferência, provando as duas marcas lado a lado, 21 dos 30 voluntários afirmaram que o teste do sabor confirmava sua escolha, embora esse pesquisador sorrateiro houvesse colocado Coca-Cola na garrafa de Pepsi, e vice-versa.

Quando realizamos uma avaliação ou uma medição, nosso cérebro não se fia apenas nos estímulos perceptivos diretos. Ele também integra outras fontes de informação – como a nossa expectativa.

Sobre a proibição do uso de celulares em bancos

Muitos (se não todos) já devem ter ouvido falar sobre o golpe conhecido como “saidinha de banco”.

De forma simples, funciona da seguinte forma: um ou mais indivíduos ficam dentro das agências bancárias ou nas áreas de caixas eletrônicos atentos a valores sacados por clientes. Ao perceber que alguém retirou uma quantia considerável, o ladrão liga por celular para seu(s) comparsa(s) e faz uma breve descrição da pessoa e do valor que carrega. Esse segundo time assalta o cliente logo na saída ou até meses a quarteirões de distância.

É, a imaginação humana não tem limites, para o bem ou, infelizmente, neste para o mal.

Claro que há todo um pano de fundo para ser levado em consideração quando analisamos qualquer modalidade de crime e a eficiência (ou a falta dela) do Estado em promover a solução desses casos e a diminuição das ocorrências.
Todavia, meu objetivo com este texto é trazer para discussão uma medida, em minha opinião puramente paliativa, que me parece arbitrária e injustificadamente autoritária.

Refiro-me à edição de leis que, teoricamente, proíbem o uso de telefones celulares no interior das agências bancárias. Vi em uma notícia que há uma lei municipal em Curitiba-PR que faz essa proibição. Porém, vou utilizar como exemplo a recente lei estadual aprovada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e sancionada pelo Governador Antonio Anastasia na forma da Lei 19.432/2011 (que altera a Lei 12.971/1998, a fim de incluir a citada proibição nas regras de segurança de agências bancárias e instituições financeiras).
Vejamos o que diz a nova regra:

“Art.3°-A – Fica proibido o uso de telefone móvel nas unidades de atendimento das instituições a que se refere o art. 1° (agências bancárias e instituições financeiras).
§ 1° Será permitido o uso de telefone móvel em situações de emergência ou em caso de comprovada necessidade, desde que previamente comunicado ao responsável pelo gerenciamento da unidade de atendimento.
§ 2° Compete às instituições a que se refere o art. 1° zelar pela observância do disposto neste artigo.
Art. 3°-B – Constituem infrações a esta Lei, puníveis com multa, as seguintes condutas:
I – deixar, a instituição a que se refere o art. 1°, de cumprir qualquer das obrigações previstas nesta Lei: multa de 5.000 Ufemgs (cinco mil Unidades Fiscais do Estado de Minas Gerais) a 10.000 (dez mil) Ufemgs;
II – impedir ou perturbar o regular funcionamento do sistema de segurança de unidade de atendimento de instituição a que se refere o art. 1°: multa de 2.500 (duas mil e quinhentas) a 5.000 (cinco mil) Ufemgs;
III – usar telefone móvel em desacordo com esta Lei: multa de 1.000 (mil) a 5.000 (cinco mil) Ufemgs.
§ 1° As multas previstas no caput deste artigo serão aplicadas cumulativamente, por infração.
§ 2° Os valores previstos no caput deste artigo serão duplicados a cada reincidência.
Art. 3°-C – As instituições a que se refere o art. 1° afixarão cartazes nas dependências de suas unidades informando sobre a proibição prevista no art. 3°-A.”

Certamente a intenção dos legisladores deve ser boa. Mas como diz o ditado, “de boas intenções o Tártaro está cheio”.

Resolvi trazer essa situação para debate exatamente porque estou até agora me perguntando: até que ponto deve o poder público interferir na liberdade das pessoas visando à segurança delas próprias? É sensato proibir o uso de telefones celulares por todos os clientes que frequentam diariamente essas instituições, sendo que o número de bandidos que aplicam o golpe é seguramente muito menor do que a quantidade de pessoas que lá circulam a cada hora?

Tenho a impressão que tal medida serve apenas para varrer o problema para debaixo do tapete, e acaba colando um selo de incompetência nos sistema de segurança dos bancos e nos órgãos de segurança pública do estado.

Quando vejo na TV alguma autoridade policial orientando os cidadãos a serem mais precavidos, a tomarem atitudes defensivas, a não andarem com bolsas abertas, com celulares, carteiras e valores em dinheiro à mostra, dentre outras dicas, já acho meio esquisito que tenhamos que caminhar pelas ruas sempre atentos a todo tipo de ameaça (aparentemente em algumas cidades ainda não nos livramos completamente de alguns problemas que nossos ancestrais tinham, como viver rodeados de predadores), e autoridades e especialistas em segurança admitem com isso sua perfeita ineficácia na prevenção dos mais diversos crimes.

Entretanto, esse tipo de lei leva a discussão a um outro patamar. A impressão que tenho ao ler essa legislação é que o estado de Minas Gerais considera toda pessoa que entra em uma agência bancária ou instituição financeira um potencial criminoso.
De início pensei ser apenas uma opinião leiga e solitária, porém encontrei ecos desse pensamento, por exemplo, nas palavras de Anderson Rosa Vaz, Doutor em Direito pela PUC-SP, Professor na Universidade Federal de Uberlândia, no texto “Inconstitucionalidade da Lei Mineira que proíbe uso de celulares em estabelecimentos bancários”, que além dessa preocupação que relatei ainda levanta outro ponto questionável da lei. Nas palavras dele:

“A lei, em todos os aspectos possíveis, é inconstitucional e de absoluta falta de razoabilidade social e proporcionalidade jurídica. No intuito de coibir crimes, impede a população de fazer uso de um direito de primeira dimensão histórico: liberdade de comunicação. Pior: utilizando como justificativa a “segurança pública”, transfere para os bancos – instituições de direito privado – a responsabilidade de fiscalização da lei. Significa que na prática, o cidadão será fiscalizado por vigias e seguranças patrimoniais de uma empresa terceirizada que presta serviço ao banco. Dois equívocos absolutos:
a) presume que quem usa celular dentro da instituição bancaria ou financeira é criminoso;
b) transfere para a iniciativa privada o direito de tolher direitos e garantias individuais.
Significa que direitos fundamentais são ofendidos em um plano horizontal – particular fiscalizando e restringindo direitos de particular.”

O professor Anderson Rosa Vaz ainda critica duramente essa medida ao argumentar que:

“A Lei mineira consagra uma tendência a ser revertida: formaliza um Estado Policial que subverte a proposta constitucional ao transformar o Poder Público em opressor do cidadão. A justificativa é sempre um inimigo que precisa ser combatido: o comunista, o terrorista, o bandido.”

Imediatamente me vem à cabeça o seguinte questionamento: o que se passou nas discussões na Comissão de Constituição e Justiça da ALMG? Será que os distintos parlamentares mineiros não atentaram para esse tipo de limitação da liberdade individual?

Bom, vejamos o que o deputado Delvito Alves (relator do caso) escreveu de interessante no relatório, que foi aprovado pelos demais membros da CCJ (deputados Dalmo Ribeiro Silva, Elmiro Nascimento, Inácio Franco, Ademir Lucas, Ivair Nogueira e Weliton Prado):

“Trata-se, a toda a evidência, de projeto que versa sobre segurança pública, matéria à qual a Constituição da República emprestou especial relevo, dedicando-lhe todo um capítulo, cujo artigo inaugural, de número 144, principia por estatuir que “a segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”.
Por seu turno, a Constituição Estadual, em seção específica sobre a segurança do cidadão e da sociedade, reproduz disposição com teor análogo, contida em seu art. 133. Tal preceito dispõe que a defesa social, dever do Estado e direito e responsabilidade de todos, organiza-se de forma sistêmica.
(…)
De outra parte, é preciso dizer que o projeto impõe restrições aos cidadãos, na medida em que estes ficariam proibidos de usar aparelhos celulares no interior das instituições bancárias. Uma vez mais, reportamo-nos aos termos da Constituição, quando esta proclama que a segurança é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos. Nesse particular, cada cidadão, ao sujeitar-se a tal restrição, estaria a contribuir para a promoção da segurança coletiva, conforme dito.”

Face ao exposto acima, convido os leitores a analisarem os argumentos e refletirem sobre o alcance que deve ter a mão do Estado no controle de direitos e liberdades dos cidadãos visando à nossa proteção, tendo como foco principal o caso que eu trouxe.